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protestomeoA intromissão da Altice no mercado das telecomunicações em Portugal é um marco de um dos fracassos do Governo PS, apoiado por BE e PCP. A PT, um marco europeu no desenvolvimento tecnológico, foi reduzida a pó.

Muitos foram e são os factores que contribuíram para tal situação, dos quis se destacam os seguintes: a privatização, iniciada em 1995, pelo Governo PS de António Guterres; a falta de um plano estratégico para a PT por parte dos sucessivos Governos PS e PSD que foram diluindo a importância do Estado naquela empresa; a gestão danosa de Zeinal Bava e Henrique Granadeiro que, com Ricardo Salgado, decidiram financiar parte do buraco financeiro do BES com fundos da PT; a apatia do actual Governo PS de António Costa, assim como de BE e PCP, em definirem um rumo para uma empresa tão importante como a PT.

Desta forma, a PT continua à mercê dos interesses privados que, pelo empobrecimento das elites nacionais, é cada vez mais dominado por estrangeiros. O sector da energia elétrica está entregue a capitais chineses. O sector financeiro está entregue a capitais espanhóis e americanos. O sector dos seguros é também, já em grande medida, chinês. O sector da transporte aéreo está entregue a capitais brasileiros. O sector dos correios está também em mãos estrangeiras e aí por diante.

O plano do actual Governo PS, como se vê, é a manutenção e continuidade da venda de sectores estratégicos aos capitais que melhor oferecerem. Como não existem capitais nacionais capazes de o fazer, a venda é feita a estrangeiros. Só sob este Governo já foram vendidos Banif, Novo Banco e agora a PT. Quanto a BE e PCP temos a dizer que é preciso fazer mais. Defender a renacionalização destes sectores é fundamental para a nossa soberania e independência.

Este é sobretudo um problema de perda de soberania mas não é o único problema.

É condenável o Governo anunciar a descida da taxa de desemprego para menos de 10% e defender o combate à precariedade (pelo menos dentro do Estado), quando o que está em curso é a liberalização do mercado de trabalho, à qual correspondem menos direitos, horários desregulados, piores condições de trabalho e baixos salários.

A Altice prepara a transferência de mais de uma centena de trabalhadores para empresas do grupo e colocou mais de 300 sem funções, processos que funcionam como ante-câmara do despedimento. Chegaremos assim a uma situação em que as empresas não terão de ter trabalhadores para funcionarem, dado que todos os que para si trabalham estão em regime de out-sourcing e a termo temporário, expectavelmente sem participação sindical. Lembremo-nos que este não é um problema exclusivo da PT. O Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual (SINTTAV) estima a existência no setor de cerca de 500 mil trabalhadores com vínculos precários. Isto não falando em todo um país centrado essencialmente no sector dos serviços.

Em cada empresa, a cada necessidade permanente deve corresponder obrigatoriamente um posto de trabalho efectivo contractualizado, com salário adequado e condições dignas para o/a trabalhor/a.

O Movimento Alternativa Socialista está solidário e apoia a luta dos/as trabalhadores/as da PT/Meo. Esta luta não pode estar refém das agendas dos sindicatos e partidos mais ou menos apoiantes do Governo PS e da Altice, mas das suas reivindicações e da sua própria mobilização, com o apoio da sua Comissão de Trabalhadores.

Basta de vender o país! Altice fora de Portugal!

Todo o apoio à greve de 21 de Julho na PT/Meo!

Pela renacionalização da Portugal Telecom e dos sectores estratégicos da economia, como são as telecomunicações.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1394-todo-o-apoio-a-greve-na-ptmeo.html

Portugal é um país racista? - 27Jul2017 17:31:24

racismoPara respondermos à pergunta é necessário começarmos por compreender o que é o Racismo. O Racismo é uma estrutura política e ideológica de opressão - que provoca desigualdades socioeconómicas e simbólicas baseadas em diferenças étnico-raciais - de forma a manter o poder.

Ao contrário do que nos querem muitas vezes fazer acreditar, discriminação e preconceito não são o mesmo que Racismo. Racismo é um sistema histórico alicerçado no colonialismo e, como referiu Malcom X, não se pode ter capitalismo sem Racismo. O Racismo é mais que preconceito, é ter o poder para utilizar esse preconceito para oprimir estruturalmente. O Racismo institucional, uma das formas mais problemáticas, é aquele que se expressa nas práticas das instituições do Estado, Empresas, entre outras. O Racismo não é fruto do desconhecimento, pelo contrário, é um conjunto de ideias que foi bem teorizado ao longo dos séculos XIX e XX e das quais ainda não nos livrámos. O Racismo é uma realidade global com alicerces comuns e exprime-se de diversas formas pelo mundo. Portugal não é, com certeza, exceção.

Portugal foi um dos grandes percursores da Escravatura moderna, que durante mais de quatro séculos arrancou milhões e milhões de negros de África, numa escala nunca antes vista. Portugal só aboliu a Escravatura em 1878 quando esta foi proibida nas colónias. Isto aconteceu quase cem anos depois da sua abolição na revolução negra haitiana, uma das mais importantes de sempre, como descreveu C.L.R. James. No entanto, o colonialismo português substituiu a Escravatura por trabalhos forçados durante décadas. Em Portugal perseguiram-se durante séculos negros, ciganos, judeus e muçulmanos. Por exemplo, os ciganos foram deportados, presos, punidos em público e condenados à morte em vários momentos da história portuguesa, proibidos de falar a sua língua, usar as suas vestes e foram-lhes retirados os filhos. Portugal foi também o último país a descolonizar África - para a memória ficarão a Guerra Colonial ou as grandes fomes de Cabo Verde. Durante as Lutas de Libertação, Portugal foi responsável pela destruição social e económica desses países e pela morte de milhares de pessoas, donde os massacres de Pijiguiti e Wiriyamu ficarão como enormes feridas. Este é um fardo que os países libertados carregam até hoje.

Já falámos do passado, mas será que no presente ainda existe Racismo em Portugal?

O primeiro exemplo do Racismo no país é a sua constante negação ou desvalorização. A ideia de que aqui existe menos Racismo que noutros lugares, está alicerçada na ideia de um país de ?brandos colonialismos?. As falsas ideias do lusotropicalismo estão impregnadas na nossa sociedade, nomeadamente nas nossas instituições.

Vivemos num país onde afrodescendentes que cá nasceram, cresceram e tiveram filhos continuam a não ter nacionalidade portuguesa, mas filhos de portugueses brancos de terceira geração pelo mundo podem-na ter automaticamente.

Por outro lado, o Estado português continua a não querer publicar dados fidedignos sobre as condições sociais de negras e ciganas no país. Na verdade, é negado aos negros e ciganos saberem quantos são e principalmente como vivem.

Na justiça, a situação não é melhor: temos 20 anos de legislação contra o Racismo mas os resultados são muito desanimadores. O número de queixas é irrisório e durante todo este tempo houve apenas 20 condenações por contra-ordenações racistas.

Na educação, o cenário é também mau: existem casos recorrentes de turmas ciganas segregadas e os estudos de Cristina Roldão e Pedro Abrantes concluem que as crianças afrodescendentes chumbam três vezes mais no primeiro ciclo e que 80% dos afrodescendentes são encaminhados para vias profissionalizantes.

Na escola, ensina-se uma história mitómana e falsa de um país de brancos que ?descobriu o mundo? já descoberto, ou de um povo de brandos costumes, mas onde os ciganos e os negros não têm lugar. De facto, ciganos e negros têm uma influente e silenciada presença social, cultural e económica durante os últimos cinco séculos em Portugal. Atualmente até existe um revisionismo histórico no ensino sobre a Guerra Colonial.

Na habitação, a segregação urbana salta-nos à vista: todos conhecemos bairros  de maioria negra ou cigana distantes e isolados dos serviços e dos transportes. Negros e ciganos vivem invariavelmente nas franjas mais pobres das cidades e o Plano Especial de Realojamento (PER) foi em grande medida uma desilusão. Existem bairros auto-construídos a quem é negada água e luz. E, nos últimos anos, em bairros como o Seis de Maio, Estrela D'África ou Reboleira as autoridades têm demolido casas sem terem solução habitacional para as famílias.

O lado mais brutal do Racismo no país são as práticas das forças de segurança. Os acontecimentos da esquadra de Alfragide de violência racista contra os jovens da Cova da Moura é a demonstração de como a polícia atua frequentemente. Nesta situação específica, houve rapto, espancamento, tortura e injúrias racistas que levou a uma inédita acusação por parte do Ministério Público contra todos os agentes da esquadra. O que ali aconteceu, não foi excecional, é um episódio que se repete demasiadas vezes.  As famílias de Kuku, Snake, Musso, Angoi, Tony, Teti ou PTP - todos jovens negros e todos mortos pela polícia em situações duvidosas - nunca viram a justiça ser feita. A vigilância, brutalidade e impunidade policial nos bairros pobres de maioria negra e cigana em Portugal são a demonstração da atuação do Estado sobre estas populações e a evidência do Racismo institucional. Na verdade, o Racismo institucional expande-se para a educação e outras estruturas da sociedade como têm relevado os estudos de Silvia Maeso e Marta Araújo.

