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Artigo de Victor Amal, Florianópolis, publicado no Esquerda Online

Neste domingo, 9 de setembro, ocorreram as eleições parlamentares da Suécia. As pesquisas apontavam a possibilidade do partido de extrema direita, o Democratas Suecos, ficar em primeiro lugar. Mas ao final, a socialdemocracia conseguiu garantir a liderança, ainda que com sua menor votação em mais de um século. Por conta disso, e do fracionamento entre os partidos de centro-esquerda e centro-direita, o país permanecerá por semanas, ou meses, em estado de indefinição quanto à composição do novo governo.

O contexto: uma breve história

A Suécia tem um regime político de monarquia-parlamentarista, em que o principal posto de poder é o do primeiro-ministro, eleito pelo parlamento.

A Suécia é um dos países, e talvez o principal, em que a socialdemocracia europeia foi mais bem-sucedida. Fundado em 1889, o Partido Social Democrata entrou no governo pela primeira vez em 1917. Posteriormente, permaneceu de forma ininterrupta no poder entre 1932 e 1976. Neste período, a Suécia era um dos países mais avançados da Europa em termos da conquista de direitos democráticos e bem-estar social.

Contudo, após a queda do muro de Berlim, o partido iniciou um processo de declínio. Desde os anos 30, os socialdemocratas sempre conquistavam no mínimo 40% dos votos. Atualmente, a última vez que isso ocorreu foi em 1994, e a cada ano vêm diminuindo cada vez mais sua pontuação.

Nas eleições de 2006 e 2010, foi derrotada pela ?Aliança para a Suécia?, uma frente de partidos de direita liberais e conservadores que incluí os Moderados, Centro, Liberais e Cristãos Democratas. Pela primeira vez em um século, o partido ficou fora do governo por 8 anos.

Isto se deveu, em parte, pela adaptação do partido ao neoliberalismo, fortalecido após a queda da União Soviética. Um dos resultados dessa virada foi a entrada da Suécia para a União Europeia (UE), em 1995, cujo efeito foi a redução das políticas de bem-estar social, uma das obrigações que o bloco impõe aos países membros.

Neste período, também, houve o surgimento e fortalecimento de um novo partido de extrema direita com origem em movimentos neonazistas. Fundado em 1988, os Democratas Suecos começaram como um movimento abertamente supremacista branco. Inclusive, o partido foi fundado por pessoas diretamente ligadas ao nazismo sueco, como Gustaf Ekström e Anders Klarström.

Porém, em 1995, os Democratas Suecos começaram um processo de ida ao centro, que acabou se consolidando em 2006 sob a liderança de Jimmie Åkesson, atual candidato a primeiro ministro, que expulsou membros mais diretamente vinculados ao nazismo.

Desde então, os Democratas Suecos passaram a ter uma identidade mais próxima à Frente Nacional, da França, ou ao Partido Popular Dinamarquês, que apesar de serem de extrema direita não defendem (pelo menos abertamente) o supremacismo branco ou o nacionalismo étnico. O resultado foi a entrada do partido no parlamento em 2010 e um crescimento exponencial nas últimas eleições.

Apesar do declínio nas últimas duas décadas, os socialdemocratas voltaram ao poder em 2014 sob a liderança de Stefan Löfven. Este retorno, todavia, não foi suficiente para recuperar a força histórica do partido, que atingiu apenas 31% dos votos.

Além disso, não conseguiram formar uma coalizão de maioria, tendo que recorrer à um governo de minoria ? na Suécia, é possível que o partido mais votado faça um governo de minoria conquanto ele consiga que os outros partidos lhe concedam um voto de confiança para aprovar as questões fundamentais de governo, como orçamento ou projetos de defesa.

O resultado eleitoral

Nas eleições deste ano, em primeiro lugar, ficou novamente a Social Democracia com 28,4%. Apesar de manter a liderança, o partido perdeu 2,8% de votos em relação à 2014, confirmando a tendência ao declínio que se iniciou em 2006. Este foi o pior resultado eleitoral social-democrata desde 1914, quando fez 14,5%.

No espectro do ?bloco de esquerda? está também o Verdes, que caiu 2,3% de votos e ficou com apenas 4,3%. Já a Esquerda subiu 2,2% em relação às eleições passadas e chegou à 7,9% dos votos. No total, os três partidos fizeram 40,6% dos votos.

A Esquerda surgiu do antigo Partido Comunista, que rompeu com a socialdemocracia em 1917, permanecendo como tal até 1990, às vésperas do fim da União Soviética. Naquele ano o PC mudou de nome para Esquerda, oscilando desde então entre 5% e 12% dos votos.

Já no espectro dos partidos de direita, que formam a ?Aliança para a Suécia?, o Moderados, líder da aliança, perdeu 3,5% dos votos em relação à eleição passada e ficou com 19,8%. Apesar de ter sido o partido que mais perdeu votos de 2014 pra cá, permaneceu como segunda força política do país.

Já o Centro cresceu 2,5% e chegou à 8,6% este ano, enquanto os Cristãos Democratas cresceram 1,8% e chegaram a 6,4%. Os Liberais, por sua vez, cresceram apenas 0,1% e permaneceram estáveis com 5,5%. No total, os três partidos fizeram 40,3%.

Em terceiro lugar ficou a extrema direita dos Democratas Suecos, com 17,6%. Apesar de o partido ter sido derrotado, tendo em vista as pesquisas de boca de urna que apontavam um possível primeiro lugar, foram também os que mais cresceram de 2014 pra cá, aumentando em 4,7% de votos.

Isto confirma a tendência de crescimento deste partido que estreou no parlamento em 2010 com 5,7% e, depois, subiu para 12,9% em 2014. Além disso, a paridade entre os blocos de direita e esquerda acabou tornando central o papel de o Democratas Suecos irá cumprir na formação da nova coalizão de governo.

Dificuldades para uma coalizão de governo

Apesar da Social Democracia ter ficado em primeiro lugar nas eleições, é difícil que o partido conseguirá formar uma coalizão de governo. Mesmo os três partidos do bloco de esquerda juntos não têm representação parlamentar suficiente para formar uma coalizão de maioria, ainda que restasse a possibilidade de formar um governo de minoria caso obtivessem o voto de confiança de outros partidos.

Contudo, o ministro Stefan Löfven vem tendo cada vez mais atritos com a Esquerda. Ambos divergem sobre um dos principais temas das eleições, que é o orçamento sueco. Enquanto os social-democratas defendem uma política de austeridade fiscal, apoiada pelo empresariado, a Esquerda se posiciona pela preservação do estado de bem-estar social do país.

Dada a centralidade da política orçamentária para a execução do governo, o ministro Löfven vem demonstrando que não irá negociar com a Esquerda. Além disso, uma aliança com a Esquerda impossibilitaria a Social-Democracia conseguir um acordo com outros partidos de direita, que são a preferência do primeiro ministro.

Segundo, os Moderados e Cristãos Democratas estão tentando convencer o Centro e os Liberais a fazer um acordo com os Democratas Suecos, para que eles concedam um voto de confiança à ?Aliança? e lhes habilite a formar um governo de minoria. Ainda não está claro quais seriam as concessões feitas aos Democratas Suecos por este voto.

