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triumphO desastre a que hoje assistimos na antiga Triumph era previsível. Quando a Gramax comprou a fábrica, o Ministro da Economia e o Presidente da Câmara de Loures anunciaram que os novos investidores seriam a solução. Passado um ano, a Gramax vai-se embora e prepara-se para deixar todas as trabalhadoras no desemprego.

Foram as trabalhadoras e a sua luta que têm impedido que a situação termine de forma desastrosa. Sindicatos, Governos, Tribunais e ACT todos parecem estar em sintonia: aceitam o encerramento da fábrica e os despedimentos, desde que as trabalhadoras recebam os subsídios devidos e salários atrasados. Isso é justo, mas não evita o pior.

Sem emprego, não há subsídios que garantam o futuro das trabalhadoras e das suas famílias. Sendo a maioria mulheres, além de terem muitas vezes mais uma ?jornada? de trabalho doméstico em casa, terão mais dificuldades em reingressar no mercado de trabalho. E se o conseguirem, as condições e salários serão provavelmente ainda mais baixos. Será esta a solução?

O MAS apoia totalmente as operárias da Triumph. No entanto, chamamos a que não se resignem com o despedimento. O vosso trabalho é útil e necessário! O Governo, assim como a Câmara Municipal de Loures, devem tomar as medidas para a manutenção dos postos de trabalho. O estado precisa de fornecedores na área têxtil: os hospitais, as empresas públicas, as creches etc. precisam de roupa e fardas. A antiga Triumph deve ser nacionalizada, sem qualquer indemnização à Gramax. A maquinaria deve ser confiscada e a fábrica reconvertida para fornecer o Estado e até eventuais clientes privados. Além de servir e dar lucro ao Estado, os postos de trabalho seriam garantidos!

Se os Governos podem salvar bancos e banqueiros, porque não salvam fábricas e empregos?



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/trabalhadores/1465-triumph-nao-desistam-dos-vossos-empregos.html

ahedA prisão da jovem palestina de 16 anos, Ahed Tamimi, continua despertando indignação pelo mundo afora. Porque ocorreu em frente às câmeras, por um ato de resistência elementar contra soldados de ocupação que novamente violavam seu lar e prendiam seus parentes.

O artigo, publicado no jornal Haaretz, foi escrito por Gydeon Levy, que é uma das poucas vozes entre os judeus israelenses que se levantam contra as barbáries realizadas contra os palestinos. É preciso ressaltar que o jornalista teve uma evolução política muito particular e rara, tendo transitado do sionismo mais tradicional a posições de denúncia da opressão dos palestinos e de apoio ao BDS contra Israel. O próprio artigo é uma condenação entristecida do grau de degeneração racista de sua sociedade. Nestes dias, mais um fato relevante: depois de vários anos, ocorreu a maior deserção coletiva de jovens israelenses que se negam publicamente a servir no exército de ocupação de Israel, com todas as consequências práticas, laborais e de ostracismo social que significa em uma sociedade baseada na opressão sistemática de outro povo.

Como é que os israelenses estão totalmente indiferentes ao sofrimento da garota loira atrás das grades que poderia ser facilmente sua filha?

Nas últimas duas semanas, ela apareceu nas salas de estar dos israelenses todos os dias por meio de informes superficiais sobre a extensão de sua detenção. Novamente, vemos seus cachos dourados; outra vez vemos a figura [ao estilo de pinturas] de Botticelli vestida com o uniforme marrom do serviço de segurança (o Shin Bet) e as algemas, parecendo mais uma garota de Ramat Hasharon do que uma de Nabi Saleh.

Mas nem mesmo a aparência ?não árabe? de Ahed Tamimi conseguiu tocar os corações por aqui. O muro de desumanização e demonização que foi construído por meio de campanhas de incitamento, propaganda e lavagem cerebral contra os palestinos triunfou inclusive contra a loira de Nabi Saleh.

Ela poderia ser sua filha, ou a filha de um vizinho, mas o abuso que ela sofre não desperta sentimentos de solidariedade, compaixão ou humanidade básicos. Após a explosão de ódio pelo fato de ela ter tido a audácia de fazer o que fez sobreveio a impenetrabilidade. ?Ela é uma terrorista?. Ela não poderia ser sua filha; ela é uma palestina.

Ninguém se perguntou o que teria ocorrido se Tamimi fosse sua filha. Vocês não estariam orgulhosos dela, como seu pai, que, em um artigo de opinião que merece respeito, verbalizou esse orgulho? Vocês não teriam desejado uma filha como essa, que trocou sua juventude inexistente por uma corajosa luta pela liberdade? Ou vocês teriam preferido que sua filha fosse uma colaboradora? Ou que fosse uma cabeça oca?

E o que vocês teriam sentido se os soldados de um país estrangeiro tivessem invadido sua casa de noite, sequestrado sua filha de sua cama perante seus próprios olhos, a tivesse algemado e detido por um período prolongado, simplesmente porque deu um tapa no soldado que invadiu sua casa, e deu um tapa na ocupação, que merece bem mais do que tapas?

Essas perguntas não incomodam a ninguém. Tamimi é uma palestina, ou seja, uma terrorista, e, portanto, não merece nenhum sentimento de empatia. Nada irá romper o escudo defensivo que protege os israelenses dos sentimentos de culpa, ou pelo menos de desconforto, a respeito de sua prisão absurda, sobre a discriminação feita pelo sistema judicial, que nunca teria prestado nenhuma atenção a ela se ela fosse uma colona judia.

Mesmo a mão independente do juiz, o Major Haim Balilti, não tremeu quando determinou que o ?perigo? colocado por Tamimi, uma moça desarmada de 16 anos, justifica sua detenção prorrogada. O juiz, também, é somente uma peça na máquina, alguém que realiza seu trabalho e retorna para suas filhas e filhos à noite, orgulhoso de seu dia de trabalho desprezível.

Israel se esconde atrás de uma cortina de ferro que não é mais possível furar. Nada do que Israel faça aos palestinos é mais capaz de produzir qualquer compaixão. Nem mesmo a garota-propaganda, Tamimi. Mesmo se ela fosse sentenciada à prisão perpétua por um tapa, mesmo se fosse condenada à morte, sua punição seria recebida com clara alegria ou com indiferença. Não há lugar para qualquer outra emoção humana com relação a qualquer palestino.

As organizações que representam os deficientes físicos, que travaram uma impressionante batalha por seus próprios direitos, não emitiram um pio quando um atirador de elite do Exército de Israel matou um homem com deficiência física, com as duas pernas amputadas, na Faixa de Gaza, com um tiro na cabeça. As organizações de mulheres, que lutaram energicamente contra qualquer assédio sexual ainda precisam se levantar com indignação contra o encerramento de um caso de uma presa palestina que alegou ter sido estuprada por um Policial de Fronteiras. E os membros do Parlamento não protestaram contra a vergonhosa prisão de sua colega, Khalida Jarrar, cuja detenção sem julgamento foi novamente prorrogada na semana passada por outros seis meses.

Se até Tamimi não conseguiu despertar sentimentos de solidariedade, choque ou culpa por aqui, então o processo de negação, encobrimento e repressão ? a iniciativa mais importante da ocupação depois dos assentamentos ? finalmente foi completado. Nunca houve tal horripilante indiferença por aqui, nunca o autoengano e as mentiras prevaleceram de forma tão completa em Israel e nunca houve tão poucos escrúpulos morais frente à injustiça. Nunca o incitamento tinha vencido de forma tão completa.

Os israelenses não são mais capazes de se identificar com uma brava moça, mesmo quando ela se parece com sua filha, unicamente porque ela é palestina. Não há mais palestinos que possam tocar os corações dos israelenses. Não há injustiça que possa ainda elevar nossa consciência, que se extinguiu completamente

Não nos incomodem; nossos corações e mentes estão impermeabilizados de uma forma aterrorizante.