Podemos então regressar à questão inicial. Portugal é um país racista? Portugal é um país muito racista, demasiadamente racista.

É necessária uma outra lei da nacionalidade que permita a todas e todos os que aqui nasçam o direito à nacionalidade portuguesa. É precisa a condenação exemplar e efetiva dos polícias da esquadra de Alfragide e de todos os envolvidos em casos semelhantes. É fundamental que o Estado faça uma recolha abrangente e constante de dados de igualdade sobre as questões raciais. É necessário iniciar um debate sobre cotas étnico-raciais no país. É preciso mudar a forma como se reproduz uma falsa história portuguesa nas escolas. É uma emergência acabar com as demolições de casas de pessoas que não têm para onde ir. É preciso acabar com as mortes no mediterrâneo e dar condições a todos os refugiados que estão a fugir da miséria e da guerra.

As lutas antirracistas e anticoloniais foram e continuam a ser uma referência para todos os trabalhadores do mundo. Do Quilombo dos Palmares à Revolução Haitiana; do Gueto de Varsóvia à independência da Argélia; das lutas de libertação africanas, asiáticas e caribenhas ao movimento afro-americano pelos direitos civis; do combate contra o Apartheid Sul-Africano à Palestina; das revoltas dos jovens de Paris ao movimento Black Lives Matter. Como disse o revolucionário argentino Nahuel Moreno, a Revolução portuguesa foi fruto das Lutas de Libertação Africana, uma revolução anticolonial que se transformou numa revolução socialista. Teóricos, ativistas e guerrilheiros africanos influenciaram de forma fundamental o que aconteceu na Guiné-Bissau, em Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Portugal. Hoje vemos despontar uma nova geração negra e cigana de esquerda em Portugal que exige os seus direitos na sociedade, que reflete e teoriza, que se representa e reivindica, que combate e avança contra o Racismo.

 

Pedro Varela



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1393-portugal-e-um-pais-racista.html

coltraneEstou entre aqueles/as que consideram Coltrane um gênio jazzístico. Ainda que tenha vivido pouco (morreu aos 40 anos com câncer no fígado), a música esteve intensamente presente na sua trajetória. Nossa lenda revolucionou o jazz.

O sax o acompanhava desde criança. Quando ouviu Charlie Parker, Coltrane passou a seguir seus passos: estudou intensamente o sax, seu instrumento e teoria musical. Quando não estava tocando, treinando, estava ouvindo música clássica na biblioteca pública.

Tocou em bandas da Filadélfia até chegar à orquestra de Dizzy Gillespie que o fez tocar sax tenor (dessa forma poderia aproveitar mais a influência de Parker). Meses de treinamento e estudo o deixaram dominando o novo instrumento. Passou por outras bandas, diversos repertórios e estilos musicais. John Coltrane necessitava internalizar essa experiência diversa em busca do seu estilo. Experimentava incessantemente com novos sons na hora de improvisar. Os músicos o observavam curiosos.

Conheceu Miles Davis. Fez parte de seu quarteto. Foi demitido duas vezes por causa dos excessos (heróina). Mas, Miles sabia que Coltrane era o seu músico mais brilhante e a sua musicalidade era ansiosa, agressiva, urgente. Em 1959, depois de participar da gravação do antológico Kind of Blue, deixou Miles Davis para formar seu próprio quarteto. Era hora de levar a experimentação aos últimos limites, até encontrar o que tanto perseguia.

Desenvolveu um estilo próprio e embarcou numa profunda radicalização da harmonia. Um exemplo foi quando gravou a música Bahia de Ary Barroso, em 1958. Ou, ainda, as versões para My Favorite Things (algumas que duram mais de 20 minutos), uma simples valsa tocada por um sax-soprano, considerado um instrumento ultrapassado para o jazz da época.

Indomável, Coltrane buscou inspiração na música negra que ouvia quando criança. Misturou a música popular com novos experimentos na tentativa de expressar suas emoções. Seu álbum A Love Supreme foi gravado em um dia. Extensos movimentos sonoros, tecnicamente brilhantes e ao mesmo tempo tão naturais são capazes de conduzir o ouvinte a um transe. O misticismo contido em A Love Supreme recupera a musicalidade dos rituais religiosos africanos, perdidos por séculos de opressão da escravidão dos negros norte-americanos.

John Coltrane era na ocasião (início dos anos 1960) a maior referência cultural para os jovens negros americanos. Na sua biografia Miles Davis afirma que o grupo de Coltrane estava para os Panteras Negras, da mesma forma que ele estivera para o povo negro que lutava nos anos 1950 contra as absurdas leis de segregação racial vigentes em vários lugares dos EUA.

John Coltrane abriu o caminho para um novo estilo, o free-jazz. A partir de então o jazz nunca mais seria o mesmo.

E no dia de hoje, compartilho o artigo de Dalwton Moura: jornalista, crítico musical e um amante do jazz. Muito bom o texto que lembra os 50 anos da morte de John Coltrane, a lenda do jazz! Leiam!

Dalwton é daqueles imprescindíveis para a música na cidade. Com projetos como o Jazz Series (no Dragão do Mar) e o Jazz em Cena (no Centro Cultural do Banco do Nordeste), o público da cidade teve a oportunidade de ver músicos cearenses, como Marcio Resende, Hugo D´Leon, Iury Batista, David Krebs e tantos outros, interpretando Giant Steps e outros clássicos do jazz. Nós, amantes da música instrumental agradecemos!

É importante lembrar-se da lenda do jazz e celebrar sua genialidade! Viva Coltrane! Viva o jazz!

 

Paula Farias, Esquerda Online



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/mundo/1391-50-anos-da-morte-de-john-coltrane-a-lenda-do-jazz.html

g202017Nos dias 7 e 8 de julho, na cidade de Hamburgo, Alemanha, ocorreu a reunião do G20 de 2017. O grupo é constituído pelas maiores potencias econômicas do mundo: Austrália, África do Sul, Argentina, Alemanha, Brasil, China, Canadá, Coréia do Sul, Estados Unidos, Inglaterra, Índia, Indonésia, Itália Turquia e União Europeia. Juntos, representam 85% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

O G20 foi criado em 1999, após as sucessivas crises financeiras da década de 1990. Inicialmente ele era constituído pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais dos países. Entretanto, a partir da reunião de 14-15 de novembro de 2008, depois da crise de 2007-2008, passou a ser formado pelos chefes de Estado ou de governo. Isso representou uma mudança significativa no papel do G-20, que passou a assumir a centralidade como fórum de discussão sobre governança internacional antes ocupada pelo G7.

As tensões que cercaram o fórum de Hamburgo

Muitas expectativas e incertezas sobre a condução da ordem mundial foram geradas em relação ao encontro deste ano, principalmente devido ao turbulento contexto atual: interferência russa nas eleições norte-americanas, o Brexit e a divisão intra-europeia, o aumento do conflito na península da Coréia, a retirada dos EUA do Acordo de Paris, a crise entre Arábia Saudita e Catar. Os dias que antecederam a reunião já expressavam essas novas tensões da situação mundial.

No dia 4, a Coreia do Norte dobrou a aposta e realizou com sucesso o primeiro teste com um míssil balístico intercontinental. Com alcance de 5.550 km, esse ICBM pode alcançar o Alasca. Em resposta à provocação de Pyongyang, EUA e Coréia do Sul realizaram múltiplos lançamentos de mísseis no Mar do Japão, entre eles o modelo balístico sulcoreano Hyunmoo-21 e o tático estadounidense ATACMS. O secretário de estado dos EUA, Rex Tyllerson, alertou para o aumento da escalada armamentista norte-coreana e voltou a pressionar a China para atuar de forma mais contundente na busca de uma saída negociada para o desarmamento nuclear do país.

Já no dia 6 ocorreu a visita de Trump à Polônia, governada desde 2015 por um dos maiores representantes da extrema direita no país, Andrzej Duda, ex-membro do Partido Lei e Justiça e agora independente. Durante sua passagem, Trump discursou na Praça de Varsóvia, símbolo da resistência aos nazis, onde exaltou as medidas restritivas à entrada de imigrantes na Polônia e afirmou também estar trabalhando para ?proteger as fronteiras? dos EUA. Além disso, elogiou o fato do país cumprir com sua contribuição de 2% do PIB para o fundo da OTAN, um recado às principais potências europeias, em especial a Alemanha, às quais Trump critica a baixa participação nos gastos da Aliança.