Também permanece indefinido se os partidos de direita conseguiriam manter sua unidade, dado que o Centro e os Liberais se mostram firmes em seu posicionamento anterior de não fazer qualquer aliança com a extrema direita. Ainda assim, após uma reunião da ?Aliança? na terça feira, 11, os partidos informaram que estão em processo de negociação e que um acordo com a Social-Democracia está descartado.

Isto frustrou as esperanças de Löfven em tentar um acordo com o Centro e os Liberais para formar uma coalizão, cenário que ainda não está completamente descartado.

Caso nenhuma destas possibilidades ocorra, é possível que haja de novo um frágil governo de minoria na Suécia, seja da Social Democracia ou do Moderados, apesar de este também ser um cenário improvável. Foi justamente durante os 8 anos em que isso ocorreu que a extrema direita teve sua grande ascensão, aumentando mais de 10% em duas eleições.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/europa/1650-eleicoes-na-suecia-social-democratas-vencem-mas-a-extrema-direita-avanca-e-abre-crise-na-sucessao.html

Artigo de Gabriel Santos, Maceió, publicado no Esquerda Online

Os catalães celebram anualmente no dia 11 de setembro o Dia Nacional da Catalunha, o Diada. A data comemora a resistência catalã até a morte durante o Cerco de Barcelona durante a Guerra da Sucessão, finalmente derrotada pelas forças bourbônicas em 11 de setembro de 1.714. O Diada nos últimos anos, a partir de 2012 especificamente, tem se tornando uma importante manifestação política que dita os ritmos e a pauta independentista para o período seguinte. Assim, o lema que a marcha comemorativa assume é a tarefa política das forças empenhadas na independência da região.

Em 2018, o Diada tem uma importância superior ao ocorrido em anos anteriores. É o primeiro após o referendo pela independência da região realizado em outubro do ano passado. Referendo este em que a maioria dos participantes votaram pelo ?Si?, ou seja, pela independência da Catalunha. Porém, foi considerado ilegal e ilegítimo pelo governo espanhol, que fez o possível e o impossível para impedir a votação ao esconder urnas e dispersar filas de votantes através de forte repressão policial deixando mais de mil feridos.

O então presidente catalão, Puigdemont, depois de hesitar acabou por declarar em 27 de outubro a independência da região. Poucas horas depois, em Madrid, o Senado do Estado Espanhol, aprovou a entrada em vigor do artigo 155 da Constituição, permitindo o então presidente Rajoy dissolver o Parlamento e por fim ao governo catalão.

Lideranças independentistas, incluindo Puigdemont, fugiram para outros países, em especial para Bruxelas, na Bélgica. Outras que ficaram na Catalunha foram presas. O Estado Espanhol acusa os membros do parlamento catalão de rebelião, acusação da qual foram considerados inocentes pela Justiça dos países em que estes parlamentares se encontram detidos.

Entretanto, em 1º de junho o governo conservador de Rajoy (PP) é destituído pelo parlamento[1], sendo substituído por Pedro Sanchez (PSOE). Em 12 de junho, a justiça alemã extradita Puigdemont  para o estado espanhol[2] abrindo a possibilidade de reanimar a luta pela independência.

Uma nova situação

Refletindo essa nova situação, o Diada deste ano organizado pela Assembleia Nacional Catalã aconteceu sob o lema de: ?Façamos a República Catalã?. Os manifestantes defendiam a liberdade dos dirigentes políticos presos, a independência da região e a proclamação de uma República na região. Críticas ao Rei espanhol, Felipe VI, foram vistas em palavras de ordem e em faixas ostentadas pelos participantes.

A quantidade de pessoas presentes na manifestação varia de acordo com a fonte. De acordo com o jornal El País, foram 400 mil pessoas; as forças de segurança que acompanharam o ato informam que o número de participantes chegou a um milhão de pessoas.

O atual governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez, do PSOE, propôs negociar sem pré-condições com os independentistas, até se chegar a um acordo de autogoverno, algo que se difere da independência da região diante do Estado Espanhol. Esta proposta seria facilmente aceita em anos anteriores e é muito superior a qualquer coisa que o ex-primeiro-ministro Rajoy já prometeu a região. Porém, hoje, com o atual nível de manifestações e grau de polarização independentista, ela foi prontamente recusada pelo atual presidente catalão Quim Torra, eleito pelo Parlamento em 2 de junho deste ano sob a indicação de Puigdemont.

Entretanto, a proposta feita por Sánchez aumentou a crise existente nas forças independentistas. Elas hoje são maioria no Parlamento Catalão, mas discordam sobre a forma que a luta independentista deve ser realizada.

O Junts per Catalunya, aliança eleitoral encabeçada pelo PDeCAT (Partido Democrata Europeu Catalão)  de Puigdemont e a Esquerra Republicana (ERC) de Oriol Junqueras e Marta Rovira, divergem publicamente. A Esquerra Republicana critica a forma que Quim Torra lidou com a proposta vinda de Madrid. Eles defendem uma mesa de negociação e um referendo realizado de forma conjunta com o Estado Espanhol, porém, tendem a aceitar a proposta feita por Sánchez. Acusam Torra de fazer sempre um discurso unilateral sobre a independência da região, mas nunca detalhando como fará para alcaçar esse objetivo. O Junts per Catalunya tende a defender a posição de Torra, apoiando a pressão que ele exerce pela liberdade dos presos políticos independentistas.

Seja como for, a manifestação do Diada deste ano se diferencia das anteriores pela pauta explícita do chamado a dormi de uma República, algo que confronta diretamente a formação atual do Estado Espanhol. Apesar dos milhares que lotaram as ruas de Barcelona pedindo independência e o fim do controle de Madrid e da monarquia sobre a região, a verdade é que as forças independentistas parecem recuadas. Os partidos que lideraram o processo no período anterior indicam cansaço chegando ao limite de suas contradições, evitando um confronto maior com o Estado e a burguesia espanhola. Assim, é possível que haja um pacto entre o atual governo do PSOE e as forças independentistas na Catalunha. Diante de toda essa situação uma coisa é certa: sem a mobilização popular a independência se tornará algo cada vez mais distante e difícil. No entanto, o Diada demostrou que o ânimo das massas nutre novas esperanças. Nem tudo está perdido.

 

[1] https://esquerdaonline.com.br/2018/06/04/espanha-caiu-rajoy-pp-e-pedro-sanchez-psoe-assume-o-governo/

[2] https://esquerdaonline.com.br/2018/07/13/tribunal-alemao-extradita-expresidente-catalao-puigdemont-oportunidade-para-retomar-luta-pela-independencia/



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/estado-espanhol/1649-dia-11-catalaes-tomam-as-ruas-no-diada-por-uma-republica-independente.html

Portugal é um país racista - 19Set2018 05:53:30

Imagem escolhida para ilustrar a Concentração contra o Racismo.

Em Portugal, onde o racismo é um ?não assunto?, os números não mentem. Os trabalhadores com origem nos PALOP estão duas vezes mais em situação de desemprego, recebem, em média, menos 103? e vivem sete vezes mais em habitações rudimentares[1]. No Ensino, 80% dos estudantes dos PALOP são encaminhados para o ensino profissional[2]. Um estudo sobre os índices de racismo na população europeia, coloca Portugal no topo. Os portugueses aparecem em primeiro lugar no índice de ?racismo biológico?, ou seja, a crença na inferioridade de umas ?raças? face a outras, é partilhada por 52,9% dos inquiridos. Quanto ao racismo cultural, a crença na inferioridade de outras culturas, os portugueses ficaram em 5º lugar![3]

Estes dados demonstram que, para lá do discurso dominante, Portugal é um país racista. A classe trabalhadora em Portugal tem muitas cores e também cá, o movimento negro e anti-racista tem crescido.

