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As pessoas que se estão sempre a queixar da tirania do politicamente correto e que "já não se pode dizer nada que fica logo tudo ofendido" andam pelas redes sociais a dizer que o Mamadou Ba devia levar porrada por ter dito "a bófia da polícia" (ou no mínimo, a insinuar que se isso acontecesse era justificado).

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/a-tirania-do-politicamente-correto.html

E de pessoas relativamente conservadoras e ligadas ao mundo dos negócios:

Já que eu punha no curriculum "Naturalidade: Moçambique", era melhor juntar uma fotografia.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/sugestao-que-me-deram-quando-andava.html

Assim o escreve o Rui Albuquerque, no Blasfémias ("Por que é que não existiu em Portugal, até agora, um partido de extrema-direita forte? Porque nunca tinha existido um partido forte de extrema-esquerda. A extrema-direita é, hoje, na Europa e no Mundo, somente uma reacção.").

Será? Para verificar se isso poderia fazer algum sentido, foi pegar nas eleições europeias de 2014 (que, para este exercício, têm a vantagem de terem sido feitas todas na mesma altura e em todos os países da UE - e sobretudo, de os links para os resultados estarem todos os juntos) e ver se a extrema-direita e a extrema-esquerda têm os melhores resultados nos mesmos países (que é o que seria de esperar se uma for a reação à outra).

Claro que para começar é preciso definir quem é de extrema-esquerda e quem é de extrema-direita. Os critérios que segui:

- Como claramente o Rui Albuquerque não está incluído o PCP na sua definição de extrema-esquerda (eu também não incluo, já agora), mas apenas o BE (e presumivelmente os extra-parlamentares), vou definir como "extrema-esquerda" os partidos que integram o Grupo da Esquerda Unitário Europeia/Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu, excluindo os partidos comunistas mais tradicionais (o que pode ter alguma subjetividade - eu pus de fora o PCP, a Esquerda Plural espanhola, o KKE grego, o Partido Comunista da Boêmia-Morávia e o AKEL de Chipre) e os "animalistas" (que têm uma agenda muito própria). Já agora, é interessante o que esse critério (considerar o BE mas não o PCP na extrema-esquerda) pode significar para esta discussão (ver também este meu post de 2008).

Poderá se perguntar se não deveria incluir também os Verdes/Aliança Livre Europeia, que tendem bastante para a esquerda nas "questões fraturantes", mas acho que isso já era uma grande salada, e hoje em dia a maior parte já está muito longe de poderem ser chamados extrema-esquerda (mesmo que efetivamente partilhem muito ADN com os membros não-"comunistas ortodoxos" da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, na medida em que ambos são muito herdeiros de 1968, mas isso já foi há mais de meio século). Inversamente, poderia só ter incluído partidos ligados à Esquerda AntiCapitalista Europeia, mas aí eram tão poucos (Bloco de Esquerda, Syriza, Esquerda Unida espanhola e a Aliança Vermelha-Verde dinamarquesa) que eram impossível tirar qualquer conclusão.

- Na extrema-direita, inclui todos os partidos que integram o Grupo Europa das Nações e das Liberdades + os que integram o Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus que não sejam partidos tradicionais de governo (ou seja, tirando os Conservadores britânicos, a Lei e Justiça polaca e o Partido Democrata Cívico checo) + os da Europa da Liberdade e da Democracia Direta com a exceção do 5 Estrelas italiano e do Partido dos Cidadãos Livres da República Checa + os não-inscritos que são quase abertamente neonazis ou neofascistas (NPD alemão, Aurora Dourada grega, Jobbik húngaro; se quiséssemos mesmo um critério objetivo para os identificar poderia ser a filiação presente ou passada na Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus ou na Aliança para a Paz e a Liberdade). Depois houve um ou outro que exclui a olho por os achar (pela descrição da wikipedia...) muito longe da extrema-direita.

Aqui poderá haver quem não concorde com a minha decisão de não incluir a Lei e Justiça polaca nem o 5 Estrelas italiano na extrema-direita, ou até quem ache que se deveria incluir também o Fidesz húngaro, mas acho que o Fidesz e a Lei e Justiça estão muito mais integrados no mainstream que os partidos normalmente considerados na extrema-direita, e o 5 Estrelas só recentemente assumiu uma posição claramente de direita em temas como a imigração.

Outra complicação foram coligações envolvendo partidos de várias ideologias, em que me guiei pelo que me pareceu a corrente dominante.