Editoria Internacional, Esquerda Online

Foto: Ahed Tamimi, sendo escoltada pela polícia israelense no presídio de Ofir, na Palestina ocupada. Créditos: Ammar Awad/Reuters



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/palestina/1464-palestinaisrael-e-se-ahed-tamimi-fosse-sua-filha.html

tsdtOs Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica terminaram no dia 24 de Novembro de 2017 uma das greves mais compridas de que há memória. Foram precisos 23 dias consecutivos de greve para que o Governo cumprisse com a promessa de negociação feita com estes Profissionais de Saúde em Agosto deste ano.

Teve conhecimento disso? Sabe quais foram os motivos para que muitos, ao fim desta greve, levassem para casa ordenados de 140 euros?


MAS: Quem são os Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica (TSDT?s)?

Paulo Martins: A carreira de TSDT engloba 18 profissões de Saúde. Embora não seja uma caracterização adequada a algumas das profissões, podemos genericamente definir que os TSDT?s são trabalhadores que desempenham atividades técnicas de diagnóstico e tratamento de doenças em estabelecimentos de Saúde, como Hospitais e Centros de Saúde.

Na carreira de TSDT incluem-se, por exemplo, os: Técnicos de Análises Clínicas e de Saúde Pública; Fisioterapeutas; Técnicos de Medicina Nuclear; os Técnicos de Saúde Ambiental; os Técnicos de Radiologia; ou os Terapeutas da Fala.

 

MAS: Devem haver motivos muito fortes para que uma greve dure 23 dias consecutivos?

PM: A carreira de TSDT resulta da especialização existente e imprescindível nas áreas da Saúde. A criação da carreira remonta ao inicio do século XX (mais exatamente a 1901, com a reforma implementada por Ricardo Jorge) e tem vindo desde esse tempo a evoluir e atualizar-se. Resultante dessa evolução, para acesso a estas profissões, tornou-se necessário a detenção de título profissional comprovado por uma cédula profissional atribuído na sequência de uma formação superior. Em 2000, todos os cursos de acesso às profissões de TSDT passaram a licenciaturas.

Atualmente para aceder a uma profissão de TSDT é necessário possuir, como requisito mínimo, uma licenciatura na área aplicável.

Apesar de tudo isto, e de ser requisito obrigatório possuir licenciatura para a candidatura a um lugar de TSDT, os TSDT?s são os únicos licenciados no sector da Saúde do Estado que não recebem como licenciados.

 

MAS: Que não recebem como licenciados? Como é possível se lhes exigem licenciatura para exercer a profissão?

PM: É de facto difícil de explicar, mas os TSDT?s recebem o mesmo que o Estado paga a técnicos profissionais. Os TSDT?s entram na carreira a ganhar, em termos brutos, 1 020,06 ? e podem no topo da carreira (que pode demorar mais de 40 anos ou nunca ser atingido) ganhar no máximo 2 281,71 ?.

Para termos um termo de comparação, o Enfermeiro quando entra na carreira ganha (novamente em termos brutos) 1 201,48 ?, e os Técnicos Superiores de Saúde (Psicólogos, Nutricionistas, Engenheiros Sanitaristas) 1 623,00 ?.

Analisando o ganho médio mensal dos trabalhadores do sector da Saúde (valor médio remuneratório bruto onde se inclui subsídio de férias, natal e todos os suplementos):

- A carreira dos TSDT?s é a 29ª pior remunerada das 31 carreiras da Função Pública.
- A carreira dos TSDT?s é a pior remunerada das profissões de profissionais licenciados (comparando licenciaturas que possuem 240 ECTS - European Credit Transfer System);
- Só os assistentes operacionais, assistentes técnicos e administrativos auferem menos do que os TSDT?s na Função Pública;
- Um Técnico Superior de Saúde aufere mais 600 euros do que um TSDT, tendo uma complexidade de funções e uma licenciatura semelhante.

 

MAS: Mas porquê fazer greve nesta altura? Parece que esta foi uma altura em que todas as profissões do Estado decidiram fazer greve?

PM: É preciso tentar não confundir as greves. Uma coisa são os direitos legítimos de profissões que viram congeladas as suas progressões na carreira durante um longo período de tempo, como por exemplo os Professores ou os Enfermeiros, outra é a luta para o reconhecimento e discussão de uma revisão da carreira com salários correspondentes.

Ou seja, os Professores ou os Enfermeiros recebem como licenciados (embora a desigualdade salarial entre os Técnicos Superiores de Saúde e Enfermeiros também seja muito discutível), os TSDT?s não recebem como licenciados e viram, tal como toda a Administração Pública, as progressões nas carreiras congeladas nos últimos anos.

Ou seja, os professores lutam, justa e legitimamente, por reconquistar salário e direitos que lhes foram retirados através dos congelamentos das carreiras. Os TSDT?s lutam por receber um valor equivalente a um licenciado na Saúde com a mesma complexidade de funções, ou seja, 1 600,00 ?.

Será importante também referir que os TSDT?s já lutam por este direito há muito tempo. Todos os anos temos tentado chamar a atenção para esta situação, apelando ao diálogo com os sucessivos governos. Diálogo esse que se tem revelado sem sucesso. Por falta deste diálogo, somos obrigados a iniciar jornadas de luta com greves de 2, 3 dias todos os anos, que são sistematicamente interrompidas porque os sucessivos governos prometem negociar. Infelizmente têm sido promessas feitas a lápis?Já assim o é há 17 anos. Parece que os sucessivos Governos têm interesse em prejudicar os utentes, pois são estes, juntamente com os cerca de 10 000 TSDT?s, os principais prejudicados nesta luta.

 

MAS: 1 600,00 ?? Acham, portanto, que devem receber o mesmo que os Técnicos Superiores de Saúde?

PM: Sim. Não se compreende esta desigualdade dentro da Função Pública. Se para aceder às profissões são necessárias licenciaturas com o mesmo número de ECTS?s, porque é que os profissionais têm de ser renumerados de forma diferente?

Não percebemos este critério desigual e é preciso lembrar que esta desigualdade já dura há 17 anos, com graves prejuízos para os profissionais e benefício do Estado. Estado esse, a bem da verdade se diga, que tem vindo a beneficiar do trabalho de profissionais altamente classificados, muitos dos quais fazem turnos, trabalhando de noite, fins-de-semana e feriados, a troco de salários demasiado baixos para as qualificações que possuem.

 

MAS: Esta greve foi então suspensa a 25 de Novembro com a assinatura de um protocolo negocial subscrito pelos Ministérios das Finanças e da Saúde e por representantes das Entidades Públicas Empresariais, Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores de Saúde das Áreas de Diagnóstico e Terapêutica, Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica, Sindicato dos Fisioterapeutas Portugueses e Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública e de Entidades com Fins Públicos. O que consta deste protocolo e como estão a correr as negociações?

PM: O protocolo prevê que o processo negocial tenha a duração de 45 dias, prazo que pode ser prorrogado por acordo entre as partes, e incida sobre as seguintes matérias:

- Número de posições remuneratórias e respetivos níveis remuneratórios;
- Regras de transição dos trabalhadores integrados na carreira prevista no Decreto-Lei n.º 564/99, de 21 de dezembro, para a carreira especial de TSDT;
- Regime remuneratório dos TSDT?s;
- Regimes de trabalho, organização do tempo de trabalho e condições da sua prestação;
- Requisitos e a tramitação do procedimento concursal;
- Adaptação do Sistema Integrado de Gestão e Avaliação de Desempenho na Administração Pública aos TSDT?s;
- Definição de serviços mínimos em caso de greve.

Para a resolução destas situações, ficou agendada uma reunião semanal às terças-feiras, entre as partes envolvidas.

Até à data de elaboração deste artigo, já com 28 dias de negociação decorridos, foram realizadas 4 reuniões, quando já deviam ter sido realizadas 5, estando a próxima agendada para dia 3 de Janeiro. Nada está definido ainda. O Governo já veio dizer que os custos da proposta dos sindicatos sobre tabelas salariais e transições para os TSDT?s em regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas (CTFP), calculado pelo Governo não se sabe bem como em 80 Milhões de Euros, é considerado incomportável. Falta ainda saber qual o custo para 40% dos TSDT?s que se encontram em Contrato ao abrigo do Código do Trabalho (CIT).