A visita de Trump à Polônia não foi casual. Esse país tem o interesse de converter-se num centro logístico de gás liquefeito exportado dos EUA a partir de investimentos norte-americanos, como é o caso da construção de um porto na sua costa setentrional. Isso conflita com o projeto de construção do gasoduto Nord Stream 2 que abasteceria a Europa com gás vindo da Rússia para a Alemanha, cruzando o Mar Báltico. Esse projeto permite desviar o gás siberiano dos gasodutos terrestres o que prejudicaria os interesses econômicos da Europa Oriental e Central. A Ucrânia ficaria mais suscetível às chantagens da Rússia. Por outro lado, os principais países europeus viram com preocupação o fato de o Congresso norte-americano ter decidido ampliar as sanções à Rússia, particularmente porque ele prevê uma cláusula que pode ser utilizada contra as empresas que participam do consórcio do gasoduto: além da Gazpron russa, a francesa Engie, a anglo-holandesa Shell, OMV de Austria e as alemãs Uniper y Wintershall (BASF).

No mesmo dia 6, foi realizado um ?acordo de princípio? para a criação de uma área de livre-comércio entre a União Europeia e o Japão, a segunda maior economia da Ásia. A assinatura definitiva do Jefta, como é chamado o Japan-EU Free-Trade Agreement, está prevista ainda para este verão. Para entrar em vigor, o tratado precisa ser confirmado pelos Parlamentos nacionais da UE. O novo acordo, sem dúvida, é uma resposta às iniciativas bilaterais e protecionistas de Trump, especialmente a retirada dos EUA do Tratado de Livre-Comércio Transpacífico (TPP). ?É extremamente importante que Japão e União Europeia defendam o livre-comércio em um momento no qual o mundo enfrenta tendências protecionistas?, afirmou Abe. Da parte de Bruxelas, a ideia foi transmitir a imagem de líder mundial do livre-comércio. ?Enviamos juntos um sinal forte ao mundo em favor do comércio aberto e equilibrado. Não há proteção no protecionismo?, disse o presidente da Comissão Européia, Jean-Claude Juncker.

 

A retomada das mobilizações anti-globalização

Outro episódio simbólico não se relaciona aos conflitos entre as potencias imperialistas, mas entre estas e os movimentos sociais, uma luta entre os ?de cima? e os ?de baixo?. No mesmo dia 6, Hamburgo foi palco de grandes protestos contra o G20-17. Manifestações anti-capitalistas em encontros internacionais já possuem bastante tradição, como os 200 mil contra o G8 na Itália, em 2001, e os atos radicalizados no G20 de Toronto, em 2010, que levaram a prisão em massa de 1.100 pessoas. Desta vez, na segunda maior cidade da Alemanha, as maiores manifestações anticapitalistas das últimas décadas iniciaram na quinta-feira e se estenderam até o fim do encontro, no sábado.

Os principais motes das manifestações foram a abertura de fronteiras aos refugiados e contra o aquecimento global. Marcadas por forte repressão, desde seu primeiro dia, em torno de 150 pessoas foram presas durante as manifestações e 120, preventivamente. Um novo contingente de 20 mil policiais foi enviado depois da queima de viaturas na quinta-feira. Sábado, o ato em Hamburgo contava com mais de 50 mil e protestos se espalharam por outras cidades do país.

 

As pautas do G20

Como não podia deixar de ser, o G20-2017 demonstrou as fissuras existentes na ordem capitalista atual. Quatro foram os principais pontos de tensão entre as potências: crise climática, comércio internacional, migrações e terrorismo. Apesar de muitos líderes terem afirmado que a produção de um comunicado final unânime foi uma vitória, as divisões internas ao grupo estavam mais uma vez bastante explícitas, embora por momentos tentou-se dissimulá-las.

Em relação ao Acordo de Paris, os 19 membros estiveram unidos contra a posição dos Estados Unidos de anular o acordo. Apesar da China e a Índia- hoje os maiores poluidores do planeta ? terem manifestado firmemente a favor da aplicação das metas estabelecidas em Paris, o presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan afirmou que não tem intenção de ratificar o acordo no congresso de seu país. Não está claro se isso de fato irá ocorrer, mas o fato indica que o discurso anti-meio ambiente de Donald Trump poderá ressoar em outros países.

Já no tema relativo ao comércio internacional, as posições estavam muito mais fragmentadas. Esta pauta sofreu bastante influência dos interesses norte-americanos, principalmente sobre dois pontos: combustíveis fósseis e aço. Em relação ao primeiro, os EUA conseguiram tirar do comunicado final uma parte relativa à redução na produção de combustíveis que se chocava com sua intenção de se retirar do Acordo de Paris. Quanto ao aço, Trump vem afirmando que a indústria norte-americana está sendo marginalizada pela produção estrangeira e, provavelmente, deverá impor um aumento de tarifas para importação do produto no país. No comunicado final, ficou acordado o objetivo de redução na produção de aço como forma de reduzir seu preço internacional, postergando assim uma provável guerra comercial em alguns meses, quando aprovado o aumento tarifário.

Em relação às migrações, mais uma vez os olhares estavam direcionados aos Estados Unidos. Desde as eleições de 2016, Trump vem prometendo aumentar o número de deportações de imigrantes sem documentos, reduzir a entrada de refugiados e construir um muro na fronteira com o México. Isso ocorre em meio à maior crise de refugiados da história desde a Segunda Guerra Mundial. Uma das principais iniciativas dos grupos pró-direitos humanos no encontro foi endurecer o combate aos chamados ?traficantes de refugiados?, que construíram um negócio bilionário no norte da África e já chegaram a controlar partes do território líbio. Contudo, tanto esta iniciativa quanto outras não tiveram absolutamente nenhum progresso.

Por último, o tema do terrorismo também teve grande centralidade devido aos recentes ataques ocorridos na Europa, principalmente Ingalterra. Logo no primeiro dia foi escrita uma declaração conjunta sobre o combate ao terror com ênfase na prevenção, principalmente no que concerne à troca de informações de inteligência e fiscalização da internet e redes sociais. O presidente da Índia aproveitou para ressaltar a presença de grupos terroristas em conluio com o Exército Islâmico e Al-Qaeda que atuam em seu vizinho, Paquistão, e reivindicou esforço internacional para combatê-los.

 

União Europeia e os EUA

Angela Merkel e Emmanuel Macron, da Alemanha e França, foram os principais opositores de Trump no encontro. Ressaltaram o caminho de isolamento que os EUA estavam trilhando ao anunciarem a não permanência no Acordo de Paris sobre o clima, e que qualquer posição contrária ao multilateralismo não iria contar com a participação de ambos.

Apesar de Macron ter dito que acreditava que os EUA poderiam voltar atrás em relação ao acordo climático, Merkel afirmou não compartilhar do mesmo otimismo do francês e outros líderes do G20, demonstrando ainda mais vigor na oposição à Trump. A recente declaração do ministro das relações exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, contra o boicote do Conselho de Cooperação do Golfo ao Catar (apoiado pelos EUA) indica a ampliação das diferenças.

Na verdade, desde o último G7, em maio, a chanceler alemã vem tentando se estabelecer como porta-voz da oposição ao presidente norte-americano. Trump apoia abertamente o Brexit, e manifestou um apoio velado à candidata xenofóbica e anti-União Europeia Marine Le Pen nas eleições francesas deste ano. Como o poder da Alemanha no continente depende da unidade da União Europeia, qualquer ameaça a essa instituição vai na contramão de seus interesses geopolíticos vitais. Por ser anfitriã, Merkel coordenou a pauta do encontro e propositalmente colocou como eixo os temas do aquecimento global, comércio internacional e migrações para constranger Trump politicamente.

A vitória de Macron contra Le Pen e a recuperação de Merkel nas eleições municipais passadas permitiram a retomada da afirmação do eixo franco-alemão na UE, deixando de lado, por ora, as alternativas tanto à direita quanto à esquerda. Num certo sentido o próprio debilitamento de Teresa May nas eleições britânicas enfraquece o Brexit e fortalece a União Europeia.

O distanciamento entre Trump e Merkel, mais que um conflito entre ambos, revela um distanciamento entre a Europa e os EUA. Logo depois do G7, Merkel afirmou que havia acabado o tempo em que a Europa podia depender de nações estrangeiras para garantir sua segurança, reavivando rumores sobre possíveis iniciativas de militarização do bloco europeu, tal qual a Política Europeia de Defesa e Segurança de 1999, boicotada na ocasião pelos EUA.

 

Estados Unidos e Rússia

Um dos momentos mais esperados do G20-2017 foi o primeiro encontro de Donald Trump desde que assumiu a presidência com Vladimir Putin. As relações entre Estados Unidos e Rússia haviam chegado ao seu patamar mais baixo desde o fim da Guerra Fria durante o segundo governo Obama, principalmente em função das guerras na Síria e Ucrânia. Durante a campanha de 2016, Trump propôs modificar essa relação defendendo como um dos eixos de sua política externa uma aproximação entre Washington e Moscou.