Um programa de luta contra o racismo, em Portugal, é hoje uma componente indispensável de um programa revolucionário e socialista para o país. De seguida, assinalamos alguns pontos que nos parecem ser necessário discutir para avançar nesse programa.

Temos um passado colonial e esclavagista

Em Portugal continua a reproduzir-se o falso mito das ?descobertas? e do ?bom colonizador?. Na verdade, Portugal foi um dos promotores do colonialismo e escravatura modernos, que saqueou, torturou, destruiu e matou negros, indígenas americanos e outros povos pelo mundo.

Portugal teve um papel central no esclavagismo, que durou mais de quatro séculos e só terminou em 1878, sendo depois substituído, durante décadas, por trabalhos forçados.

Hoje em dia, tenta-se igualmente esquecer a brutalidade da guerra colonial, os privilégios dos colonos e a segregação. É tempo de o país enfrentar os seus fantasmas, é tempo de falar de descolonização e racismo.

Pelo fim da repressão policial!

Várias organizações internacionais de defesa dos direitos humanos têm alertado para a constante violência policial racista no país. Por exemplo, o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura diz que Portugal é dos países da União Europeia com mais casos de violência policial.

Nos bairros de maioria negra ou cigana, a violência policial racista é uma constante e mantém-se impune. Neste momento está a decorrer o julgamento inédito contra os agentes da esquadra de Alfragide, acusados pelo Ministério Público de violência policial e tortura contra vários jovens negros da Cova da Moura. O fim da violência policial contra a juventude e os trabalhadores negros é uma bandeira essencial que deve ser assumida pela esquerda.

Quem nasceu em Portugal é português!

A Lei que impede o acesso à nacionalidade a filhos de imigrantes, nascidos em Portugal, é uma demonstração do racismo institucional no país. Recentemente, PS, BE e PCP aprovaram pequenas melhorias a esta Lei. Foi uma vitória inicial, fruto da pressão do movimento.

A Lei, no entanto, ficou muito aquém das necessidades reais e das exigências. É necessário que se mude a Lei para que toda a gente nascida em Portugal tenha direito à nacionalidade, porque esta é uma Lei injusta que aprofunda as desigualdades e o racismo. Continuar, expandir e levar esta luta aos locais de estudo, trabalho e aos bairros periféricos é possível e necessário.

A ciganofobia existe

Em Portugal, os Roma são das comunidades que mais sofrem com o racismo. Ao longo dos séculos de História do país, o povo Roma sofreu deportações, prisões, foi punido em público, segregado, condenado à morte, proibido de falar a sua língua, de usar as suas vestes e foram-lhes retirados os filhos.

A ciganofobia é estrutural e até hoje são negados direitos básicos aos Roma, que vivem muitas vezes em bairros sem condições, são segregados, sofrem violência policial, são representados como exteriores à sociedade, é-lhes negado trabalho e entrada em estabelecimentos. Infelizmente, a ciganofobia é uma constante por essa Europa fora.

Hoje vemos surgir uma nova geração Roma, em Portugal, que exige direitos, que reflete e teoriza, que se representa e reivindica, que combate e avança com os seus movimentos sociais contra o racismo e que faz parte dos sectores mais precários da classe trabalhadora. Cabe ao movimento dos trabalhadores tomar para si também o combate à ciganofobia.

No próximo dia 15 de Setembro, Sábado, às 15h, junta-te à Mobilização Nacional de Luta Contra o Racismo, Lisboa (Largo de São Domingos/Rossio) | Porto (Praça da República) | Braga (Av. Central/Chafariz)

Este é um excerto do texto ?Precisamos de falar sobre Racismo?, publicado na Revista Ruptura 152, Julho|Agosto|Setembro 2018



[1] Dados retirados do artigo ?Se eu pudesse exterminava toda a vossa raça? em emluta.net, consultado a 18.06.18

[2] Entrevista da investigadora do ISCTE Cristina Roldão ao Esquerda.net, consultado a 13.06.18

[3] ?Portugal é dos países da Europa que mais manifestam racismo? em publico.pt, consultado a 13.06.18;



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/opressoes/1648-portugal-e-um-pais-racista.html

Artigo de Renata Vereza*, Rio de Janeiro, publicado no Esquerda Online

Tod@s às ruas dia 29 de setembro

A conjuntura política brasileira, que tem estado naturalmente acelerada em função da proximidade com as eleições, ganhou ainda mais complexidade na última semana. Concorrem para isso o atentado sofrido por Jair Bolsonaro, os vídeos de Temer com acusações a Alckmin e Haddad e a troca de titularidade na candidatura do Partido dos Trabalhadores. Enquanto estes últimos insistem na polarização de um lado e recorrem ao discurso do voto útil na tentativa de transferir nessas próximas duas semanas os votos dirigidos a Lula para Haddad, os primeiros apostam na polarização oposta para garantir a manutenção e a expansão da margem de liderança nas intenções de voto a seu candidato. Neste sentido, o atentado despertou a expectativa de que a margem de vantagem deste aumentaria significativamente, garantindo quiçá, uma vitória no primeiro turno.

Contudo, se as pesquisas divulgadas esta semana, tanto do Datafolha, quanto do Ibope, comprovam que houve tímido aumento nas intenções de voto pró Bolsonaro, revelam que, por outro, a rejeição a ele cresceu (Datafolha) ou desceu menos que o esperado (Ibope) e que, diante de um segundo turno, não venceria nenhum dos outros candidatos melhor posicionados na disputa. Esse índice de rejeição consideravelmente alto (acima de 40%), longe de ser somente um dado estatístico, se concretizou durante essa semana na formação de um grupo nas redes sociais chamado ?Mulheres Unidas contra Bolsonaro?. O crescimento exponencial desse grupo, que em apenas poucos dias soma mais de um milhão de mulheres, já chamou a atenção da grande mídia, despertou a ira dos apoiadores (com as tradicionais ameaças) e permite tecer algumas considerações.

O grupo ?Mulheres Unidas contra Bolsonaro? é extremamente heterogêneo e formado por mulheres de diferentes matizes ideológicas, o que indica que a rejeição ao candidato não está circunscrita aos círculos tradicionalmente associados com o campo das esquerdas, mesmo que neste tenha maior reverberação. Também não tem um perfil socio profissional único, com a presença de mulheres das mais variadas profissões, donas de casa, militares e policiais. Muitas dessas últimas fazem questão, inclusive, de marcar não somente a posição contrária, mas de repudiar a associação entre a profissão exercida e a plataforma do candidato. Chama a atenção também o número de mulheres evangélicas que fazem questão de, ao indicar sua confissão religiosa, expressar que isso não as aproxima das ideias propagadas por Bolsonaro. Congrega também mulheres de diversas orientações sexuais e identidades de gênero. Assim, o grupo atravessa distintas classes sociais e é bastante bem distribuído em todas as regiões do país.