Portanto, vamos aos resultados:


País comunista clássico extrema-direita extrema-esquerda
Alemanha
8,07 7,39
Áustria
19,72
Bélgica
4,26
Bulgária
10,66
Chipre 26,98

Croácia
0
Dinamarca
10,3 8,1
Eslováquia
0
Eslovénia
0
Espanha 10,03
10,06
Estónia
0
Finlândia
12,9 9,3
França
18,52 6,61
Grécia 6,11 12,85 26,57
Hungria
14,67
Irlanda

19,5
Itália
6,15 4,03
Letónia
14,3
Lituânia
14,25
Luxemburgo
0
Malta
0
Países Baixos
20,99 9,64
Polónia
7,15
Portugal

4,56
Reino Unido
26,6 1
República Checa 10,98

Roménia
0
Suécia
9,67 6,3

Só inclui os partidos que elegeram deputados (os que não elegeram são tantos e têm tão pouca representatividade que o trabalho de os incluir seria muito maior que a alteração que isso provocaria nos resultados).

Correlação entre as votação da extrema-direita e da extrema-esquerda : 0,1342, um valor praticamente insignificante, e mesmo esse inflacionado por em 9 países (sobretudo pequenos países que elegem poucos deputados, o que torna difícil a grupos "extremistas" serem eleitos) não haver representantes nem da extrema-direita nem da extrema-esquerda (como há muitos países em que ambos têm zero, isso amplifica a correlação); se excluirmos os 9 países em que nenhuma tem representação, a correlação desde para -0,22 (ou seja, a extrema-direita teria mais votos nos sítios onde a extrema-esquerda é mais fraca, e vice-versa). De qualquer maneira, isso parece refutar a tese que a extrema-direita é uma reação contra a extrema-esquerda.

Poderá-se contra-argumentar que a força da extrema-direita nalguns países de Leste é também uma forma de reação ao domínio que a extrema-esquerda terá tido durante décadas nesses países. É uma hipótese que não joga bem com a premissa inicial de excluir os comunistas tradicionais da extrema-esquerda, e de qualquer maneira dá-me a ideia que a força da extrema-direita na Europa de Leste é um fenómeno relativamente recente nalguns países (nos anos 90 do século passado, a bipolarização era entre ex-comunistas e grandes frentes "democráticas" anti-comunistas, sem grande espaço paea uma extrema-direita autónoma). Mas podemos refazer o cálculo excluindo a Europa de Leste - se tirarmos a Bulgária, Croácia, Eslovénia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa e Roménia a correlação baixa para 0,093, ainda mais reduzida.

Partidos e coligações que incluí na extrema-direita:

AfD (Alemanha)
NPD (Alemanha)
FN (França)
UKIP (Reino Unido)
Liga Norte (Itália)
Congresso da Nova Direita (Polónia)
PVV (Países Baixos)
CU-SGP (Países Baixos)
Vlams Belang (Bélgica)
Aurora Dourada (Grécia)
Gregos Independentes (Grécia)
Jobbik (Hungria)
Democratas Suecos (Suécia)
FPO (Áustria)
BBT/VMRO (Bulgária)
Partido Finlandês (Finlândia)
Partido do Povo Dinamarquês (Dinamarca)
Ordem e Justiça (Lituânia)
Aliança Nacional (Letónia)

Partidos e coligações que incluí na extrema-esquerda:

Die Link (Alemanha)
Frente de Esquerda (França)
Sinn Féin (Reino Unido e Irlanda)
Outra Europa (Itália)
Podemos (Espanha)
Os Povos Decidem (Espanha)
Partido Socialista (Países Baixos)
Syriza (Grécia)
Bloco de Esquerda (Portugal)
Esquerda (Suécia)
Aliança de Esquerda (Finlândia)
Movimento Popular Anti-EU (Dinamarca) - na prática, é quase a mesma coisa que a Aliança Vermelha-Verde



Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/a-extrema-direita-e-uma-reacao-extrema.html

Brexit, UE e CEE - 19Jan2019 20:45:00
Nos últimos dias tem se tornado viral um texto de José Meireles Graça dizendo "O Brexit é um pesadelo, mas é um pesadelo porque a União Europeia é um pesadelo. Não só a saída da CEE nunca levantaria o mesmo tipo de problemas como é improvável que dela algum país quisesse sair. E o que se vislumbra por trás do projecto de acordo derrotado hoje, um ilegível mastodonte com quase 600 páginas, é que é mais difícil sair da UE do que foi, por exemplo, a separação da Eslováquia da República Checa (...).