Entretanto, desde que foi eleito, Trump vem sofrendo fortes ataques contra essa orientação. Isso já lhe custou sérios reveses. Neste momento ele está sendo investigado pelo FBI por uma suposta participação de seu comitê de campanha na interferência da Rússia nas eleições norte-americanas de 2016, fato que pode lhe custar o impeachment de acordo com alguns democratas. Frente a essas pressões, e como forma de amenizar as investigações, nos últimos 6 meses o presidente norte-americano vem aplicando uma política dura em relação à Rússia, contrariando seu discurso de campanha. Ele tem se alinhado ao Grand Old Party (GOP) republicano e se afastado do seu estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, defensor de uma aproximação com a Rússia. Na Polônia, Trump chegou a exigir que os russos parassem de desestabilizar a Ucrânia, bem como se aliar a regimes ditatoriais como Síria e Irã.

Entretanto, o diálogo entre Putin e Trump no G20 não foi conflituoso como era de se esperar. Putin afirmou que o presidente norte-americano aceitou sua versão de que os russos não interferiram nas eleições de 2016, ainda que que o secretário de estado, Rex Tylerson, tenha admitido o contrário em entrevista coletiva de imprensa. A própria embaixadora dos EUA na ONU, Nikky Hailey, confirmou que a Rússia interveio nas eleições e que Putin estava negando apenas para encobrir sua culpa. Mesmo assim, a tônica da conversa entre ambos presidentes foi de que os problemas passados deveriam ser esquecidos.

 

O conflito Sírio

O principal tópico discutido entre Trump e Putin acabou sendo a questão Síria. Na ocasião, anunciou-se um acordo de cessar fogo na região sudoeste do país, próxima à Jordânia, cujo representante nas negociações declarou ter sido um acordo tripartite entre EUA-Rússia-Jordânia, apesar de ter também contado com a participação de Israel.

Tyllerson aproveitou o momento para retomar a ideia sobre as possibilidades reais de cooperação entre EUA e Rússia no cenário internacional. Suas diferenças, segundo ele, é que os Estados Unidos, ao contrário dos russos, não enxergam possibilidade de manutenção do regime de Assad a longo prazo. Alertou que as outras zonas de conflito na Síria não têm condições para um cessar fogo o que implicaria numa continuidade de um conflito que já dura 6 anos.

Apesar das partes terem procurado dar um ar amistoso à conversa, é difícil crer que as relações entre EUA e Rússia irão de fato melhorar. A realidade é que as contradições são muitas: a situação na Síria está longe de ser resolvida; não existe nenhum acordo entre ambos em relação à situação na Ucrânia, onde se ampliam as sanções econômicas contra os russos; em relação à Coréia do Norte, a Rússia está alinhada à política da China na busca de uma solução pacífica; etc.

 

Algumas conclusões

A tentativa de Trump de colocar os interesses da América em primeiro lugar (?America Comes First?) está levando ao afastamento dos EUA da Europa e ameaça descontruir a aliança transatlântica, peça chave na sustentação da ordem mundial do pós-guerra. Como alternativa, Merkel se vê forçada a se mover no sentido de uma Alemanha e União Europeia mais independente. Os acordos como a Ceta (UE-Canadá) e o Jefta (UE-Japão), além de suas recentes reuniões com o presidente da China, e o primeiro-ministro da Índia, e mesmo sua viagem à Argentina e ao México, indicam isso.

Por outro lado, sob influência do establishment republicano, Trump não consegue se reaproximar da Rússia. Pelo contrário, apesar das relações aparentemente cordiais no G20-17, os fatos indicam um aumento dos conflitos entre os dois países. Ao mesmo tempo, os EUA seguem com dificuldades para estabilizar as relações com a China na perspectiva da estratégia de defender seus interesses em primeiro lugar. Entretanto, segue perseguindo seu objetivo de fortalecer suas relações bilaterais como é o caso do acordo da venda de armas para a Arábia Saudita e do gás para a Polônia.

Esses fatos expressam o aumento dos conflitos entre as frações da burguesia imperialista em cada país, bem como entre as próprias potencias imperialistas. O pano de fundo deste conflito crescente de interesses deve-se ao fato de que, passada quase uma década, a economia mundial ainda não conseguiu entrar em um novo ciclo de crescimento superando definitivamente a crise econômica de 2007-2008. A incapacidade para reverter esse quadro indica um esgotamento do projeto da globalização neoliberal e leva a um questionamento da atual ordem mundial, alimentando saídas cada vez mais protecionistas e mesmo autárquicas.

Esse quadro marca um novo momento na situação mundial, dando um novo caráter aos atuais conflitos, o que os tornam cada vez mais intensos. Ao mesmo tempo, as grandes e radicalizadas manifestações ocorridas durante o G20 de Hamburgo expressam uma maior polarização da luta entre as classes dominantes e os movimentos sociais. Em vários países e regiões, a exemplo da América Latina, a classe trabalhadora entra cada vez mais em cena.

Em 2018, o G20 irá acontecer na Argentina. É tarefa de todas as lutadoras e lutadores da América do Sul se engajarem em uma resposta ainda maior que a dada em Hamburgo e avançar na luta anti-capitalista em nosso continente.

 

Por Victor Wolfgang Kegel Amal, Brasil em EsquerdaOnline



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/mundo/1390-o-g20-2017-e-a-atual-situacao-politica-mundial.html

malc_x_covaTudo começou a 5 de fevereiro de 2015. A polícia entra no Bairro Cova da Moura, na Amadora, e começa a revistar todos os moradores indiscriminadamente.

Um jovem que decide não fugir, é apanhado e revistado pela polícia. Apesar deste não ter resistido, é alvo de agressões e mais tarde levado para a esquadra. Pelo meio, outros moradores foram alvo de bastonadas e balas de borracha quando tentavam impedir que o jovem fosse agredido e detido. Sem sucesso. De seguida, colaboradores da Associação Moinho da Juventude deslocaram-se à esquadra para prestarem apoio ao jovem e apresentarem queixa pelas agressões a que, tanto os jovens, como outros moradores do bairro, tinham sido sujeitos. De imediato foram detidos, brutalmente espancados, acabando por ficar sequestrados pela polícia durante 2 dias. Para justificar estas agressões, a PSP alega que houve uma tentativa de invasão da esquadra. Algo que é completamente falso.

No seguimento destas agressões, e depois dos jovens terem sido ilibados, foi então instaurado um processo pelo Ministério Público, com o objectivo de investigar estas agressões completamente desproporcionais.

Passados 2 anos, anteontem, o Ministério Público acusou então, toda a esquadra da PSP de Alfragide, de racismo, ódio, tortura e sequestro.

Este é um caso isolado?

Não. Quem vive nos subúrbios das grandes cidades, sobretudo da Grande Lisboa, sabe bem como é a actuação por parte da PSP. A prepotência e violência andam de mãos dadas com a impunidade.

A polícia é estruturalmente racista, machista, LGBTfóbica e ciganofóbica, tendo em conta que é responsável por defender um sistema que se alimenta e que sobrevive graças à exploração e a estas mesmas opressões.

Como tal, é habitual nos bairros pobres, onde a maioria dos moradores são trabalhadores negros e imigrantes, a polícia actuar de forma desproporcional e com extrema violência. Nestes locais impera a impunidade, este não é o primeiro caso em que se viola os mais elementares valores dos direitos humanos. Não podemos esquecer as mortes de vários jovens negros que viviam nos subúrbios de Lisboa como por exemplo o Manuel Pereira (Toni) (2002), Elson Sanches (Kuku) (2007) e Nuno Robrigues (Mc Snake) (2010). Em todos estes casos não houve condenação do policia. Esta situação só demonstra que na sociedade portuguesa e nas instituições em geral, nomeadamente na Justiça, existe um profundo racismo, o que oculta um debate sério e frontal sobre racismo, violência policial e exclusão social.

Mas os polícias foram acusados?

Certo, mas o Ministério Público só avançou com esta investigação e com a posterior acusação, graças à luta de quem não se cala e se insurge contra este comportamento da PSP. Os movimentos anti-racistas conseguiram fazer uma mobilização pelo fim da violência policial e contra o racismo que pressionou a justiça a que desta vez houvesse consequências. Contudo importa lembrar que ainda só houve uma acusação. Os polícias ainda não foram sequer formalmente acusados, muito menos julgados e condenados. Assim sendo, consideramos imperativo que o Ministério Público desta vez vá até às últimas consequências. Todos temos direito a viver descansados. Todos temos direito a ser tratados de forma digna.

Basta de violência!

Basta de racismo!

João Veloso

Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1388-acusacao-de-17-policias-e-a-esquadra-de-alfragide.html

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Vem acampar com o MAS!

O MAS realiza o seu acampamento anual de Jovens Revolucionários nos dias 29 e 30 de Julho, em Serpins (Coimbra).

No centenário da Revolução Russa perguntamos ?Que Revolução Queremos??. Este será o tema do acampamento, onde iremos analisar o exemplo da Revolução Russa de 1917 à luz dos dias de hoje e colocar algumas questões:

O mundo como está funciona?

Que alternativas existem?

Como as podemos organizar?

De que forma podemos resolver as questões de discriminação que afectam as mulheres, as LGBT, os/as negros/as e imigrantes? 