O que aproxima então mulheres à primeira vista tão diferentes? Somente aversão a figura de Bolsonaro? Ao que tudo indica, a rejeição ultrapassa o personalismo e incide sobre o conjunto de ideias propagadas por ele e por seus apoiadores. Parece haver um tácito consenso de que uma possível vitória dele significaria um imenso retrocesso nos direitos femininos e, por extensão, de outros grupos oprimidos. Rejeita-se o discurso de ódio, a apologia à violência, o racismo, a homofobia e todos o conjunto nefasto de preconceitos, mas rejeita-se aqui, mais que tudo a misoginia de sua plataforma. Essa é a costura de toda a diversidade presente no grupo e essa é a costura possível. Mas isso também indica algo. Se por um lado é uma clara reação as posturas conservadoras, machistas e fascistas de Bolsonaro, por outro é uma reação que somente é possível em função da ascensão que o movimento feminista tem tido nos últimos anos, desnaturalizando lugares comuns da opressão de gênero (muitos dos quais repetidos pelo candidato), dialogando com um número maior de mulheres e trazendo para a pauta cotidiana o repúdio às diversas e recorrentes violências a que estas mulheres são expostas diariamente.

Assim, a energia do movimento de mulheres volta a se anunciar e assume a linha de frente no enfrentamento ao avanço conservador e fascista. É necessário potencializar esse movimento e compreender suas possibilidades para além das eleições. A tarefa de enfrentar o que significa Bolsonaro não pode ser adiada para o segundo turno, não pode ser relegada a um partido ou outro dentro de uma estratégia de voto útil (senão seríamos nós mulheres as verdadeiras ?úteis? no processo). A tarefa de se contrapor a essa plataforma conservadora, fascista, racista, misógina e funesta em todos as suas manifestações se impõe agora, e com projeção para o futuro, com uma ampla mobilização de mulheres e homens. A simples derrota eleitoral não implica no acantonamento da rede que o apoia e propaga suas ideias. É necessário que a rejeição a ele e a seu programa se concretize para além das urnas e que a sociedade seja capaz de se posicionar contrariamente a esses discursos, não somente os considerando ruins, mas inaceitáveis. É importante também que o recado seja dado ao capital, que um possível flerte com o candidato mais bem posicionado nas pesquisas, diante da falência das suas alternativas eleitorais, não transcorrerá em uma conjuntura sem enfrentamentos. Assumi-lo como personagem viável, significa assumir uma oposição já em organização.

O movimento de mulheres tem potencialidade para isso e para levantar outros setores. Atos de ?Mulheres contra Bolsonaro? estão sendo convocados de forma unitária em diversas cidades do país para o dia 29 de setembro. Indicando que a proposta não está limitada ao cenário virtual e que a mobilização tem real intenção de atuação na conjuntura. Em poucas horas, dezenas de milhares de mulheres já confirmaram presença em manifestações em mais de 10 cidades, em um crescimento que acompanha o do grupo. No esteio desse movimento outros grupos com o mesmo perfil heterogêneo estão sendo criados (Lgbts contra Bolsonaro, Todos contra Bolsonaro, Educadores contra Bolsonaro?) e atos para se somar à convocatória feminina estão sendo divulgados. O mesmo desejo de extrapolar as redes sociais e atuar na realidade concreta aparece aqui.

Podemos ser milhões, temos força para ser milhões e temos que garantir que sejamos.

*Renata Vereza integra a Comissão Nacional de Mulheres da Resistência



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/brasil/1647-mulheres-organizam-resistencia-ao-conservadorismo.html

Desde o último domingo (26), na cidade de Chemnitz, quando dois refugiados sírios e iraquianos foram acusados de assassinar um homem no centro do município, se iniciou uma onda de protestos anti-imigração organizada pela frente ?Pró-Chemnitz?, composta por grupos de extrema direita como o Pegida (Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente) e o neonazista NPD (Partido Nacional Democrático).

O estopim para as manifestações foi quando o líder do Pegida, Lutz Bachmann, publicou na internet documentos vazados da polícia que mostravam que um dos refugiados suspeitos tinha uma ordem de prisão não cumprida. O resultado foi que na segunda-feira (27), um dia depois do assassinato, 6 mil pessoas participaram da manifestação convocada pela ?Pró-Chemnitz?, em contraste com as 1.500 da frente antifascista ?Chemnitz sem Nazismo?.

A região de Chemnitz, junto com Dresden e Leipzig, compõe o estado da Saxônia, na parte leste da Alemanha, que hoje é o principal bastião da extrema direita do país. Foi justamente em Dresden, no ano de 2014, que surgiu o movimento Pegida, responsável por organizar na cidade os primeiros protestos de massas na Alemanha contra a entrada de refugiados.

O estado da Saxônia, também, foi o que mais votou na AfD nas eleições federais de 2017. Lá, a AfD fez 27%, único estado em que o partido ficou em primeiro lugar. Nacionalmente o partido fez 13.5%, equivalente à 94 cadeiras parlamentares de um total de 709, estreando sua presença no parlamento como maior partido de oposição. De forma geral, os estados onde a AfD mais cresce são na antiga parte oriental do país, que ainda está longe de ter um nível de vida como no oeste e onde o desemprego e os baixos salários são um grave problema (onde estão os chamados ?deixados pra trás na globalização?)[1].

Portanto, a extrema-direita tem muita influência nesta região, que a possibilitou agilidade em organizar manifestações logo após a acusação do assassinato. Apesar de o Pegida suavizar o envolvimento de neonazistas nestes atos, diversos vídeos que circularam na internet mostravam diversas bandeiras do NPD e pessoas fazendo a saudação nazista. Contudo, o mais chocante foi a forte presença de grupos de assalto que assediavam e agrediam pessoas com ?feições estrangeiras?, e que contaram com a leniência da polícia para contê-los.

É evidente neste caso, como mostra o jornal The Intercept, a infiltração do Pegida em setores da polícia na Saxônia. Além da tolerância para com a violência dos manifestantes nos últimos dias, há duas semanas um policial que é membro do Pegida expulsou um jornalista da ZDF de uma manifestação em Chemnitz. Inclusive, especula-se que Bachmann conseguiu os documentos vazados por meio de um infiltrado da organização na polícia.

Contra-atos

Nessa situação de ataque, grupos de esquerda e antifascistas promoveram contra-atos de bloqueio às manifestações da extrema direita, gerando uma série de confrontos entre si e com a polícia. Também em outras cidades da Alemanha ocorreram protestos, como foi o ato de 10 mil em Berlim na sexta-feira (31).

O ápice, contudo, se deu no sábado (1), quando a própria AfD organizou com o Pegida um ato em Chemnitz. Devido às imagens de neonazistas nas manifestações durante a semana, os organizadores pediram para as pessoas usarem apenas bandeiras oficiais da Alemanha, como forma de ?suavizar? as repercussões negativas. Com isso, a extrema direita acabou juntando cerca de 8 mil pessoas na cidade, em contraste com os 3 mil manifestantes contrários.

Ao final dos protestos, ocorreram combates entre a extrema direita e os grupos antifascistas, deixando 18 pessoas feridas. Ainda, o parlamentar social democrata Sören Bartol afirmou no twitter que seu carro foi alvo de uma emboscada feita por neonazistas no sábado. A polícia também afirmou que um homem afegão de 20 anos foi agredido por cerca de 4 ?encapuzados? durante as manifestações. O serviço de inteligência alemão afirmou que irá começar a monitorar a ?Juventude da AfD?, que vem se radicalizando cada vez mais, ganhando espaço no partido e é suspeita de organizar os atos de violência no sábado.