Ou seja, para o Governo é incomportável pagar um valor justo a profissionais altamente qualificados, valor esse que já devia estar a ser pago há 17 anos. Imagine-se se tivesse de pagar retroativos sobre este valor.

Por outro lado, o Governo toma iniciativas que poderiam não ser prioritárias, como por exemplo o pagamento antecipado de 2 780 Milhões de Euros realizado em Novembro 2017 ao Fundo Monetário Internacional, sobre um valor que vencia entre Junho de 2020 e Maio 2021.

Isto tudo com a passividade de Partidos Políticos como o Bloco de Esquerda ou o PCP, que se solidarizam com a nossa luta e a acham justa, mas que depois apoiam as políticas implementadas pelo Governo. É preciso realçar que estes 2 partidos aprovaram, juntamente com o PS, PEV e PAN, o orçamento do Estado de 2018.

Ora quando se aprova um documento como este, aprova-se a totalidade das medidas nele constantes. A partir daí perde-se a legitimidade de dizer que se apoia a luta pela requalificação que uma carreira que (para que não se arraste ainda mais a precariedade promovida ao longo de 17 anos) deverá ser remunerada como merece a partir de 2018, quando, há alguns meses atrás, se aprovou um orçamento que promove essa mesma precariedade. Também é preciso recordar que esses mesmos partidos criticavam os anteriores governos por preferirem antecipar pagamentos de empréstimos a promover a subida de salários e o combate à precariedade. Situação que agora merece a sua passividade ou mesmo aprovação.

 

MAS: Parece-nos que há alguma descrença no seu discurso sobre o resultado deste processo negocial?

PM: Apesar do início do processo ter sido menos positivo, estou confiante. Penso que se os sindicatos forem firmes e insistirem na definição das tabelas salariais justas e igualitárias antes de negociarem qualquer outra coisa, o Governo aceitará encontrar uma solução justa e que resolva de uma vez por todas a injustiça que já se pratica há 17 anos.

 

MAS: Mas se tudo se resume a salários baixos e precários, porque é que esta solução se arrasta há 17 anos? Porque é que a luta dos TSDT?s não tem visibilidade na Comunicação Social? Porque é que todos os anos os TSDT?s têm de lutar pelo direito a receberem como os outros licenciados da Saúde?

PM: As atividades de diagnóstico e terapêutica, não parecendo, movimentam muito dinheiro. Por exemplo, em 2015, de acordo com dados oficiais, o Estado pagou cerca de 600 Milhões de Euros a entidades convencionadas para realizarem meios complementares de diagnóstico e terapêutica, como análises e diálise de ambulatório. Ou seja, o Estado pagou a privados exames de diagnóstico e terapêutica que o próprio Estado poderia fazer, caso houvesse interesse e fosse feita uma gestão correta de meios.

Veja-se outro exemplo. De acordo com dados do Conselho de Administração do Hospital Santa Maria Maior de Barcelos, esta unidade pede anualmente cerca de 7 000 exames que só podem ser realizados através de um aparelho de Tomografia Axial Computorizada (TAC). Porém, o Hospital não tem este aparelho, o que obriga os utentes a recorrer a entidades privadas, pagando o Estado 350 Mil Euros por ano a estes privados pelos exames ou encaminhando os doentes urgentes para Braga. Curiosamente, também o Hospital de Braga é fruto de uma parceria público-privada entre um grupo privado (José de Mello Saúde) e o Estado. Ou seja, de igual forma um grupo privado beneficia pelo encaminhamento de doentes para o Hospital de Braga. Apesar desta situação se arrastar há vários anos, o Governo continua a não apostar na aquisição deste equipamento, com benefícios evidentes para os privados e prejuízo para o Estado.

Por outro lado, havendo necessidade de realização de atividades de diagnóstico e terapêutica pelas entidades privadas, estas necessitarão obrigatoriamente de TSDT?s. Ora, pagando o que paga o Estado aos TSDT?s, porque é que os privados necessitam de pagar valores mais altos a estes profissionais? O que acontece atualmente é que os TSDT?s que trabalham no privado recebem salários iguais ou menores do que no Estado.

Ou seja, parecem haver interesses privados a imiscuir-se e a contribuir para: por um lado, abafar a luta dos TSDT?s, para que as razões da mesma sejam menos conhecidos pela opinião pública (de forma a que a generalidade das pessoas seja manipulada a pensar que são mais uns a reclamar?), e por outro, para que a situação se arraste o máximo tempo possível para que assim os lobbies privados continuem a beneficiar da gestão desastrosa dos recursos do Estado e do baixo valor pago pela mão de obra especializada.

 

MAS: Esta greve de 23 dias consecutivos foi então a forma dos TSDT?s dizerem que basta de exploração pelo Estado português? 17 anos já chega?

PM: Esta greve foi uma forma de dizer que os TSDT?s estão unidos nessa luta que julgamos justa.

Foi uma forma de dizer que queremos servir os utentes de forma profissional e rigorosa, o melhor que nos é possível, como temos feito até agora, mas que estamos revoltados pelo tratamento desigual e pela hipocrisia que temos merecido por parte deste e dos anteriores Governos.

Estamos esperançosos que as negociações cheguem a bom porto, que sejam dadas as mesmas condições que aos outros Profissionais da Saúde, como por exemplo aos Técnicos Superiores de Saúde. Não queremos ser obrigados a partir novamente para a luta, a prejudicar utentes (esta greve afectou cerca de meio milhão), mas se formos obrigados a isso, assim o faremos, pois estamos unidos e determinados em denunciar e terminar com esta descriminação intolerável.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/trabalhadores/1463-tecnicos-superiores-de-diagnostico-e-terapeutica-17-anos-de-exploracao-pelo-estado-portugues.html

trabalhadores_ae_2Somos um grupo de trabalhadores que não se tem sentido representado pela forma como a Comissão de Trabalhadores (CT) tem gerido o conflito em curso na Autoeuropa.

Por entendermos que os trabalhadores precisam de discutir que rumo dar a esta situação decidimos fazer um abaixo-assinado para garantir que depois do referendo existisse um plenário ainda este ano de 2017.

Com a postura que a CT tem adotado, não tínhamos confiança que o fizessem por iniciativa própria. Não sendo nós irresponsáveis recolhemos assinaturas para um plenário e pretendemos levar ao mesmo um conjunto de propostas que passamos a apresentar. Considerando que:

1. A Administração da fábrica é a principal responsável pela situação em que nos encontramos, já que recebeu um investimento de 700 milhões de euros para a produção de um novo veículo e não preparou a fábrica e a rede de fornecedores para a mesma (o que se pode ver pelo andamento da produção na semana passada);

2. Perante a constatação da impossibilidade de produzir a quantidade de carros necessária, a Administração pretende prejudicar os trabalhadores para resolver o problema por ela criado;

3. Na Autoeuropa os trabalhadores têm sido sucessivamente prejudicados ao longo dos anos, apesar de serem os principais responsáveis pela qualidade do que se produz e pelo bom nome da empresa dentro do grupo Volkswagen;

4. O trabalho por turnos já é uma forma de organização do trabalho prejudicial à vida familiar e à saúde dos trabalhadores;

5. Segundo o contrato colectivo em vigor, a fábrica não tem permissão para impor laboração contínua e trabalho ao sábado à noite sem o consentimento dos trabalhadores;

6. Apesar de ter criado o problema, a Administração tem assumido uma postura de desrespeito pelos trabalhadores e pretende impor-nos o horário depois de nós o termos rejeitado;

7. Mesmo implicando uma cedência da parte dos trabalhadores e apesar de não sermos responsáveis por esta situação, já foram apresentados horários menos lesivos para a nossa saúde e vida familiar e que foram rejeitados pela empresa, como o turno de fim de semana;

8. O futuro com direitos na Autoeuropa só é possível de garantir com um investimento que capacite a fábrica para fazer a produção necessária de segunda a sexta-feira;

9. Perante tal aumento de produção e correspondente aumento de lucro para a empresa, os trabalhadores deveriam estar a negociar melhorias salariais e de condições de trabalho que os aproximassem às condições dos restantes trabalhadores do grupo, e não horários mais prejudiciais.