Em vários lugares do mundo assistimos ao aprofundar das crises, com assaltos aos nossos direitos, governos e políticos corruptos, guerras, milhões de refugiados, aumento da violência de género e LGBTfobica... Vemos o nosso futuro hipotecado e dizem-nos que temos que aguentar. Será que o mundo tem que ser assim?

Convidamos-te a participar no acampamento, para conhecer o MAS, a nossa visão sobre o mundo, as soluções que achamos acertadas e sobretudo para partilhares a tua opinião sobre todas estas temáticas!

Acompanha o evento do acampamento no facebook do MAS >

PROGRAMA

RACISMO, MACHISMO E LGBTFOBIA: QUAL A ORIGEM? 

ACTIVIDADES

Activismo

Debates

Conversas

Música

Festa

Rio

Nos períodos livres dos dias poder-se-á usufruir de passeios de montanha, rio, desporto, música, muita sombra e espaços verdes.

PREÇO 30?

O preço inclui:
Alojamento serpins
2 Pequenos-almoços
2 Almoços
1 Jantares

Utilização das instalações do parque de campismo que tem as seguintes características e equipamentos:

Montanha    
Parque junto a água     
Terreno relvado     
Terreno plano     
Muitas sombras     
Pesca     
Banho

Campos de Jogos (Ténis, Voleibol)
Campo de Futebol relvado
Piscina - grátis     
Televisão     
Grelhadores     
Bar     
Snack-bar     
Canoas     
Restaurantes (1km ou 3km)     
Circuito de manutenção com 10 obstáculos

Tanques para a roupa     
Lava loiças     
Correios (1km)     
Posto de primeiros socorros     
Abastecimentos (1km)     
Sanitários para deficientes     
Duche quente     
Estação de serviço (1km)     
Multibanco (1km)     

É necessário levar tenda e saco-cama (no caso de não teres tenda informa na tua inscrição para arranjarmos solução)

Preenche estes dados, coloca o código para confirmar e clica no botão.

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Ou inscreve-te enviando os teus dados (Nome, email, idade, cidade, telefone e observações) num email para acampamento@mas.org.pt

 



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/juventude/1387-inscreve-te-acampamento-nacional-de-jovens-2017.html

Jerónimo

Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP, declarou a propósito do roubo de Tancos, que o Estado não tinha falhado. Ou seja, 'chuta' a culpa para as chefias militares.

Declaro desde já que não tenho qualquer simpatia por 'chefias militares', comandantes e, muito menos, por generais sempre prontos a servirem a Nato e a política externa ... norte-americana. Mas para Jerónimo e o PCP tudo o que acontece de ruim na política nacional ou é da responsabilidade dos 'governos anteriores' (da direita claro) ou, neste caso, das chefias militares.

Já para Catarina Martins, também a responsabilidade política do ocorrido em Tancos é da subserviência das chefias à Nato. O que sendo verdade oculta uma verdade maior: que essa opção dos generais e respectivas chefias, obedecem às opções políticas estratégicas dos sucessivos governos PSD/CDS e do ... PS, incluindo o actual do PS e de António Costa.

É inacreditável quanto inaceitável, como o BE e PCP na cegueira de apoiarem um governo PS,  escondem as responsabilidades políticas do actual governo (e suas porque o apoiam), bem como de todos os governos PS anteriores. Então os cortes nas forças armadas, nos salários da função pública, na educação, na saúde (fecho de maternidades, manutenção  de taxas moderadoras exorbitantes, por exemplo), não resultaram das políticas dos governos da direita mas igualmente dos governos do PS e até do primeiro governo Sócrates, de que já  naquela altura António Costa era o seu número dois, antes de se 'orientar' para a presidência da Câmara de Lisboa? Não somos todos governados há mais de 40 anos por governos PS e PSD/CDS e até por presidentes da República  (que são os chefes supremos das forças  armadas) quer "socialistas", do PS ou da direita, do PSD, como Cavaco e Marcelo? Então caem pontes no país  (Entre-os- Rios) onde morrem mais de 60 pessoas, autorizam-se durante décadas a destruição da nossa floresta para permitir  a eucaliptização de quase todo o território  nacional que provocam grandes 'Pedrogão' onde morrem mais 64 pessoas, assistem-se a roubos de paióis militares de "alta segurança ", onde os postos de vigia estão  desertos e nenhum governo PS é culpado?

E pela boca de Jerónimo e de Catarina, o actual governo, coitado, também não tem culpa nenhuma. Que esquerda é esta que atrelada a uma geringonça viram coniventes com o regime e o sistema que tanto dizem combater? É certo que ninguém quer de volta, nem nos seus piores sonhos, o Passos Coelho e a direita, mas já chega de branquear e de apoiar a mesma política da direita agora pelas mãos de Costa e de um governo PS (falso e mal chamado "governo das esquerdas"). Torna-se urgente exigir ao BE e PC que retirem o apoio ao governo PS e lutem por um novo governo dos que se dizem contra a Nato, contra os cortes, pela restituição de rendimentos, pela saída do euro, etc. Ao BE e PC nós dizemos: passem das palavras (de "oposição" de vez em quando) aos actos e deixem de apoiar o governo do PS. Neste caminho urge construir uma esquerda alternativa pois nos últimos dias as declarações de Jerónimo e Catarina confirmaram, uma vez mais, que estes partidos da esquerda preferem encobrir o PS e o seu governo do que combatê-lo.

Gil Garcia



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1386-o-estado-nao-falhou-jeronimo.html

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Editorial do jornal Ruptura nº150, Maio/Junho 2017

A recente atitude do governo perante a visita do Papa a Fátima é simbolicamente ilustrativa da postura governamental de submissão perante os poderes estabelecidos.

E longe vão os tempos em que a esquerda parlamentar (BE e PC) se indignavam com os atropelos ao respeito pela laicidade (re)assumida por Portugal , como país, desde a revolução de 1974.

Sinais dos tempos onde o estrangulamento que a dívida pública (e o respectivo pagamento dos Juros) faz ao país e à vida dos trabalhadores deixou também de ser um tema de imediata resolução para a esquerda parlamentar que antes a queria ver ?reestruturada? no sentido de não pagar aquilo a que chamavam a ?divida ilegítima?. Agora o plano passa a ser pagar tudo... a outro ritmo. Efetivamente o relatório comum do PS/BE assume querer ?cumprir as regras europeias? (leia-se reduzir o défice público e pagar juros e amortizações de toda a dívida). E até apresenta um plano conjunto para 30 anos (até 2048) cujas medidas (paliativas) se sintetizam na redução média das taxas de juro, recompras antecipadas e novas dividas a curto prazo. Um plano para manter o doente vivo, mas doente por mais 30 anos. Uma estratégia de mudar alguma coisa para manter o essencial como está.

Enquanto o orçamento de Estado continuar a pagar a divida que os grandes grupos da construção civil, os grandes patrões e os banqueiros fizeram (e que é deles e não nossa) e que os enriqueceu em milhares de milhões de euros (ao ponto de trocarem ?prendas? de 14 milhões de euros como deram a Ricardo Salgado), enquanto esta escandalosa situação continuar e só em juros desta divida forem pagos 8,3 mil milhões de euros por ano; os jovens, os trabalhadores e o povo português não irão ter empregos com salários dignos, direitos e sem precariedades; não irão ter serviços públicos de qualidade, nem os reformados irão ter pensões dignas que lhes permitam uma vida economicamente independente.

É por isso que a esquerda precisa de assumir outro programa e outra política:

- Retomar a luta pela suspensão imediata do pagamento da dívida.

- Lutar pela nacionalização da banca.

- Agir pela saída do euro e acabar com a subordinação à política da UE.

Esta será a forma de tomar um caminho económico capaz de melhorar qualitativamente a vida dos jovens e trabalhadores portugueses. É sob este programa que BE e PC se deviam unir em vez de se unirem no apoio ao governo PS/Costa fiel servidor dos acordos com a União Europeia.

No sentido da luta por uma nova política, desde já há que retomar a luta nos sectores público e privado, e na rua, pela reposição de direitos roubados e por salários dignos.

Um bom exemplo desta luta necessária foi dado neste início de Maio pelos trabalhadores dos SMTUC (transportes urbanos de Coimbra) que querem ver na prática a recuperação da anterior carreira profissional de motorista agente único. Perante a recusa dos sindicatos (STAL) em cumprirem a decisão do plenário dos trabalhadores para uma greve a 11 de Maio, os trabalhadores organizados pela sua CT decidiram em plenário a manutenção da data da greve e elegeram uma comissão de greve para aplicar as decisões do plenário.

Assim, e apesar das ameaças a administração em marcar faltas injustificadas a todos os que fizessem greve (dado esta não ter sido convocada pelos sindicatos), com um colectivo unido pelo debate e decisão democrática do plenário, os cerca de 250 motoristas concretizaram a maior greve de sempre nos SMTUC (apenas circulou 1 autocarro na parte da tarde) e 120 motoristas vieram a Lisboa para entregar uma petição na Assembleia da República, onde reafirmaram a disposição de levar a sua luta ?até onde for preciso? para alcançar o direito à reposição da carreira e dos salários.