Em resposta, nesta segunda-feira (4), 65 mil pessoas participaram em Chemnitz do festival de música chamado ?Nós Somos Mais? (Wir Sind Mehr), ironizando a palavra de ordem da extrema direita ?Nós Somos o Povo? (Wir Sind Das Volk). O festival foi organizado por artistas e diversos partidos políticos diferentes, contando com a participação de bandas famosas como Die Toten Hosen, Marteria e Kraftclub.

Isso mostra que o crescimento da nova extrema-direita, a AfD no caso alemão, vem acompanhada também de um crescimento de células neonazistas tradicionais, baseadas no racismo escancarado e prática de atos de violência contra imigrantes, refugiados e militantes de esquerda. É necessário que na Alemanha, bem como em todo país que esse fenômeno se desenvolve, faz-se necessário que se constitua com a máxima urgência frentes únicas de combate ao inimigo comum. Quiçá um encontro das forças anti-fascistas na Europa já se faça necessário.

Artigo de Victor Amal, publicado originalmente no Esquerda Online

NOTAS
[1] ?Alemães vão às urnas e Merkel tenta reeleição?: https://esquerdaonline.com.br/2017/09/21/alemaes-vao-as-urnas-e-merkel-tenta-reeleicao/



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/europa/1645-alemanha-acirra-se-o-enfrentamento-entre-forcas-neofascistas-e-anti-fascistas.html

Lei anti LGBT cai na Índia - 19Set2018 05:53:30

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O Supremo Tribunal da Índia revogou ontem (6 de setembro de 2018), unanimemente, a lei imposta durante o domínio britânico, conhecida por "secção 377", que proibia as relações homossexuais.

Não foi evento inédito para o país que em 2009, e por 4 anos, havia revogado a lei 377 com fundamento de que a proibição do sexo homossexual violava os direitos fundamentais.

Essa decisão, que só se aplicava à região de Deli, foi anulada pelo Supremo Tribunal em 2013, após uma petição lançada por uma coligação de grupos cristãos, hindus e muçulmanos.

Dentro desse hiato à criminalização das relações homossexuais, crimes contra a população LBTQI+ continuaram a ser reportadas, dentro da Lei instituída na altura, no entanto o cenário piorou drasticamente após 2013, época em que as penas para um acusado de envolvência em práticas homossexuais, eram de 10 anos.

Após vários anos de luta nas ruas e nos tribunais, a decisão de descriminalizar as relações homossexuais na India foi sem dúvida uma grandiosa vitória, mas temos um longo caminho pela frente até a lei formal criar uma real mudança na mentalidade conservadora que ainda perdura no país.

Na opinião popular, cerca de 50% ainda acha correcto atuar criminalmente sobre um cidadão que se identifique como homossexual e essa percentagem é ultrapassada quando a questão é referente a cidadãos transexuais. Um numero preocupante, tendo em conta que a Índia é um país com mais de 1,2 bilhão de habitantes, agregando cerca de 18% da população LGBTI do mundo.

O caminho para todos/as serem livres e terem os mesmos direitos foi aprofundado no dia de hoje com a abolição da Secção 377 e o efeito positivo que essa decisão teve no país e no mundo deverá ter uma continuidade nas ruas no sentido de criar espaço e dar visibilidade à comunidade LGBT.

Artigo de Clara e Cláudia



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/mundo/1644-lei-anti-lgbt-cai-na-india.html

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Editorial da Resistência publicado no Esquerda Online

Na tarde desta quinta-feira (06/09), o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) foi esfaqueado quando participava de atividade de campanha em Juiz de Fora (MG). Repudiamos o atentado e exigimos pronta e transparente investigação do ocorrido.

Posicionamo-nos energicamente contra esse ato de violência política. Há tempos alertamos sobre a perigosa escalada em nosso país. A execução política de Marielle, os tiros contra a caravana de Lula, os assassinatos de lideranças indígenas e camponesas formam uma lista grave e alarmante de acontecimentos violentos.

A luta política não deve ser resolvida por meio da agressão e eliminação física de oponentes. Atentados individuais desse tipo se voltam invariavelmente contra as liberdades democráticas dos trabalhadores e oprimidos e fortalecem os setores mais reacionários e autoritários.

Bolsonaro defende um projeto fascista para o país. Recentemente, afirmou, no Acre, que é necessário ?metralhar a petralhada?. O candidato que alimenta o ódio e a violência contra a esquerda, mulheres, sem-terras, sem-tetos, povos indígenas, LGBTS e imigrantes foi vítima, hoje, da mesma violência que propaga todos os dias. Nem por isso justifica-se o atentado cometido em Juiz de Fora. Ao contrário, o esfaqueamento do qual foi alvo provavelmente o reforçará política e eleitoralmente.

Por fim, repudiamos também qualquer tipo de vinculação do atentado de hoje com organizações da esquerda brasileira, como o PSOL e o PT. Toda e qualquer tentativa de criminalizar a esquerda deve ser denunciada duramente, sem concessões. Nós, socialistas, estamos pela defesa intransigente das liberdades democráticas conquistadas pelo povo brasileiro.

 

 



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/brasil/1643-repudiamos-o-atentado-contra-jair-bolsonaro.html

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A hipocrisia do Governo PS é gritante. A sua obstinação em continuar com o furo petrolífero em Aljezur demonstra o seu total desprezo pela vontade das populações, pela sua qualidade de vida e põe em risco a nossa economia. Não se pode aumentar dramaticamente o imposto sobre combustíveis invocando argumentos de sustentabilidade ambiental e ao mesmo tempo pretender abrir a caixa de pandora da prospecção petrolífera na costa portuguesa.

Prestige, em 2002, na Galiza, Explosão da plataforma Deepwater Horizon, em 2010, no Golfo do México e Exxon Valdez, em 1989, na costa do Alasca. Já deviam ter aprendido a lição. Tal como com a energia nuclear, os riscos são demasiado grandes, a negligência humana, a incúria demasiado provável para arriscarmos assim o futuro dos ecossistemas marítimos e do nosso tecido económico. Os únicos que beneficiarão com a construção de plataformas petrolíferas serão os accionistas da ENI e da GALP.

Mesmo depois do Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé suspender a licença para o furo de prospecção em Aljezur, o governo apressou-se em anunciar, pelo Ministério do Mar e pela Direcção Geral dos Recursos Marinhos que iria recorrer da decisão. Que aconteceu afinal às tímidas promessas do Acordo de Paris? Trump, que rasgou o Acordo e insiste no regresso à exploração do carvão foi bastante criticado por cá e o governo português que decide agora apostar na exploração de uma fonte de energia que nos está a lavar para o abismo? Temos dois pesos e duas medidas em relação às políticas energéticas prejudiciais ao ambiente quando estas são fora de Portugal?

A política energética de Trump é criticável e censurável. Mas a teimosia do Governo português de avançar na prospecção de petróleo não é também?

E logo em Portugal, país a que não faltam os recursos naturais para ser soberano em termos energéticos e sê-lo de forma limpa, este que é um país de tanto sol, marés e ventos. O futuro do planeta está em risco. As energias não poluentes estão aí nos céus e nas ondas e não em furos nas profundezas do mar donde só podem vir marés negras, o aumento de riscos sísmicos e o aumento irreversível da temperatura global que tornará a vida neste planeta insustentável.