Propomos:

1. Um acordo com a vigência de um ano, depois do qual ficará automaticamente revogado (com excepção feita ao aumento salarial);

2. Que a Administração da Autoeuropa e o grupo Volkswagen se comprometam por escrito e com validade jurídica a investir na fábrica durante o próximo ano para permitir a produção necessária de segunda a sexta-feira;

3. A preparação de um turno de fim-de-semana de 12h ao sábado (0h às 12h) e 12h ao domingo (12h às 24h), que permita que as folgas não sejam rotativas, nem de apenas um dia;

4. Um aumento salarial digno: 6,5% em 2017/2018 e 6,5% em 2018/2019 com um mínimo de 50 euros por cada ano;

5. Que em todos os passos no processo de negociação com a Administração, a Comissão de Trabalhadores se apresente com um advogado;

6. A marcação de uma greve contra a imposição do AE17 e pela satisfação das reivindicações apresentadas nesta proposta para os dias 2 e 3 de Fevereiro (sexta e sábado da primeira semana na qual a Administração prevê iniciar a imposição);

7. Um plenário por cada turno para dia 17 de Janeiro de 2018 para avaliar o ponto de situação do conflito (caso seja dia de não produção, marcar para outro dia dessa semana ou antecipar para a semana anterior).



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/trabalhadores/1462-autoeuropa-comunicado-do-grupo-juntos.html

trabalhadores_aeOs trabalhadores e trabalhadoras da Autoeuropa deram no passado dia 20 mais um exemplo de determinação e luta. Num país em suposta paz social e dita devolução de direitos pelas mãos do Governo PS apoiado por BE e PCP, estes operários tiveram a coragem de dizer não ao abuso. Eles sabem que os direitos não caem do céu e que é preciso lutar. 

Plenários de dia 20 exigem nova Greve

Os trabalhadores já recusaram, em agosto e em dezembro, dois pré-acordos feitos entre as Comissões de Trabalhadores e a Administração que impunham o trabalho obrigatório aos Sábados e até aos Domingos. Apesar das duas CT's terem feito acordos contra os interesses dos trabalhadores, e dos Sindicatos também vacilarem, os operários tiveram coragem de dizer não e de fazer o que nunca tinha sido feito: parar a fábrica.

O mesmo aconteceu nos plenários do passado dia 20. Contra a opinião da Administração, da CT, dos Sindicatos e do Governo, os operários mantiveram-se irredutíveis.

Não se limitaram a dizer não. Os trabalhadores votaram uma proposta alternativa e exequível de horários, que permite o cumprimento das metas de produção sem o trabalho obrigatório aos Sábados e Domingos. Os trabalhadores defendem a criação de um quarto turno que funcione apenas ao fim-de-semana, para o qual seriam recrutados voluntariamente trabalhadores. É um modelo semelhante ao que existe noutras fábricas, como a Continental. Os trabalhadores exigem também aumentos de 6.5%.

Para defender estas exigências, foi aprovada uma greve de dois dias no início de fevereiro e um novo plenário em janeiro, para reforçar a greve e controlar as negociações levadas a cabo pelos sindicatos e a CT. Fica evidente a diferença com os tempos da CT comandada por António Chora e também com a nova CT, que cedeu muito rápido. Isto sim é democracia operária!

Administração da Autoeuropa mantém-se intransigente

A administração da Autoeuropa é a responsável por tudo isto. A ganância e incompetência da Administração fez com que se comprometessem com metas altíssimas de produção sem que investissem na fábrica o suficiente para as cumprir. A sua expectativa era que os operários aceitassem trabalhar mais por menos, para colmatar a incompetência dos gestores. É a isso que eles chamam paz social! Mas desta vez, saiu-lhes o tiro pela culatra...

Governo e Marcelo: ao lado dos patrões

Perante o impasse, o Governo, que queria passar ao lado do conflito, foi obrigado a intervir. Apesar de se apresentar como amigo dos trabalhadores, o Governo PS procurou garantir que os desígnios da Administração eram cumpridos. Em reunião com a CT e a Administração, o ministro Vieira da Silva fez uma proposta de conciliação: os trabalhadores aceitavam o trabalho obrigatório ao Sábado e em troca haveria uma creche na empresa 24horas por dia, paga pelo estado. Ou seja, a proposta do Governo é que os contribuintes paguem uma creche (que devia ser uma obrigação da Autoeuropa, paga com os seus lucros!), a troco do aumento da exploração. A receita é a mesma de sempre: dinheiro público para lucros privados. Marcelo Rebelo de Sousa não podia deixar de opinar: na cerimónia de boas festas do Governo, o Presidente assinalou que cabia ao Governo garantir a paz social na Autoeuropa. Ou seja, cabia ao Governo calar os operários. A Comissão de Trabalhadores decidiu patrocinar a solução da creche, mas os trabalhadores não caíram na esparrela.

Site-Sul e a CGTP: negociar o quê?

No inicio do conflito, a imprensa vendeu a ideia de tudo se tratava de uma maquinação da CGTP e do PCP. Nada mais falso: a CGTP e o Site-Sul, ambos comandados pelo PCP, não se tem comportado melhor que as CT's. A primeira greve, de 30 de agosto não teve um verdadeiro apoio por parte da CGTP. Já o Site-Sul também não tem estado à altura. Tal como a CT e a CGTP só falam em negociar. Claro que é preciso negociar, mas para que a empresa negoceie o ponto que mais interessa, o trabalho ao Sábado, esta tem de ser obrigada. Mas isso só se consegue pela luta. E de luta, ao que parece, é o que Site-Sul e a CGTP nem falam. Aliás, após os plenários que votaram uma nova greve, o Site-Sul, em vez de se comprometer a colocar o pré-aviso de greve, veio de novo apelar à negociação e acusar de populismo os trabalhadores que propuseram nova greve. Os dirigentes do Site-Sul repetem hoje as acusações que António Chora fez aos trabalhadores e sindicatos há alguns meses atrás. Afinal estas organizações sindicais comandadas pelo PCP querem o mesmo que o Governo que este partido apoia: a paz social. Ou seja, que os trabalhadores cedam mais a vez.

Solidariedade, Organização e luta!

O MAS está, mais uma vez, incondicionalmente ao lado da luta dos operários da Autoeuropa. Esta deveria ser a postura de toda a esquerda e de todo o movimento sindical. É preciso cercar esta luta de solidariedade e leva-la mais além. A luta dos trabalhadores da Autoeuropa deve ser levada a todo o país e transformada numa grande luta contra a exaustão no trabalho, pelo direito dos trabalhadores e dizer não às imposições dos patrões.

Os trabalhadores já viram que só podem contar consigo mesmos. CT e Sindicatos não merecem confiança. Os trabalhadores devem auto-organizar-se para lutar pela proposta e preparar a nova greve. Devem exigir da CT que que defenda a proposta decidida em plenário e ao Site-Sul que coloque já o pré-aviso de greve. Unidos e organizados, os trabalhadores da Autoeuropa vencerão!

Não ao trabalho obrigatório aos Sábados!

Trabalhadores: confiem nas vossas forças, controlem os vossos representantes!

Todo o apoio à luta dos trabalhadores da Autoeuropa!