O MAS esteve presente e solidário com esta luta que constitui um bom exemplo a seguir para recuperarmos os direitos que nos foram roubados e exigirmos uma outra política a esta governação apoiada na esquerda parlamentar.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/jornal/ruptura-150/1385-a-saida-da-crise-exige-caminho-alternativo-a-esquerda.html

pedrogao2Portugal arde há décadas sob a responsabilidade dos sucessivos Governos PS, PSD/CDS.

Tinha-se tornado já um acontecimento banal, previsível, expectável. Até já tinha sido balizado no calendário anual pelo Instituto da Conservação da Natureza e Florestas. Segundo este organismo estatal, o período crítico é de 1 de Julho a 30 de Setembro. O Verão lusitano é assim desde há mais de 30 anos.

Alguns anos têm sido mais devastadores que outros, como 2003 e 2005. Alguns anos têm sido mais mortais que outros, como 2013, quando 9 bombeiros perderam a vida.

A política dos sucessivos Governos PS e PSD/CDS-PP foi-nos habituando à exaustiva e sensacionalista cobertura mediática, às lágrimas de quem tudo perde na voragem das chamas, ao património natural que é anualmente destruído, à caça policial ao pirómano, etc. Todos os anos, há umas semanas de debate público sobre prevenção de incêndios, sobre gestão do território, sobre política florestal, sobre desertificação, sobre a moldura penal aplicada ao crime de fogo posto, se devíamos ou não mandar os presos limpar as matas, etc.

Assim que começam a cair as primeiras chuvas do Outono, elas varrem o debate, e este fica interrompido até ao 1 de Julho do ano seguinte.

Este ano tudo parece ter começado mais cedo, ainda antes do próprio Verão ter começado. Até ao momento 64 pessoas perderam a vida, num choque automóvel em cadeia, numa estrada transformada num túnel de fogo, intoxicadas e carbonizadas nos seus próprios veículos, tentando fugir para o exterior, ou nas suas próprias casas. Este é o mais trágico incêndio florestal alguma vez ocorrido em Portugal de que há memória. Vítimas inocentes, famílias inteiras devoradas pela fatalidade de um incêndio florestal.

Mas essa palavra, ?fatalidade?, que vem do latim fatum e que quer dizer ?destino?, pressupõe que os acontecimentos de Pedrógão foram algo de imprevísivel, inevitável, uma infeliz sucessão de eventos que nada nem ninguém poderia ter adivinhado, um daqueles acasos trágicos que vão pontuando a existência humana.

Falaram-nos de um raio e de uma árvore seca, falaram-nos do calor e do vento, agora e apesar de inicialmente a GNR descartar a hipótese de fogo posto, fala-se em mão criminosa...

Tendo ou não sido fogo posto, existe sim mão criminosa. Falemos das mãos criminosas que nas últimas décadas têm sido responsáveis por estas 64 mortes e outras tantas mais, de civis e bombeiros.

Falemos dos governos de Cavaco Silva, que marcam o triunfo do Eucalipto em Portugal, essa espécie invasora que vinha, paulatinamente, a afirmar-se no território português. Álvaro Barreto, Ministro das Pescas, da Agricultura e Alimentação de vários Governos Cavaco, elevou a árvore que os australianos chamam de árvore-gasolina a pedra de toque da nossa política agrícola. Ele que já fora um dos carrascos da Reforma Agrária, preparou o nosso território para a PAC. Todos nós sabemos o que se passou: a agricultura portuguesa não se modernizou, o abandono dos campos foi incentivado, as monoculturas de cereais triunfaram, muitas terras foram abandonadas e ocupadas, assim, pelo Eucalipto, tão rentável quanto destrutivo. O directório da então CEE retirou-nos a soberania alimentar e a SOPORCEL, de que Barreto fora CEO, passou a ser livre de plantar, onde hoje deveriam crescer pomares e floresta autóctone, o que então foi apelidado, por esse governo, de ?Petróleo Verde?. Todos os Verões desde então, temos tido ?marés negras?.

Falemos da desertificação do interior do país, de que todos os governos desta república têm sido cúmplices. Para além da destruição da agricultura, falemos do desmantelamento da ferrovia, do fecho de unidades de saúde, do fecho de escolas, do fim das SCUTs, da privatização e desmembramento da Rodoviária Nacional, da ?litoralização? dos Orçamentos do Estado. Quando não há como viver no interior, ninguém trabalha a terra, ninguém vive dela. Queremos uma população envelhecida e em vias de extinção a limpar o mato?

Falemos de José Sócrates e o seu Ministro da Agricultura, Jaime Silva, que, em 2006, extinguiram o Corpo Nacional da Guarda Florestal e integraram os seus trabalhadores no Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), da GNR. Nós assistimos, ao longo dos anos, às múltiplas fusões de institutos e organismos estatais que são feitas para reduzir despesa pública, ou seja, neste caso, meios de prevenção e actuação. O desaparecimento dos guardas florestais é a perda de uma profissão com um conhecimento do território insubstituível, como se vê. O mesmo aconteceu com a Direcção Geral dos Recursos Florestais. Depois do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade e da Autoridade Florestal Nacional temos hoje um Instituto de Conservaçaão da Natureza e Floresta, criado no Governo de Passos Coelho com o Plano de Redução e Melhoria da Administração Central (PREMAC). A Ministra da Agricultura era então Assunção Cristas. É impressionante a voragem com que, desde que começou a era da austeridade, no tempo de Durão Barroso e Ferreira Leite, institutos e organismos, nos mais variados sectores do Estado, foram desaparecendo em fusões até chegarmos a entidades hoje sub-orçamentadas. O Estado é cada vez mais anémico. As vítimas desta destruição do Estado Social são, habitualmente, invisíveis para a maioria da população.

Assunção Cristas, actual líder do CDS-PP, deu também uma forte machadada na política florestal quando, em 2013, publicou a lei que permitiu a mais completa liberalização da plantação de Eucaliptos em Portugal. Quem conhece a EN 236, sabe que é uma das muitas estradas portuguesas que são autênticos túneis de Eucaliptos. Tal como a ponte Hintze Ribeiro, em 2001, não era a única ponte em risco mas apenas a primeira a matar em massa, há outras estradas potencialmente mortais em caso de incêndio, por esse país fora, mas algo nos diz que será muito mais difícil erradicar o Eucalipto do nosso território do que foi inspeccionar pontes em risco há 15 anos atrás.

Lembremo-nos que em Janeiro, a Altri ameaçou desinvestir em Portugal ?se o eucalipto continuasse a ser demonizado?, que Capoula Santos dizia, em Março, no contexto da discussão em torno da reforma florestal que ?queremos produzir muito eucalipto em menos terreno? e que havia ?muito eucalipto onde não pode estar e há terrenos onde é possível produzir o dobro?. Dias antes da tragédia, 9 milhões de euros, em fundos europeus, iam ser canalizados para um concurso para a promoção e apoio da plantação de Eucalipto. Não vai ser com este governo que regressarão os sobreiros,os carvalhos e os pomares? É a natureza do sistema económico em que vivemos que o lucro se sobrepõe acima de quaisquer considerações ambientais ou do bem-estar das populações. Nessa mesma semana, em Inglaterra, num prédio onde viviam famílias da classe trabalhadora, muitas delas imigrantes, também desapareceu em chamas, contabilizando-se até ao momento 79 vítimas, tudo porque o edifício foi reabilitado com um material altamente inflamável, mais barato, para poupar uns trocos.

Os acontecimentos do fim de semana passado espelham os últimos 30 anos da política portuguesa. A Política Agrícola Comum destruiu a produção agrícola e rasgou feridas profundas no território português, estando na origem de crimes e catástrofes ambientais, condenando o interior do país ao definhamento demográfico e económico. O actual Governo PS vangloria-se de um défice baixo, que se explica porque, entre outras coisas, mais uma vez se cortou despesa nos Bombeiros, na Protecção Civil, nos engenheiros florestais, na gestão e vigilância do território e das florestas.

Os fundos que poderiam ter salvo vidas foram usados para salvar a banca e para pagar uma dívida odiosa àqueles que, há 30 anos atrás, em Bruxelas, traçaram o plano de destruição da economia nacional. Por fim, temos o SIRESP, que não funcionou, mais uma PPP, na qual participaram o Grupo Espírito Santo, PT, Caixa Geral de Depósitos, Esegur, Motorolla e a SLN ligada ao antigo BPN, e em que o Estado gastou mais de 500 milhões de euros.

Os que que lucram com mares de eucaliptos, com madeira de zona ardida vendida em saldo, eles e os seus cúmplices do costume nas altas esferas do Estado, no PS, no PSD e no CDS, eles são o factor comum em todas estas tragédias. Eles são as mãos criminosas que todos os anos incendeiam o país. E é assim que temos, no espaço de dias, duas grandes tragédias em grande escala, na Europa do Século XXI, em que gente inocente é imolada no fogo para garantir o lucro de um punhado de empresários e os seus aliados na máquina do Estado.