O Movimento Alternativa Socialista (MAS) defende outro futuro. E esse futuro constrói-se com a revogação imediata de todas as concessões de prospecção de furos petrolíferos sem direito a qualquer indemnização. Esse futuro passa pela acessibilidade e melhoria da oferta de transportes públicos e não pela degradação a que temos assistido. Esse futuro passa pelo envolvimento das populações no desenvolvimento de um plano de energia limpa garantido novos empregos e qualidade de vida. Esse futuro passa pela presença de todos/as nós na Marcha Mundial do Clima que se realizará em Lisboa (Cais do Sodré), Porto (Praça da Liberdade) e Faro (Lago da Sé) este Sábado (8 de setembro) às 17 horas. Este futuro passa sobretudo pela transformação da sociedade onde vivemos, deixando esta de ser determinada pela maximização do lucro e passe a ser regida segundo as nossas necessidades e as do planeta.

Artigo de David Santos

 

 



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/nacional/nacional/1641-marcha-mundial-do-clima-todosas-na-rua-este-sabado-contra-o-furo.html

Artigo de Henrique Canary, de São Paulo, publicado originalmente no Esquerda Online. 

Ao se completarem 80 anos da fundação da IV Internacional, algumas reflexões são necessárias.
Em primeiro lugar, estavam equivocados aqueles que diziam que a criação da IV Internacional, em condições extremamente adversas, foi errada devido à força do stalinismo. É verdade que a IV Internacional desde muito cedo enfrentou um enorme aparato contrarrevolucionário mundial encarnado no stalinismo e seus partidos nacionais, e permaneceu marginal ao longo de toda a sua história. Mas isso ainda não significa que a derrota da IV Internacional estava determinada de antemão.

Ninguém sabia, naquele momento, os resultados da Segunda Guerra Mundial. O que se sabia com certeza (pelo menos Trotski e seus seguidores sabiam disso e alertaram diversas vezes) é que uma guerra entre a Alemanha nazista e a URSS era inevitável. A IV Internacional foi fundada com o objetivo de se apresentar como uma alternativa revolucionária diante da inevitável traição do stalinismo. E essa traição ocorreu. Em agosto de 1939 foi assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, também conhecido como Pacto Hitler-Stalin. Esse pacto estabelecia não apenas a paz entre a Alemanha e URSS (o que poderia ser plenamente justificável em termos diplomáticos ? o próprio Trotski dizia isso), mas também uma colaboração econômica entre os dois países, com a URSS fornecendo petróleo, trigo e outros insumos para a Alemanha. Essa colaboração econômica permitiu a Hitler acelerar a preparação para a guerra e deixou despreparado o Exército Vermelho e a própria população da URSS, que passaram a acreditar em uma paz duradoura com a Alemanha. Além disso, o Pacto Molotov Ribbentrop estabelecia a divisão da Polônia entre a Alemanha e a URSS, bem como a partilha do Báltico e de outras regiões da Europa Oriental. Ou seja, longe de ser uma tentativa de ?ganhar tempo?, como dizem hoje os historiadores stalinistas, o pacto tinha ambições bastante estratégicas e de longo prazo. Isso sem contar a repressão stalinista dentro do próprio Exército Vermelho entre 1937 e 1939, o que o deixou extremamente debilitado em termos de comando tático militar, uma vez que a maioria dos fuzilados por suposta traição era de comandantes experientes, que haviam passado pelo fogo da Guerra Civil.

Por que o stalinismo foi tão poderoso?
Por que uma traição tão grande do stalinismo não teve efeito sobre o movimento de massas mundial? Trata-se de uma questão difícil. Aqui parecem ter agido vários fatores: a força do aparato stalinista, a lealdade burocrática das direções nos partidos comunistas nacionais e a velocidade e confusão dos eventos, já que apenas dois anos depois da assinatura do pacto a Alemanha invadiu a URSS, anulando de fato os acordos anteriores.

Além disso, o heroísmo do povo soviético esteve muito além do que a imaginação humana jamais poderia vislumbrar. Foram 27 milhões de mortos, cinco mil cidades e vilarejos transformados em cinzas. Ao se encontrar à frente do Estado, Stalin apareceu para o mundo como o arquiteto da vitória, o que é absolutamente falso em termos históricos. A vitória se deu apesar de Stalin, e não graças ele. Mas sãos os vitoriosos que contam a história das batalhas e por isso o mundo encarou o stalinismo como o responsável pela derrota do nazismo. Isso conferiu uma enorme autoridade aos partidos comunistas stalinizados do mundo inteiro. Um outro fator que parece ter influenciado foi o rápido início das hostilidades entre a URSS e o bloco capitalista ocidental logo após a Segunda Guerra, o que tensionou as forças simpáticas ao socialismo para se posicionarem em defesa do stalinismo.

Tudo isso fez com que a IV Internacional não se tornasse uma alternativa revolucionária. Porque simplesmente a maioria do movimento de massas não estava buscando nenhuma alternativa. Além disso, o assassinato de Trotski pelas mãos de um agente stalinista privou a IV Internacional de sua direção política, e por isso muitos erros foram cometidos pela jovem e inexperiente direção que assumiu o leme da IV Internacional após a guerra.

IV Internacional: muitas fragilidades e uma grande força
A marginalidade política, ao não ser superada, acabou impulsionando um ciclo vicioso: quanto mais marginal se tornava, mais sectária e autofágica ficava a IV Internacional. As dezenas de rupturas acabaram transformando o movimento trotskista em uma diáspora difícil até mesmo de ser mapeada. Cada um dos novos ?centros internacionais? surgidos após mais uma ruptura se colocava como tarefa primordial? a destruição do centro concorrente, que quase sempre era qualificado como ?inimigo?, ?traidor? etc.

Mas por que então dizemos que a fundação da IV Internacional estava correta, se política e organizativamente ela foi derrotada? Porque uma organização não é somente sua estrutura orgânica e sua política. Isso é fundamental, mas não é tudo. Uma organização é, em primeiro lugar, seu programa e sua teoria. É daí que pode vir sua força política e sua solidez organizativa, e não o contrário. Ao fundar a IV Internacional, ainda que sob condições extremamente difíceis, ainda que sob uma enorme pressão política por parte do stalinismo, Trotski estava fazendo uma aposta no futuro. E essa aposta era, em primeiro lugar, teórica e programática.

Isaac Deutscher, o grande biógrafo de Trotski (e também crítico da fundação da IV Internacional), cunhou a expressão ?vitória na derrota? para se referir ao legado de Trotski. O que isso significa? Que o próprio Trotski e seu projeto político-organizativo (a IV Internacional) foram derrotados, mas sua ideias não apenas permaneceram vivas, como se demonstraram as únicas capazes de explicar a grande contradição, o grande enigma do século 20, que devorou tantos revolucionários, transformando-os ora em oportunistas empedernidos, ora em burocratas envergonhados, ora em sectários alucinados: a vitória e a degeneração da Revolução Russa, a força e a inviabilidade histórica do stalinismo.

Trotski deu uma explicação teórica e uma saída programática para esses dois pares contraditórios do século passado: explicou a vitória de uma revolução socialista em um país atrasado por meio de sua teoria da revolução permanente e depois explicou porque essa revolução degenerou, o que era a burocracia e o mais importante: qual a alternativa ao stalinismo e qual o prognóstico histórico.