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/trabalhadores/1461-natal-na-autoeuropa-com-luta-no-sapatinho.html

gilbertA situação no Oriente Médio é extremamente complexa há décadas e está especialmente volátil neste momento. À crise latente não resolvida após a derrota dos levantes conhecidos como Primavera Árabe se acrescentaram o golpe palaciano na Arábia Saudita e as ondas de choque que está enviando por toda a região pelo peso da monarquia wahabista. A isso se  combina a declaração de Trump contra os direitos dos palestinos sobre Jerusalém e a reação que está gerando na Palestina e no mundo árabe e muçulmano. A região se dilacera entre forças reacionárias, e mesmo contrarrevolucionárias, e torna ainda mais urgente a construção de alternativas de esquerda e socialistas. Neste final de ano, a compreensão do que ocorre em uma região tão importante é fundamental. Para isso, publicamos entrevista com Gilbert Achcar, um dos especialistas marxistas arabofônicos mais conceituados. A publicação original foi feita no site Socialist Worker em 11 de dezembro.

O anúncio feito por Donald Trump de que os EUA iriam reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e mover a embaixada americana para lá causou uma erupção de protestos ao longo do Oriente Médio e mais além. Mas a influência e o poder de Washington na região têm estado em declínio por algum tempo, devido a uma série de reveses.

Gilbert Achcar é um socialista que se criou no Líbano e que é autor de numerosos livros, incluindo Morbid Symptoms: Relapse in the Arab UprisingClash of Barbarisms: September 11 and the Making of the New World Disorder. Ele concedeu esta entrevista para Alan Maass sobre os recentes acontecimentos no Oriente Médio e as consequências após um ano de Trump.

Em sentido horário, a partir do topo à esquerda: Destruição do Iêmen; Donald Trump; protesto na Palestina

Os EUA têm se focado principalmente em derrotar o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (EI), o que parece ter sido amplamente alcançado com as ofensivas para expulsar o EI de seus principais bastiões em ambos os países. Primeira pergunta: o que ocorrerá com o EI agora?

O EI obviamente sofreu uma séria derrota. Eles pensavam que tinham construído um estado, um califado, que duraria por um longo tempo em uma grande extensão de território na Síria e nos Iraque, e eles basicamente perderam tudo isso. Durou cerca de três anos antes de se desfazer.

Pode-se dizer que já foi uma façanha para o EI o fato de controlar um território tão grande por um tempo tão longo contra quase todos. Pois é o único grupo contra o qual houve algum grau de unanimidade entre todas as forças envolvidas na região.

O EI sofreu uma derrota pesada, mas isso não significa que irá desaparecer. Muitos dos seus combatentes conseguiram ir para a clandestinidade no Iraque e na Síria, e possuem ramificações em vários outros países. E, como vimos no caso da al-Qaeda, o terrorismo pode prosseguir no longo prazo por meio de redes clandestinas.

Tenho certeza que presenciaremos muito desse tipo de terrorismo no próximo período, porque não há uma forma real de se livrar de tamanho tormento sem mudar as condições de produzi-lo.

Hoje, essas condições são bem complicadas. Elas incluem, antes de mais nada, o terrorismo de estado, começando pelo de Israel e o perpetrado pela dominação imperialista ocidental na região. Muito do que ocorreu ao redor do mundo desde 1990 tem suas raízes nas guerras travadas pelos EUA contra o Iraque em 1991 e em 2003 e a subsequente ocupação do Iraque.

Mas há também muitos regimes despóticos na região que praticam o terrorismo de estado e que alimentam um ódio similar, criando dessa forma um caldo de cultivo para grupos como o EI.

Globalmente, estamos testemunhando o que denominei, em um livro que escrevi após o 11 de setembro, o ?choque de barbáries?. A barbárie dos poderosos cria as condições da barbárie contraria dos de baixo.

É o que estamos vendo ? e vamos ver mais disso, receio dizê-lo?seja a barbárie dos poderosos dos EUA, a mais letal de todas, ou da Rússia, ou de regimes despóticos locais tais como a tirania de Assad na Síria, o mais bárbaro dos governos regionais, ou da ditadura de Sisi no Egito, para nomear somente dois.

O outro lado da questão decorrente da conquista dos bastiões do EI no Iraque e na Síria é como isso posiciona o imperialismo americano. Qual é a posição relativa dos EUA em relação aos poderes regionais do Oriente Médio e aos seus rivais imperialistas internacionais?

Não há dúvida que os Estados Unidos estão no ponto mais baixo de sua influência na região desde 1990. Foi quando os EUA intervieram, mobilizando massivas forças na região, no preâmbulo da primeira guerra contra o Iraque. Os EUA atingiram um pico na história de sua hegemonia regional depois disso.

Isso ocorreu no momento em que a União Soviética estava em seus estertores, assim que Washington assumiu o controle completo da situação no Oriente Médio. Quando se avalia a situação atual em comparação com aquele pico se pode ver o quanto os EUA decaíram.

A mais clara ilustração foram as revoltas de 2011. E foi o ano em que os EUA tiveram que se retirar do Iraque sem alcançar nenhum dos objetivos da ocupação, deixando um país que caiu sob o controle do arqui-inimigo regional de Washington, o Irã. Teerã possui muito mais influência sobre o governo iraquiano do que Washington.

2011 foi também o ano em que aliados-chave de Washington enfrentaram revoltas de massas. Foi o caso de Hosni Mubarak no Egito, após o ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Ali.  Muammar el-Qaddafi, da Líbia, que tinha se passado para o lado de Washington em 2003, foi o seguinte, e explodiu uma rebelião no Bahrain, assustando todas as monarquias petrolíferas do Golfo.

A intervenção militar na Líbia em apoio à revolta contra Qaddafi foi a ocasião para a famosa fórmula ?liderando por detrás?, refletindo o fato que os EUA tinham uma presença mais discreta naquela intervenção do que seus aliados europeus da OTAN, que assumiram a liderança.

Mas essa intervenção se transformou em um fiasco. A tentativa de controlar a insurreição líbia e direcioná-la para uma conclusão que preservasse o estado na Líbia fracassou totalmente, e o estado líbio entrou totalmente em colapso.

A Líbia se tornou, então, o único país árabe em que a revolução teve êxito em derrubar totalmente o regime ? exceto pelo fato que não havia nenhuma alterativa disponível e menos ainda alguma que fosse progressista. O caos estava naturalmente assegurado.

A ?solução iemenita? - um compromisso entre o grupo dominante do país e a oposição, preparado pelas monarquias petrolíferas do Golfo com o apoio dos EUA, e tão elogiado por Obama que ele o apontou como o modelo a ser aplicado na Síria ? entrou tragicamente em colapso após menos de três anos.

Então, os EUA acumularam toda uma serie de reveses na região desde a invasão do Iraque. A guerra do Iraque será recordada na história do império americano como um grande erro- uma ocupação contraproducente realizada pela administração Bush contra a opinião de até amigos próximos da família Bush, que sabiam com que tipo de problemas os EUA iriam se defrontar.

Como resultado, Washington está em um ponto muito baixo em comparação com algumas décadas atrás. Os EUA aproveitaram a oportunidade da expansão do EI no Iraque em 2014 para orquestrar uma retorno limitado. Organizaram uma coalisão para lançar uma campanha de bombardeios contra o EI, estabeleceram alguma presença novamente no Iraque e fizeram o mesmo na Síria.

A principal intervenção de Washington no terreno na Síria foi do lado das forças curdas. Isso em si mesmo é um paradoxo, pois essas forças se originam de uma tradição da esquerda radical ? ainda que tenham sido os principais aliados dos EUA na luta contra o EI na Síria. Donald Trump a qualificou como ?ridículo?, declarando que iria terminar com isso.

Novamente, isso demonstra a fragilidade geral de Washington ? ao passo que o Irã está expandindo seu poder, influência e intervenção direta na região. E a Rússia, claro, aparece como a grande ganhadora em toda a situação, da Síria à Líbia.

Moscou começou a intervir diretamente na Síria com sua força aérea em 2015. Naquele momento, a administração Obama deu as boas-vindas à intervenção russa sob o pretexto de que a Rússia estaria participando na guerra contra o EI. Mas todos sabiam que o alvo principal de Moscou seria a oposição síria ao regime de Assad regime, não o EI.