Marcelo Rebelo de Sousa, assim que chegou a Pedrógão Grande decretou que ?mais nada poderia ser feito?, dando toda a cobertura à actual Governação do PS. Por sua vez, BE e PCP têm-se ouvido muito pouco. Se estivessem na oposição, a sua crítica era para além de audível, seria também visível, denunciadora dos erros e omissões, exigente de alterações políticas. No entanto, têm-se ficado pelo quase silêncio, à espera que o seu apoio ao actual governo não saia demasiado beliscado, à espera que o actual governo saia o menos beliscado possível.

Queremos o fim da eucaliptização da floresta portuguesa! Queremos ordenamento do território! Queremos medidas (transportes, escolas, habitação, emprego) que revertam a desertificação do país! Queremos investimento na prevenção e combate aos incêndios e outras catástrofes naturais e mais meios para a Protecção Civil e Bombeiros! Queremos a profissionalização de quem previne e combate os incêndios! Queremos uma política florestal que permita o regresso de espécies autoctones e a vigilância do território e a preservação do nosso património natural! Queremos uma nova política agrícola que permita a responsável utilização dos solos, garanta a nossa soberania alimentar e trave a litoralização do território! Exigimos que sejam apuradas responsabilidades e que, ao contrário de Entre-os-Rios ou as cheias na Madeira em 2010, a culpa não volte a morrer solteira, nem tudo volte a ficar na mesma, até ao próximo Verão, até uma nova catástrofe! Queremos a floresta protegida em vez da protecção dos interesses económicos!

 

Davide Santos



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1380-pedrogao-grande-uma-tragedia-de-mais-de-30-anos.html

Entrevista à FEMAFRO - 27Jul2017 17:31:24

femafroMAS: O que são as FEMAFRO e que tipo de trabalho fazem?

FEMAFRO: A FEMAFRO ? Associação de mulheres e Afro Descendentes em Portugal, foi criada a 20 de julho de 2016, cujo objectivo é defender e promover a imagem e os direitos das mulheres negras, africanas e afro descendentes.

MAS: Como é que as FEMAFRO surgiram?

FEMAFRO: Surgimos com o objetivo de quebrar esta invisibilidade da mulher negra na sociedade portuguesa. O movimento começou como um movimento social, nas redes sociais, no sentido de todos os dias colocarmos um post relativo à mulher negra à volta do globo, porque não tínhamos muitos dados sobre o posicionamento social e económico da mulher negra - e ainda não temos. E como começámos a ver um maior interesse das pessoas e dos media, resolvemos, então, fazer o 1º encontro de feministas negras em Portugal. Depois, a partir daí, com a percepção de que havia um longo trabalho a ser feito, resolvemos passar deste movimento social para uma associação constituída, com o objectivo de atuar no terreno.

Nós temos muitas mulheres negras que nasceram cá em Portugal. É importante dividirmos esta questão da mulher negra intimamente ligada à questão da imigração porque isso é uma falácia. Logo ai estamos a retirar uma boa parte de mulheres negras que também vivem, e sempre fizeram a sua vida, em Portugal (nasceram cá, tiveram toda a sua socialização em território português, têm nacionalidade portuguesa), mas, mesmo assim, continuam a não ser consideradas portuguesas. Por isso é importante associarmos a questão da mulher negra à questão da imigração. É muito mais vasto do que isto.

MAS: Como vêem a situação da mulher negra em Portugal?

FEMAFRO: Para sabermos como estamos, precisamos de recuar à História e aos 500 anos de colonização e de escravatura, para percebermos que as estruturas ideológicas e sociológicas, apesar das mudanças, presenciam uma génese. Cada indivíduo é construído socialmente para ocupar um lugar. Tomando a imagem da pirâmide, vemos que as pessoas consideradas como a norma, histórica e biologicamente, estão no topo. As pessoas que fogem um pouco à norma e que sempre tiveram um papel pouco relevante, esquecido, renegado da História, continuam ainda a ocupar a base da pirâmide. Isto é uma questão social que ainda acontece, não só em Portugal, mas em todos os países do mundo.

Para além da questão da raça, temos a questão do género e da classe social. Historicamente, as mulheres negras sempre ocuparam a classe social mais baixa, em todas as sociedades. E como é que estas opressões se entrecruzam? Como é que uma mulher negra, pobre, que não teve muitas oportunidades de vida, devido passado histórico que ainda carrega sobre as costas, consegue sobreviver numa sociedade como esta? O que se percebe é que as estruturas sociais não mudaram assim tanto. As estruturas sociais, em Portugal, continuam estratificadas, e a mulher negra sofre as suas principais dificuldades, não apenas com o sexismo, mas com o sexismo aliado ao racismo e à classe social.

Falar sobre a classe é importante porque as mulheres negras continuam subrrepresentadas nos espaços de poder (falando em politica, economia, cultura). As mulheres negras continuam presas ao estigma de que ocupam profissões que, socialmente, não são consideradas honorárias. As mulheres têm de balançar dois, três trabalhos para se poderem sustentar, e não têm tempo para se dedicarem à família, ao lazer, à participação cívica e pública. Isto causa também uma certa exclusão. Sobre a questão da participação das mulheres negras na vida pública, nos espaços académicos e de conhecimento, vemos que a fatia tende a diminuir ainda mais, devido a estas questões. Por isso é importante falar sobre os impedimentos que fazem parte da vida das mulheres negras. Na questão cultural de hoje, não causa espanto ver uma mulher negra a limpar uma casa de banho num centro comercial, mas causa espanto quando a mesma é, por exemplo, nomeada para exercer um cargo governativo, como é o caso da Ministra da Justiça Francisca Van Dunem. Porque é que causou este espanto vermos uma mulher negra a ocupar um cargo de poder num espaço governativo? Precisamente porque o papel social da mulher negra está intimamente ligado às questões da subserviência e da obediência. Quando cruzamos esta fronteira, causamos espanto, pois as pessoas não estão habituadas.

É importante desconstruir, também, este conceito da meritocracia, pois percebemos que, na realidade, não é bem assim. Quem detém privilégios, desde a nascença, obviamente irá conseguir um cargo superior ou mais oportunidades de vida. Quem nunca os teve, historicamente, tem um caminho mais difícil.

MAS: Estando uma mulher negra no poder (refere-se a Francisca Van Dunem), existem contradições ou é, de todo, positivo?  Será que vai mudar alguma coisa?

FEMAFRO: Se [Francisca Van Dunem] chegou ao poder, teve mérito, oportunidade de estudar e um percurso com uma família estruturada, e tudo mais (coisa que a maioria das mulheres negras acaba por não ter). Penso que é apenas uma ?gota no oceano?. Pode fazer um bom trabalho, com certeza, mas, em termos percentuais, é irrisório. É bom, por um lado, mas é muito pouco.

A política é um meio muito complicado. Há uma máquina por trás dessa pessoa. Ela não vai mandar no mundo, nem impor as suas vontades e escolhas. Foi isso que aconteceu com Obama, e é o que vai acontecer com todos os políticos, independentemente da cor, género, raça, religião, etc.. Portanto, é complicado. É bom para vermos que há ali alguém, mas é um pouco estranho, visto que havia um leque de pessoas a dizerem que ?agora só temos um governo de pretos, ciganos e afins?. É triste por haver apenas 3 representantes um pouco diferentes da norma, em dezenas.

Estas nomeações estão longe da realidade do país. Não é pelo facto de termos uma Ministra da Justiça negra que Portugal deixa de ser um país racista. O racismo é muito mais do que pessoas individuais: é uma estrutura, uma máquina bem-oleada ao longo de séculos, que continua a determinar a posição dos negros na sociedade. Estas figuras não representam um fim de uma ideologia que continua a subordinar pessoas pela sua cor de pele e a dizer quais vidas importam e quais não importam. É bastante importante termos uma ministra negra em 40 anos de democracia, mas não chega, não é suficiente. É uma percentagem ínfima.

Se falarmos em percentagens, nós, negros e negras em Portugal, nem sequer termos o direito a saber qual é a nossa percentagem no país, ou seja, não temos dados estatísticos que nos digam quantos negros realmente existem no país. Nós, negras e negros, não podemos, neste momento, exigir políticas públicas e respostas à nossa situação social, se não temos dados para nos basearmos. Não temos dados para, de uma forma não-demagógica, pensar nas nossas comunidades e estruturar uma política social que vai de encontro às nossas próprias necessidades. Até nisto sofremos de uma sociedade racista.

Não falar da diferença é silenciar vozes, e as vozes das negras e negros em Portugal, sem dados estatísticos, é silenciada. A própria lei silencia. Temos que ir um pouco mais a fundo e não ficar pelas questões superficiais. Temos de questionar sobre como a constituição está feita para conseguirmos ter uma visão mais aprofundada sobre o racismo em Portugal.