Cinquenta anos antes, um prognóstico impressionante
Em 1936, portanto 50 anos anos antes da perestroika, Trotski disse que: ou a burocracia soviética era derrubada em uma nova revolução política que devolvesse o poder aos sovietes e restabelecesse a democracia do Estado e do partido na URSS ou o capitalismo seria restaurado. E agregou: o capitalismo poderia ser restaurado tanto pela via da invasão estrangeira, quanto pelas mãos da própria burocracia, ansiosa por deixar de ser gerente e tornar-se proprietária. E foi exatamente isso que aconteceu: a URSS derrotou a invasão estrangeira, mas acabou perecendo sob os golpes da própria burocracia dirigente, que inventou a perestroika para tomar de assalto a propriedade estatal e tornar-se burguesia.

O fato desse prognostico de Trotski ter se cumprido de maneira brilhante não transformou os trotskistas em uma alternativa política real no momento em que a restauração estava ocorrendo, nem depois dela. Para piorar, os próprios trotskistas, em geral, entenderam muito confusamente o que estava acontecendo. Confundiram uma contrarrevolução democrática (assim eu chamo a restauração capitalista, pois foi uma contrarrevolução social feita por métodos ?democráticos?) com a revolução política preconizada por Trotski. É incrível: viram (vimos) uma revolução onde havia uma contrarrevolução. Resultado: não perceberam (não percebemos) o tamanho da derrota ocorrida entre 1989 e 1991 na Europa Oriental. Para usar uma imagem do próprio Trotski: imaginem uma pessoa no escuro que sabe que tem diante de si uma escada, mas não sabe se a escada sobe (revolução) ou desce (contrarrevolução). Essa pessoa quer muito subir e por isso decide que tem diante de si uma escada que sobe, então ela levanta o pé e desloca o corpo para frente para subir o primeiro degrau, mas ocorre que escada descia? Esse foi o tamanho do tombo que nós, trotskistas, caímos.

É fácil ser profeta do passado?
Hoje é fácil ver o que foi e como foi. Mas não era tão fácil assim na ápoca. Os eventos se desenvolviam a uma velocidade alucinante e os sinais eram muito mais contraditórios do que parecem hoje, à distância. De qualquer forma, erramos. No entanto, supondo que tivéssemos acertado, tinha com ser diferente? Afinal de contas, mesmo com uma compreensão correta dos fatos, isso não quer dizer que o trotskismo pudesse sair vitorioso do conturbado período dos anos 1990. Bem, isso jamais saberemos. Mas como mínimo, podemos dizer que os partidos trotskistas poderiam ter evitado, talvez, algumas derrotas desnecessárias, preservado algumas posições, evitado algumas rupturas infantis, provocadas por uma compreensão equivocada da realidade, vista quase sempre como uma maré montante rumo à vitória final.

Em qualquer caso, uma teoria ou um teórico não podem ser culpados pelos erros de seus seguidores. Como dissemos mais acima, Trotski nos deu a teoria da revolução permanente e uma explicação científica para a degeneração da URSS e para a força do stalinismo. Esse é o grande legado da IV Internacional. Mas não é o único: os militantes da IV Internacional foram, em inúmeras ocasiões, exemplo não apenas de firmeza moral e estratégica, mas também de faro e iniciativa política. Estados Unidos, França, Inglaterra, Argentina, Brasil, Sri Lanka, Bolívia, Peru ? todos esses países viram nascer importantes organizações trotskistas que lutaram com dignidade e inteligência para romper a marginalidade que as derrotas da primeira metade do século 20 haviam imposto. Alguns partidos foram mais bem sucedidos. Outros nem tanto. Todos eles têm uma história para contar e lições para serem absorvidas por todos nós.

O presente e o futuro
Mas e hoje? O que é a IV Internacional hoje? Tem sentido aplicar esforços na sua reconstrução? O legado teórico e programático deixado por Trotski é o suficiente para a continuidade do marxismo em nosso século? Este é um tema sobre o qual aqueles que reivindicam a teoria da revolução permanente já se debatem há algum tempo e, felizmente, devem seguir se debatendo, exatamente porque esta é uma das principais questões do novo século: como continuar o que começaram nossos grandes predecessores? Como ser dignos de uma herança tão rica? Para isso, também é importante responder: Qual parte exatamente desta herança reivindicamos? E a qual parte renunciamos? E qual é a nossa própria contribuição a esta herança comum? O século 21 se ergue diante de nós e nos indaga, como a Esfinge a Édipo: decifra-me ou te devoro.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/mundo/1640-aos-80-anos-da-iv-internacional-algumas-reflexoes.html

 

David North, WSWS, Comité Internacional da QI.

Relatório apresentado inicialmente numa reunião em 2008 no Michigan, em vésperas da eleição de Obama. Publicado originalmente no site World Socialist Web Site.

Tradução e adaptação de José Oliveira, Lisboa.

 

A 3/Set./1938 a Quarta Internacional (QI) foi fundada num congresso em Paris, realizado em apenas um dia, devido às circunstâncias clandestinas em que ocorria, no contexto da permanente perseguição ao movimento trotskista levada a cabo pelo estado burguês da França, pelos assassinos armados e sempre impunes dos grupos fascistas, e sobretudo pela polícia política soviética, encarregada por Estaline de eliminar Trotsky e os seus colaboradores.

O relator iniciou os trabalhos com a denúncia de mais um assassínio, o de Rudolf Klement, sec. geral da QI. Foi a 4ª figura mais importante do movimento a ser eliminada nos dois anos anteriores. Os outros foram Ewin Wolf em 1937 em Espanha, Ignace Reis em 1937 na Suíça e Leon Sedov, filho de Trotsky em 1938 em Paris. O que o relator não sabia é que Mark Zborovski, também agente da GPU (polícia política russa) e que teve papel central em todas essas execuções, esteve presente no congresso em representação da Rússia.

Estes assassínios, juntamente com os julgamentos-fantoche realizados em Moscovo, faziam parte da campanha de Estaline para destruir Trotsky, o trotskismo (e toda a oposição interna, real ou imaginária).

Historiadores como Dmitri Volkogonov, embora hostil a Trotsky, reconhecem o ódio de Estaline para com ele:

?Estaline continuou a odiar Trotsky, apesar de já não estar presente. Tinha um carácter muito diferente. O seu estatuto intelectual, a sua capacidade de organização e o seu talento de orador e escritor davam-lhe uma superioridade clara face aos burocratas e ao próprio Estaline. Este queixava-se junto do seu círculo mais próximo que um dos maiores erros da sua vida tinha sido o facto de deixar escapar Trotsky entre os dedos. Esse ódio ainda cresceu mais depois de ler ?A escola estalinista da falsificação?, ?Carta aberta aos membros do Partido Bolchevique?, ?O Thermidor estalinista? e a ?Revolução traída?. Tudo isso contribuiu para fortalecer a decisão de Estaline de remover Trotsky do caminho e em liquidar todos os seus potenciais inimigos internos?.

Trotsky compreendeu muito bem a escala dos perigos que ele e os seus seguidores tinham pela frente e declarou em 1938:

?Os carrascos, na sua estupidez e cinismo, pensam que podem meter-nos medo. Estão errados. Com os golpes, nós tornamo-nos mais fortes. As políticas bestiais de Estaline são actos de desespero. É possível liquidar alguns soldados do nosso exército, mas isso não nos mete medo?.