Essencialmente, Washington deu à Rússia uma via livre para ajudar o regime sírio a esmagar a oposição a ele. Depois da eleição de Trump, mas antes que ele se tornasse presidente, a Rússia começou a se preparar para o papel de provedor da solução para o conflito na Síria, atuando inesperadamente como árbitro entre o regime e a oposição, com o Irã como a Turquia incluídos no processo.

Há mais um problema aqui. No outono de 2016, a Turquia, furiosa com o apoio de Washington às forças curdas na Síria, voltou-se para uma aliança com a Rússia, desta forma dando outro golpe pesado à influência dos EUA na região.

Hoje, a Rússia parece ser o país que está ganhando espaço em toda a região, ao passo que os EUA estão perdendo espaço. Moscou aparece hoje como o mais eficaz pilar da ordem repressiva regional. Depois do papel muito brutal que desempenhou na Síria, recebeu a concessão de instalações para base aéreas no Egito de Sisi para apoiar a intervenção deste último na Líbia, junto com os Emirados Árabes Unidos, em apoio ao homem forte local, Khaliha Haftar. Todas as monarquias petrolíferas, incluindo os sauditas, estão cortejando Moscou e comprando armas russas.

Donald Trump certamente não irá reverter a maré de declínio regional americano. Ao contrário, ele é a razão para uma ainda mais rápida deterioração da influência dos EUA no Oriente Médio.

E agora, Trump anunciou que os EUA irão reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Que impacto isso terá?

Esta é uma provocação completamente gratuita que somente um homem irracional como Trump poderia fazer ? irracional, ou seja, pelos padrões dos interesses do imperialismo americano.

Definitivamente não serve aos interesses americanos fazer tal jogada. Trump está fazendo isso sem razões aparentes, mas para satisfazer a ala mais reacionária de seus apoiadores e impulsionar seu narcisismo mórbido de ter ?cumprido suas promessas? de campanha quando seus predecessores não o fizeram.

Ele o fez sem oferecer nada para apaziguar os palestinos. Ele não assegurou nada em troca por parte do governo Netanyahu em Israel para fazer tal movimento. Simplesmente não faz sentido do ponto de vista da política americana nos EUA.

Isso irá custar muito para Washington, em um momento em que sua imagem, por causa dele [Trump], já é terrivelmente negativa no mundo árabe, no mundo muçulmano e no Sul Global. Qualquer que tenha sido a melhora na imagem alcançada durante o governo Obama, foi completamente destruída e substituída pela imagem mais repulsiva que os EUA alguma vez tiveram no mundo.

O resultado só pode ser mais ódio contra os EUA, gerando mais terrorismo?a arma dos fracos. E uma vez mais, a população americana pagará o preço do caráter de espoliação de sua classe dominante, assim como sofreu com o 11 de setembro, que foi um resultado direto da política dos EUA no Oriente Médio.

Deixe-me perguntar sobre a outra parte do quadro: Pode falar sobre os acontecimentos na Arábia Saudita com as manobras do Príncipe Herdeiro, Mohammed bin Salman?

O que está ocorrendo no reino saudita é, antes de mais nada, um tema doméstico - é uma luta pelo poder. O que está acontecendo é uma espécie de ?revolução palaciana?, mas em relativa câmera lenta, no sentido que ela estava sendo feita por etapas, até a recente prisão dramática de vários magnatas entre os emires e outros membros da aristocracia do país.

Estamos presenciando uma tentativa por parte de Mohammad bin Salman [geralmente referido pelas suas iniciais, MBS] para tornar o reino mais de acordo com os padrões tradicionais das monarquias, em que existe uma família mais reduzida que governa. No reino saudita, em contraste, há uma família governante estendida, composta pelos filhos de Abdulaziz (Ibn Saud), um rei que teve um grande número deles -45 filhos homens de 100 no total ? por causa do número de esposas que teve: mais de 20!

MBS está tentando terminar com essa tradição da dominação da família saudita estendida e concentrar o poder em suas mãos, inaugurando uma nova linhagem dinástica. Ele está fazendo isso a partir da posição de príncipe herdeiro, mas seu pai está apoiando tudo o que ele está fazendo, assim que possui carta branca nesse aspecto.

Ele é um jovem homem ambiciosos que foi nomeado como Ministro da Defesa em janeiro de 2015, depois que seu pai Salman se tornasse rei, quando ele ainda não tinha 30 anos.

A primeira coisa que fez como Ministro da Defesa foi lançar a guerra no Iêmen - uma campanha de bombardeios devastadora, assassina pelos sauditas e seus aliados. Ela fracassou no sentido de que as expectativas de que a coalisão iria resolver os problemas rapidamente se demonstraram completamente equivocadas.

Como se pode ver a partir dos eventos recentes - especialmente o assassinato do ex-presidente Ali Abdallah Saleh após mudar de lado novamente e ter anunciado uma aliança renovada com os sauditas - eles estão muito longe de alcançar a vitória. Só tiveram êxito em causar o que já é a pior tragédia humanitária de nossos tempos, com cerca de 7 milhões de pessoas com risco de morrer de fome e cerca de 1 milhão em risco de morte de cólera.

MBS mudou então sua atenção para assuntos mais internos e foi então que o antigo príncipe herdeiro, que tinha sido designado de acordo com a velha tradição, foi simplesmente removido desse cargo e MBS assumiu seu lugar. Isso foi um momento chave na ?revolução palaciana? ? a primeira grande ruptura com a tradição.

Desde então, MBS tem consolidado seu próprio poder pela eliminação dos rivais potenciais. Qualquer um que esteja em seu caminho está sendo reprimido, preso e perseguido sob vários pretextos, um deles sendo a corrupção.

Certamente, MBS recorreu a esse pretexto porque é popular, e é inegável que há algo de podre no estado saudita. Mas é também óbvio que isso é somente um pretexto.

MBS é ele próprio muito corrupto mesmo ? é um jovem que pode utilizar qualquer quantidade de dinheiro da forma que quiser, ao mesmo tempo que impõe austeridade sobre os súditos de seu reino. Ele provou isso no último ano quando cobiçou um iate que pertencia a um magnata russo e o comprou por meio bilhão de euros ? cerca de U$550 milhões! Isso dá uma ideia de com quem estamos lidando.

Quais são as reverberações dessa luta pelo poder para a região? Por exemplo, o regime saudita parece ter tentado intervir no Líbano obrigando seu principal aliado local, o Primeiro-Ministro Saad Hariri, a renunciar. Todas essas mudanças têm a ver com a longa rivalidade com o Irã, correto?

O reino saudita está cada vez mais preocupado pelo expansionismo iraniano ? primeiro no Iraque, depois na Síria, e a seguir no Líbano. Existe hoje um corredor de dominação iraniana de Teerã a Beirute, o que inclui tanto a presença direta como indireta do Irã.

Os sauditas estão extremamente preocupados com isso porque eles veem o Irã como seu arqui-inimigo. Desde a revolução islâmica no Irã, que derrubou a monarquia lá em 1979, os sauditas têm tido um cenário de pesadelo, que tiveram que se confrontar no mesmo ano com um levante ultra-fundamentalista em casa, em Meca.

Quando Salman se tornou rei em 2015, ele inicialmente modificou a política do reino saudita para a unificação das forças sunitas na região. Ele seguiu essa política por alguns anos, incluindo refazer as pontes, em um certo grau, com a Irmandade Muçulmana.

Isso continuou até que Donald Trump se tornou presidente. Trump, aconselhado pelo sinistro Stephen Bannon, pressionou para uma reversão dessa política para uma escalada tanto contra o Irã como a Irmandade Muçulmana.

Isso levou a que, antes disso, neste ano, a Arábia Saudita rompesse com o Qatar, que é o principal patrocinador da Irmandade Muçulmana. Até esse ponto, o Qatar estava envolvido na coalisão que bombardeava no Iêmen, mas foi expulso dessa coalisão por causa desse assunto. Isso foi uma manobra bem ruim, e o tiro saiu pela culatra.