MAS: E quanto ao tema da lei da nacionalidade?

FEMAFRO: Eu tive a sorte de ter nacionalidade portuguesa porque o meu pai já tinha iniciado o processo e, quando a lei saiu, a nacionalidade dele tinha sido adquirida um mês antes. Portanto, eu consegui a nacionalidade portuguesa, mas tenho familiares, amigos e pessoas próximas cujos filhos não têm a nacionalidade portuguesa. Têm nacionalidade cabo-verdiana, tendo que se registar na embaixada de Cabo Verde. Quando falo em Cabo Verde, falo também em outros países africanos, e não só. Se eu nasci cá, se eu me socializei aqui, se toda a minha vida foi feita aqui, em Portugal, porque é que não tenho direito à nacionalidade?

Uma questão curiosa é a dos imigrantes de 1ª, 2ª e 3ª geração e de quando é que estes imigrantes passarão a ser portugueses. Esta questão é extremamente sensível pois causa, nos jovens e nas pessoas que nasceram cá, sem nacionalidade portuguesa, uma dúvida de saber quem são. És filho de um cabo-verdiano, chegas aos 18 anos, e já não podes pedir autorização de residência pelos teus pais. Para isto, precisas de um trabalho para pagar os descontos na segurança social, tens uma data de requisitos para preencher sobre quando tu nasceste cá.

Existem outros casos mais problemáticos de pessoas com doenças mentais. Há pouco tempo soube de um desses casos. Ele nasceu aqui, os pais não eram portugueses e já morreram, e neste momento é um sem-abrigo. Entretanto, precisa da documentação para ter acompanhamento médico, mas nem sequer sabe se os pais o registaram na embaixada angolana e, se não sabe, tem de mandar vir documentos da Angola, que são caríssimos e dificilmente adquiridos, devido à burocracia. Esta pessoa está há 20 anos sem documentação, e nasceu cá, em Portugal. Como é que esta pessoa pode criar uma identidade e dizer-se portuguesa? Quando falo desta pessoa, falo, também, de várias outras. Como é que isto pode acontecer?

Isto criou um afastamento físico e social entre os jovens. Não sinto que faço parte desta sociedade porque esta me exclui. Nasci filho de imigrantes e filho de imigrantes continuarei. A nova lei da imigração tem colocado cada vez mais empecilhos para a aquisição da nacionalidade. Estamos com uma camada juvenil muito grande de negras e de negros que dizem claramente, e com todas as letras, que não se sentem portugueses. A longo prazo, isto irá ter consequências na sociedade portuguesa. Por isso é importante que o Estado olhe para estas pessoas, que podem não ser eleitores, mas que fazem parte de uma sociedade e devem ser vistos.

MAS: O que acham da eleição de Trump? Existirão apenas consequências negativas?

FEMAFRO: O problema do Trump até ultrapassa a figura em si. Ele abriu a caixa de Pandora. As coisas nos EUA já estavam complicadas e ele abriu uma caixa de movimentos racistas, xenófobos que estavam um pouco adormecidos pois estávamos numa sociedade um pouco mais liberal. Agora, acordaram e descobriram que podem ter uma voz. Houve um ressurgir destes movimentos: ?Eu posso, quero e vai acontecer?. Esse é o grande problema do Trump, independentemente das suas políticas.

MAS: Será que pode trazer alguma mobilização?

FEMAFRO: Anterior ao Trump, já havia muito a esse nível, desde o Brasil aos EUA. Já existiam muitas associações a trabalhar nesse sentido. O problema do Trump é dar voz a certos grupos. Talvez ele queira mudar alguma coisa, mas talvez não consiga mudar tanto assim. Quero ver como vai lidar com o problema da Rússia, da Síria, como vai lidar com o problema da NATO.

A principal questão do Trump não tem muito a ver com a figura em si, tem mais a ver com a legitimação de um discurso xenófobo, racista, misógino, machista, todos os ?-istas? que podemos encontrar, e a forma de como o mundo deve lidar com este ?sinal verde?.

A História vai-se repetindo por ciclos. Hitler foi eleito democraticamente numa altura em que a Europa e os EUA passavam uma crise enorme. Chegou ao poder como qualquer outro e pegou nalgo que faz parte do ser humano: o medo do desconhecido. As pessoas baseiam-se neste medo. É sempre isso que acontece quando os regimes fascistas sobem ao poder: é incitado, na pessoa, o medo do outro e a ignorância (o fascismo alimenta-se da falta de conhecimento). A culpa é do outro. Eu tenho de destruir o outro para voltar a ser quem eu achava que era antigamente, para voltar a ser melhor (Make America Great Again). E o que é que está a deixar os EUA para trás, de acordo com esta mensagem? Os mexicanos e os muçulmanos.

Na 1ª semana depois da eleição de Trump, 200 casos de violência racista, xenófoba e LGBTfóbica foram registados. Trump legitimou um discurso. Em vez de os responsabilizar pelo fracasso da política interna e externa dos últimos anos, apontou um alvo a abater. A meu ver, foi um dos aspetos que o fez subir ao poder.

Temos de olhar também para o continente europeu. Estamos a ver o surgimento de novas forças de extrema-direita em países extremamente democráticos, como a Suécia, Hungria, França, Alemanha, e até em Portugal, em que os militantes do PNR afrontaram a marcha a favor da legalização dos imigrantes.

MAS: Acham que é importante criar um movimento negro que juntasse as associações, colectivos, etc. que fizessem trabalho nessa área, para trabalharem juntos nesse sentido? Acham que há espaço para isso em Portugal?

FEMAFRO: Não temos uma história forte de movimento sociais em Portugal. Falo na sociedade como um todo, e não apenas no caso das negras e negros. O movimento social está menos desenvolvido do que, por exemplo, no Brasil, EUA, ou Moçambique, onde surgiram novos movimentos de mulheres. É interessante vermos como temos tanto por fazer.

Aqui, os movimentos funcionam como se cada um trabalhasse no seu próprio quintal. Cada um trata das suas próprias questões, tem o seu público-alvo, e trabalha em pequenos grupos. Temos de nos unir, fazer parcerias, criar redes de contacto entre nós para chegarmos a um determinado ponto de desenvolvimento. É isto que falta, embora este ano se sinta que surgiram novos movimentos, especialmente quando falamos em mulheres negras. São muito recentes, mas a médio-longo prazo podem-se tornar coesos. É este um dos objetivos da FEMAFRO. Achamos que é importante ter a mulher africana/afrodescendente como a protagonista, no sentido de ser ela a estar à frente da direcção, das decisões tomadas em nome da FEMAFRO porque, historicamente, sempre fomos apartadas de todos os espaços, e assim temos um espaço nosso.

Há também a questão de nos identificarmos como uma organização feminista, pois muitas vezes, e até mesmo na esquerda, vemos uma grande dificuldade em falar sobre as questões raciais e de género. Vemos partidos revolucionários que não querem tratar de forma igualitária todas estas opressões. Quando falamos em exploração de classes, por ser mulher, e por ser mulher negra, esta luta é muito mais difícil de travar. Preciso da ajuda de pessoas que não são negros, nem mulheres. É por isso que somos apartidárias. Queremos trabalhar com todos os movimentos, com todos os partidos, e não apenas com um. De momento, a nossa perceção é que só conseguimos alterar algumas políticas públicas falando com os diversos partidos e movimentos sociais. Nenhuma opressão é superior às outras e, juntos, devemos colaborar para abrir a porta do nosso quintal.

MAS: Raramente ouvimos denúncias de violência doméstica sobre mulheres negras, acham que existe racismo nesta questão?

FEMAFRO: Há um fator cultural. A cultura cigana é extremamente patriarcal e dificilmente uma mulher consegue furar, como também a cultura negra tem as suas particularidades. É muito difícil ver uma mulher negra a denunciar uma situação dessas porque estamos no fundo da pirâmide. Nas esquadras dizem que é melhor voltar para o marido, que é só uma discussão. Há uma série de estratégias para fazer com que desistam. A própria polícia desvaloriza a situação.

Quando uma mulher negra apresenta queixa à esquadra no Brasil, há uma diferenciação na raça da pessoa. Assim, é possível vermos quantas mulheres negras são vítimas (no Brasil, o nº de mulheres negras vítimas de violência doméstica aumentou em 51,1%). Em Portugal, esta diferenciação não ocorre e, por isso, voltamos à questão da estatística. Não temos dados. O Estado limita-nos.

Em todas as campanhas contra a violência doméstica, não há uma única fotografia de uma mulher negra, cigana ou asiática. Não existe representatividade dos negros e negras em Portugal. Este silenciamento é o que nos mantem na base da pirâmide. Talvez se houvesse mais esquadras femininas, seria mais fácil para uma mulher reportar, mas não há sensibilidade. Os próprios homens são humilhados pelos polícias porque a sociedade espera, inconscientemente, que o homem seja o agressor, e não o contrário.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1379-entrevista-a-femafro.html