As origens da QI radicam na luta iniciada por Trotsky e pela oposição de esquerda em 1923, contra a crescente burocratização do estado soviético e do partido. Essa luta começou até antes do surgimento em cena de Estaline. Para Trotsky, a ascensão de Estaline não foi a causa da degeneração do estado e do partido, mas antes uma manifestação política do fortalecimento da reacção política no seio da URSS, em resultado das derrotas sofridas pela classe trabalhadora internacional, após a revolução de Outubro. Para Lenine e Trotsky, o destino do socialismo na Rússia dependia da vitória da revolução socialista internacional. A ideia de que o socialismo se poderia desenvolver apenas na Rússia, um país isolado e atrasado economicamente, era incompatível com as premissas mais básicas da teoria marxista.

Mas essa ideia era bem reveladora da orientação essencialmente nacionalista da perspectiva e do programa da burocracia reinante na Rússia. Essa burocracia liderada por Estaline entendia o socialismo como um regime marcado pela autarcia económica nacionalista que salvaguardasse os rendimentos e privilégios de que gozava, na base do seu controle dos meios de produção. As perseguições a Trotsky e a toda a oposição de esquerda caminhavam a par com a falsificação e o distanciamento das fundações marxistas internacionalistas do partido Bolchevique. O regime estalinista passou a subordinar os interesses do movimento revolucionário internacional às necessidades da sua burocracia.

O resultado da traição ao programa da revolução socialista internacional está na origem de uma série de derrotas do movimento em Inglaterra em 1926, na China em 1927 e mais desastrosamente na Alemanha em 1933. A catastrófica orientação de Estaline para o PC alemão levou à ascensão de Hitler em 1933, evento que está na origem da II Guerra e dos milhões de mortes e destruição que causou.

Com a entrada de Hitler, Trotsky e a oposição de esquerda alteraram a sua política, até aí orientada para a reforma do partido da União Soviética e a 3ª Internacional.  Agora, Trotsky apela à criação de uma QI e a uma revolução política na URSS, tendo definido a burocracia estalinista como uma agência do imperialismo no seio do movimento dos trabalhadores.

Os anos entre 1933 e 1938 foram dedicados à preparação teórica e política do congresso de fundação da QI. Trotsky avaliou este seu trabalho como o mais importante da sua vida, mais ainda que o seu papel na Revolução de Outubro.

Nesta altura, pelos anos 30, não havia mais ninguém com a capacidade necessária para construir novos quadros de revolucionários e preservar a continuidade do movimento. Logo, Trotsky reconheceu que, naquele momento era indispensável. Não se trata apenas do seu génio. Seria insuficiente. Há três elementos da sua personalidade política que é preciso sublinhar.

1 ? Trotsky era o último representante do marxismo clássico, ou seja, o expoente de uma escola de pensamento que já vinha de Marx e Engels e que inspirava as massas trabalhadoras revolucionárias. Trotsky protagoniza uma concepção da teoria revolucionária enraizada filosoficamente no materialismo histórico, dirigida para a cognição da realidade objectiva, orientada para a educação e mobilização política das massas trabalhadoras e estrategicamente preocupada com a luta revolucionária contra o capitalismo.

2 ? Trotsky compreendeu mais profundamente que qualquer outro pensador político do séc. XX as dimensões globais e as dinâmicas da revolução socialista, a interacção dialética dos processos socioeconómicos internacionais e as condições nacionais historicamente determinadas. Esta compreensão expressou-se na teoria da revolução permanente, formulada por Trotsky pela primeira vez em 1905, para enfrentar os problemas específicos gerados pelo confronto entre as tradicionais táticas burguesas e as lutas dos trabalhadores num país atrasado.

3 ? Trotsky assimilou as lições essenciais da luta de Lenine contra os mencheviques centristas. Tendo tido disputas com Lenine sobre princípios políticos nesse período formativo crucial, Trotsky compreendeu e apreciou a extraordinária capacidade de Lenine em opor-se a todas as formas de oportunismo no partido SD russo e mais tarde, aquando da guerra imperialista de 1914. As lições tiradas por Trotsky dessa sua experiência histórica constituem as bases para a fundação da QI.

A contribuição teórica de Trotsky tem sido frequentemente minimizada, no contexto da predominância de escolas de pensamento mais ou menos ligadas a correntes idealistas. É o próprio Trotsky que explica assim a abordagem do materialismo científico de Marx:

?O Homem, tendo estabelecido a ciência como o conhecimento dos factos objectivos da natureza, tem tentado estúpida e persistentemente excluir-se a si próprio da ciência, reservando para si privilégios especiais quer na forma de relações com o Transcendente (religiões) quer em preceitos morais (Idealismo). Marx despiu o homem desses privilégios definitivamente, encarando-o como uma ligação natural no processo evolutivo da natureza material. É completamente impossível procurar as causas das ocorrências da sociedade capitalista na consciência subjectiva ? intenções ou planos dos seus membros. Essas ocorrências objectivas foram formuladas antes de a ciência começar a pensar seriamente nelas. Hoje, a maioria dos homens nada sabe sobre as leis que governam a economia capitalista. A força do método marxista reside na sua abordagem dos fenómenos económicos, não do ponto de vista subjectivo, mas do ponto de vista objectivo do desenvolvimento da sociedade como um todo, justamente da mesma maneira como um cientista aborda o estudo de uma colmeia. Para a ciência económica, o ponto decisivo é como as pessoas actuam e não o que elas pensam sobre as suas acções. O método marxista é materialista porque procede da existência para a consciência, não o oposto. O seu método é dialético porque olha tanto para a natureza como para a sociedade na sua evolução e concebe-a como resultado constante das forças que se conflituam?.

Assim, a aplicação do método marxista requer que a política revolucionária se baseie primeiro e antes de tudo numa análise das condições socioeconómicas objectivas. O partido revolucionário tem de basear-se não nos humores e ilusões das massas, mas sim na realidade das contradições socioeconómicas do capitalismo. O partido revolucionário só pode superar essas ilusões se combater no seio da classe trabalhadora para corrigir a compreensão da crise capitalista e das suas implicações políticas.

Trotsky exprimiu assim os objectivos do programa revolucionário:

?O atraso de consciência da classe trabalhadora americana é muito grande. Mas o programa deve reflectir a sociedade como ela é e não esse atraso. Trata-se de um instrumento para vencer e superar  o referido atraso. Por isso, deve expressar a total agudeza das crises da sociedade capitalista. Não podemos modificar as condições objectivas que não dependem de nós, mas devemos expressar a situação tal como ela é. É essa a tarefa do programa?.

Em 1939, Trotsky também escreveu:

?Reformas parciais e remendos nada resolvem. O desenvolvimento histórico chegou a um ponto em que só a directa intervenção das massas pode afastar as obstruções reacionárias e estabelecer um novo regime. A abolição da propriedade privada dos meios de produção é o primeiro pré-requisito para uma economia planificada, isto é, para a introdução do racionalismo na esfera das relações humanas, primeiro à escala nacional e depois à escala global. A Humanidade libertada alcançará o seu potencial?.



Fonte: http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/mundo/1639-ainda-os-80-anos-da-iv-internacional.html