A escalada contra o Irã é o que levou ao recente episódio com o Líbano. Hariri é inteiramente dependente dos sauditas. A família Hariri fez sua fortuna no reino saudita, por meio de sua conexão com membros da família governante, que é um pré-requisito de todos os que fazem fortuna no reino.

A mensagem que foi enviada pelos sauditas é que não queremos que nossos aliados ? ou seja, Hariri?participem em um governo no Líbano que seja dominado por gente ligada aos iranianos, o Hezbolah.

Essa foi a mensagem. Mas mesmo isso não deu certo devido à intervenção dos governos ocidentais, incluídos os EUA e a França. O presidente francês, Macron, teve um papel ativo em conseguir que Hariri saísse do reinado de volta ao Líbano, onde ele agora está engajado de novo em alguma forma de compromisso, que é o que os sauditas queriam que terminasse. A situação lá é muito instável, no entanto.

Pode-se tirar conclusões gerais sobre o balanço da revolução e da contrarrevolução neste momento, quase sete anos depois da Primavera Árabe? Você escreveu antes sobre entender isso como um processo em curso ? não fragmentado em episódios separados, mas contínuo. Pode ampliar sobre isso?

O ponto de partida é compreender que o que foi denominado como Primavera Árabe não se limitou aos assuntos da democracia e da liberdade, como foi descrito na imprensa. Foi uma explosão social e econômica muito mais profunda, devido à acumulação de problemas de caráter social. Índices recordes de desemprego, especialmente para a juventude; baixos níveis de vida; pobreza ? tudo chegou a um ponto culminante em 2011.

Essa é a razão pela qual eu enfatizei naquele momento que havia começado o que denominei de ?processo revolucionário de longo prazo?, que se prolongaria por muitos e muitos anos de instabilidade ? hoje podemos dizer com segurança: décadas.

Realmente, não haverá nova estabilização nesta parte do mundo por um longo período de tempo, pois a condição para a estabilização é uma mudança social e política radical, que coloque toda a região no caminho co2rreto de desenvolvimento econômico e social. Sem essa mudança radical, a instabilidade do Oriente Médio não será resolvida.

O problema imediato do momento é que as forças progressistas que emergiram na Primavera Árabe retrocederam para a marginalidade em quase todos os lados, alguns anos depois de 2011. Desde então, a região tem sido dilacerada entre duas forças reacionárias.

Por um lado, existem os regimes ? ou seus resquícios, em países em que foram derrubados ou significativamente abalados. E, por outro lado, existem as forças fundamentalistas islâmicas ? em especial, a Irmandade Muçulmana patrocinada pelo Qatar e os salafistas inspirados pelos sauditas ? que emergiram desde os anos 1970 e 1980 a partir do cadáver de uma onda de atividade de esquerda precedente, em que os partidos nacionalistas e comunistas desempenharam um papel chave.

A realidade é que o conjunto da região mudou desde 2013 de uma fase revolucionaria precedente, denominada como Primavera árabe, para uma fase contrarrevolucionária. Esta última se caracteriza pelo choque entre dois polos contrarrevolucionários ? o dos regimes e de seus rivais fundamentalistas islâmicos.

Isso é o que tem ocorrido nas guerras que irromperam na Líbia, Síria e no Iêmen ? esses mesmos ingredientes se encontram basicamente em todos os lados. Eles existem na situação que se intensifica no Egito: a forma que eles adotaram foi o retorno do velho regime com uma vingança, esmagando a Irmandade Muçulmana.

Estamos no meio dessa fase contrarrevolucionária. Mas, ao mesmo tempo, pode-se verificar a partir de numerosas indicações que os problemas sociais estão em ebulição. Não somente persistem todos os fatores sociais e econômicos que levaram à explosão de 2011, mas eles pioraram bastante.

O que levaria a novas explosões e mais instabilidades: isso é seguro. Podemos pelo menos esperar que o potencial progressista que emergiu de forma poderosa em 2011 será capaz de se reconstituir e organizar para lutar pelo poder. Isso é o que estava faltando na Primavera Árabe ? organizações que encarnem esse potencial, com uma clara estratégia de construir uma alternativa aos velhos regimes e seus contendores fundamentalistas.

 

Editoria Internacional, Esquerda Online



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/medio-oriente/1460-imperio-e-o-oriente-medio-na-era-de-trump.html

stop_cetaActualmente, vive-se um frenesim internacional que podemos designar por corrida aos tratados ditos de livre-comércio. Um pouco por toda a parte, inúmeros lobbies corporativos apoiados pelos governos seus vassalos, com destaque para a UE, procuram afanosamente completar acordos que fixem os crescentes direitos e benesses para as grandes multinacionais e que incluem diversos mecanismos para estas se eximirem aos sistemas judiciais nacionais, podendo multar pesadamente os estados que promovam legislação tendente a proteger os cidadãos e o ambiente, como tem acontecido com preocupante rapidez.

Dirão alguns que a UE ainda constitui o mais relevante bastião dos direitos dos cidadãos e de protecção do ambiente, mas essa situação está a mudar rapidamente. Um dos objectivos dessa corrida é precisamente destruir estas ?barreiras ao comércio? (terminologia americana), pondo em confronto directo economias com padrões totalmente diferentes. O resultado óbvio é a corrida para o fundo, com as protecções a serem esmagadas pelo exacerbamento da concorrência selvagem.

Um dos casos mais evidentes é constituído pelo CETA (Comprehensive Economic Trade Agreement) entre a UE e o Canadá, mas que, na prática também inclui os EUA, e que foi recentemente aprovado pela AR e pelo Presidente Marcelo. 

No outro lado do Atlântico, EUA e Canadá, a legislação laboral e de protecção dos consumidores é substancialmente mais ?permissiva?. Os sindicatos são simplesmente proibidos em diversos estados, a capacidade de aderir a um sindicato é severamente limitada, o direito à greve, ao subsídio de doença, ao subsídio de desemprego e até a férias pagas é uma miragem para a maioria, para já nem falar na contratação colectiva que é formalmente proibida. São então as empresas a laborar neste ambiente que vão concorrer com as europeias que ficam em manifesta desvantagem. Assim, a pressão para reduzir os padrões europeus será irresistível, facto que já está a acontecer neste momento. Um dos casos mais evidentes é o ?Princípio da Precaução?, ponto central da legislação europeia. Estipula que qualquer produto, antes de ser posto à venda, tem de sofrer a demonstração do fabricante que não é perigoso. Se houver dúvidas, fica suspenso. Do outro lado, sucede o contrário. São as autoridades que têm de demonstrar que um produto é perigoso, para que o possam interditar. O Canadá e os EUA sempre têm combatido esse princípio nas organizações internacionais e conseguiram impor que o articulado do CETA nem sequer se refira ao mesmo, além de que o capítulo sobre ?desenvolvimento sustentável? se limita a afirmações e apelos vagos, sem o mínimo dispositivo tendente à sua aplicação efectiva. É aquilo que se chama, na terminologia internacional ?o discurso de superfície?. 

De modo que é precisamente esta Europa que nos querem convencer ser um espaço de progresso, liberdade, democracia e bem-estar que é preciso aprofundar e integrar ainda mais (Macron). Sê-lo-á sim, mas apenas e cada vez mais para as elites e as grandes corporações sedentas de lucro fácil á custa da sobre-exploração laboral, dos recursos naturais e da destruição ambiental.

 

José Oliveira



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/mundo/1459-as-liberdades-fundamentais-e-a-corrida-para-o-fundo.html

palestineNo passado dia 6 de Dezembro o presidente americano Donald Trump anuncia o reconhecimento por parte dos Estados Unidos de Jerusalém como capital de Israel e o consequente plano de mudar a embaixada americana para aquela cidade. Israel agradece e espera que outros sigam o exemplo.

Para melhor se entender o significado deste desenvolvimento, convém recuar umas décadas. Em 1948, as potências ocidentais com a conivência da URSS, reconhecem ao movimento sionista o direito a um estado (Israel) na Palestina histórica, estado esse assente na limpeza étnica e expulsão de centenas de milhares de palestinianos das suas casas e terras, consagrando um grupo etno-religioso disperso pela região e pelo mundo como o detentor da cidadania de pleno direito. Este estado inclui inicialmente a metade ocidental de Jerusalém mas vem mais tarde em 1967, no âmbito da sua política de conquista expansionista, a anexar também Jerusalém oriental, considerando em 1980 a cidade inteira como a sua capital.

Desde então, a história tem sido marcada pela brutal ocupação do restante território palestiniano (Gaza e Cisjordânia) e pelo apartheid praticado em relação à população palestiniana (residente dentro e fora do estado de Israel). Em pleno final de século XX e início de século XXI, décadas depois dos europeus largarem oficialmente as suas colónias em África e na Ásia, Israel desloca activamente população judia para áreas de onde foram antes expulsos palestinianos, que então se tornam ?colonatos? puramente israelitas. Jerusalém tem sido um ponto quente desta política, com a demolição sistemática de casas palestinianas e a construção de casas para colonos israelitas. Independentemente de há quanto tempo ou há quantas gerações lá vivam, os palestinianos têm um estatuto precário de imigrantes residentes sem direito a serviços municipais básicos e os israelitas um de cidadania de pleno direito.

Neste contexto e como forma de sossegar a resistência palestiniana que pede terra e direitos, foi acordado nos 90 entre Israel e a OLP (Organização de Libertação da Palestina) de Yasir Arafat, com o patrocínio dos Estados Unidos, que a Palestina seria futuramente partida em dois estados ? o actual de Israel e outro palestiniano nas antigas fronteiras de 1967. O estatuto de Jerusalém seria objecto de discussão futura.

O anúncio de Trump, eco da vontade da direita sionista, consagra a ocupação da cidade inteira, a colonização e a limpeza étnica em curso como factos consumados e patrocinados pelo imperialismo norte-americano, para quem Israel é um posto avançado no médio oriente. Desengane-se quem pensar que Trump representa um caso inédito e isolado. Antes, já Clinton, Bush e Obama tinham feito promessas neste sentido. Trump terá sido sim, o único que as cumpriu.

A lição mais importante a retirar nestes dias, em que Israel responde à resistência palestiniana com centenas de detenções e alguns bombardeamentos, é que a suposta ?solução dos dois estados? está morta e enterrada, pois nem quem a propôs cumpre as suas condições mínimas. Na prática esta solução só antevê um único estado (Israel), por sinal um estado racista e expansionista que representa a 4ª potência militar mundial, e do outro lado, um pseudo-estado (Palestina) descontínuo e sem qualquer viabilidade. O único caminho para uma verdadeira solução é obrigar Israel a substituir-se por um estado com plenos direitos para todos e onde quem foi expulso possa voltar.

Para isso mesmo tem trabalhado a campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) que tem contribuído para o isolamento crescente de Israel. E também para Jerusalém, a resistência e a solidariedade já mostram uma vez mais que nem tudo são factos consumados, com Trump a ver-se sozinho encurralado sem ninguém a fazer coro da sua decisão e a admitir que a mesma já não será para este mandato.

 

André Traça



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/palestina/1458-jerusalem-capital-da-ocupacao-ou-da-resistencia.html

escravatura_libiaAqui tão perto, do outro lado do mar, estão a ser escravizados negros africanos. A indiferença das instituições internacionais e dos representantes dos Estados é ensurdecedora.

Na Líbia, destruída pela NATO e por interesses do imperialismo internacional, aguardam em desespero milhares de pessoas para passar o Mediterrâneo, fugidas da pobreza, das guerras e crises ambientais provocados pelo capitalismo e neocolonialismo. Deste lado, há muitos anos que a União Europeia constrói-se como uma enorme fortaleza, com muros, grades, redes e mares vigiados que provocam a morte nas águas, nos desertos, nas prisões e causam miséria nos campos de detenção e de refugiados. A União Europeia e as Nações Unidas, nada ou pouco fazem para mudar esta situação. Na verdade, promovendo o neoliberalismo global e intervenções militares, com a NATO e os EUA, são responsáveis de aqui termos chegado. Esta grande barbárie provocada pelo neocolonialismo trouxe guerra, miséria e exploração. E agora, negros africanos estão a ser escravizados, agredidos, presos e mortos na Líbia. Por isso é preciso urgentemente:

- Libertar os negros africanos escravizados na Líbia.

- Punir exemplarmente estes crimes.

- Auxiliar os que desesperam no Norte de África.

- Permitir a passagem segura para a Europa.

- Acabar com a Europa Fortaleza.

 



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/africa/1457-pela-libertacao-dos-escravizados-na-libia-pelo-fim-das-mortes-no-mediterraneo-pelo-fim-da-europa-fortaleza.html

greve_professoresQuando eu era pequeno, nos anos 60, ensinaram-me a respeitar os professores, eles eram a figura de autoridade na sala de aula, habituavamo-nos a ver neles uma espécie de representantes do ditador, os chefes que tudo podiam. As regras eram indiscutíveis e mal se pisava o risco, os castigos eram aplicados sem dó nem piedade, incluindo os corporais.

Também nesse tempo, como agora, os salários eram baixos e dizia-se que ser professor era um sacerdócio, portanto, quem escolhia esta profissão alimentava-se sobretudo espiritualmente e estava estabelecido que era quanto bastava, mas pelo menos devia-se-lhe total respeito. Felizmente, esse tempo já lá vai!

Agora, principalmente desde o ministério de Maria de Lurdes Rodrigues, iniciou-se uma era de desrespeito que já se prolonga há uma década. Os professores foram primeiramente vilipendiados quando se pretendeu dividi-los em titulares e não titulares, tentou-se (e conseguiu-se) dividir a classe. Pretendia-se criar uma espécie de aristocracia docente com base em critérios perfeitamente arbitrários ou absurdos e tinha-se em vista o supremo objetivo de pôr em prática um sistema de avaliação que atropelava, inclusivamente, a graduação e a hierarquia. O objetivo era avaliar sem olhar a meios e encontrar uma justificação para que só alguns ascendessem na carreira, iniciando-se, dessa forma, um processo de proletarização da classe que todos os governos têm promovido.

Alterou-se a idade da reforma, sobrecarregaram-se os horários, criou-se o caos na distinção entre componente lectiva e não lectiva, tentando-se vencer os professores pela exaustão, inventaram-se sistemas de aposentação antecipada (e quase forçada) cheios de penalizações. Era preciso colocar os mais velhos fora de jogo e com o mínimo de despesa possível?

Perseguiram-se os mais novos, submetendo-os à infâmia de um exame ridículo, passando-se a muitos um atestado de incompetência e condenando-os ao desemprego.

A carreira tornou-se uma miragem e a esmagadora maioria dos docentes não sobe de escalão há mais de dez anos, sendo muitos aqueles que se eternizam na condição de contratados.

Perante todos esses ataques e apesar da insuficiente resposta por parte dos principais dirigentes sindicais (e de algumas traições com acordos/memorandos com governos), a classe docente não perdeu em toda a linha e conseguiu-se organizar minimamente pela base e desde 2008 vários movimentos de professores conseguiram rasgar memorandos (luta dos movimentos APEDE, MUP e PROMOVA em 2008/2009) e ajudar decisivamente a derrotar provas ignóbeis (Movimento Boicote&Cerco em 2013/2014).

No entanto como quem tem governado o país está sobretudo ao serviço dos grandes grupos financeiros (banca e grandes multinacionais) continuam a existir poderosos interesses em precarizar quem trabalha incluindo a classe docente (mas para isso é preciso manchar a sua imagem perante a sociedade). Por isso não é de estranhar que ultimamente, comentadores de todas as televisões e de todos os jornais envenenam a opinião pública, não hesitam em difamar, insultam os professores que dizem ser uma ?raça especial?, uns ?miseráveis??

Até quando os professores vão permitir tanta afronta?!

 

Lisboa, 28 de novembro de 2017

César Garcia

Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/trabalhadores/1456-professores-quma-era-de-desrespeitoq.html