Mas se depurarmos bem essa conversa, acho que se resume a "é muito mais fácil sair de um emprego em que se ganha o salário mínimo do que de um emprego onde se ganha 10.000 euros por mês" - se a Grã-Bretanha saísse da CEE em 1985, ficaria mais ou menos como ficará em caso de sair sem um acordo agora: os produtos ingleses teriam que pagar taxas para entrar na UE/CEE e ser sujeitos a inspeções na fronteira para ver se estão de acordo, ou com os regulamentos de qualidade da UE, ou com os regulamentos de qualidade de cada um dos países da CEE; a diferença, que torna talvez mais dífiicl sair da UE do que seria sair da CEE é que toda a economia já está "viciada na droga" dos produtos puderem circular de uns países para os outros sem terem que estar sujeitos aos regulamentos de qualidade específicos de cada país e vai ser complicado o "desmame".

Atenção que acima falo da Grã-Bretanha, não do Reino Unido, mas o problema fundamental da saída do Reino Unido é similar - é verdade que, se em 1985 o Reino Unido tivesse saído da CEE, não haveria todos aqueles problemas de "como é que as pessoas vão passar de Armagh para Ballyalbany?" ou "voltaremos a ter combates UVF versus IRA versus exército britânico?"; mas esses problemas não se colocariam pelo simples facto que ainda havia (acho) barreiras na fronteira e o IRA, o exército britânicos e as milícias lealistas continuavam a combater-se; claro que sem acordo da Sexta-Feira Santa e sem processo de paz, não haveria o problema de conciliar o Brexit com os acordos feitos (que foram feitos na premissa que tanto o RU como a Irlanda pertenciam à UE, o que tornava mas fácil a ambas as partes aceitarem um compromisso, já que tornava menos relevante a questão "Londres ou Dublin?"), mas é o mesmo que disse acima - a situação na Irlanda do Norte dificilmente ficará pior do que ficaria em 1985 (p.ex., por mais confusões que haja, duvido que a guerra regresse), só que entretanto toda a gente se habituou a uma situação muito melhor.

Mas deixando de lado a questão da Irlanda do Norte, eu diria que o grande problema do Brexit é que a ideologia de base dos brexiters (uma espécie de liberalismo económico anti-globalismo mas pró-globalização) muito provavelmente não faz sentido (pelo menos na realidade do mundo atual) - um Brexit feito por nacionalistas económicos (fossem de direita à maneira de Trump ou de Le Pen ou de esquerda como possivelmente parte do Labour de Corbyn) talvez pudesse dar algo coerente (gostássemos desse projeto coerente ou não); o Brexit dos liberais económicos do European Research Group ou do Legatum é provavelmente um projeto condenado a não ir dar a lado nenhum.

Para perceber melhor, vamos imaginar só dois países; há várias hipóteses da se processar o comércio entre eles:

a) Fazem em conjunto os regulamentos de qualidade dos produtos, e os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

b) Um dos países compromete-se a ter regulamentos de qualidade decalcados dos do outro, e de novo
os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

c) Cada país têm os seus próprios regulamentos de qualidade, e os produtos de cada país têm que ter alguma espécie de inspeção na fronteira para ver se estão de acordo com os regulamentos do país de destino

d) Nenhum dos países tem regulamentos de qualidade (sendo supostamente a qualidade dos produtos assegurada pelo jogo da oferta e da procura),  e os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

A atual UE é basicamente a situação a); o tratado que havia sido negociado com o governo britânico era uma espéce de b) - o Reino Unido continuava a reger-se pelos regulamentos comunitários, e só deixava de participar nas reuniões da UE (ficando assim uma espécie de protetorado ou de estado-vassalo); c) é o que provavelmente o Brexit irá dar; d) é provavelmente o sonho da ala liberal dos Brexiters, mas isso (deixar de haver regulamentos a dizer que características determinados bens podem ou devem ter), goste-se ou não, não está  em cima da mesa em praticamente nenhum país do mundo desenvolvido.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/brexit-ue-e-cee.html

Para falar a verdade, não faço ideia.

Mas está na moda (pelo menos acerca dos EUA)  alegar factóides como:

- 70% dos presidiários foram criados por mães solteiras
- 70% dos delinquentes juvenis foram criados por mães solteiras
- 70% dos toxicodependentes foram criados por mães solteiras
- 71% dos alunos que não acabam o secundário foram criados por mães solteiras
- 85% das crianças com problemas de comportamento são de famílias sem uma figura paternal(?)
- 71% das adolescentes grávidas são de famílias sem um pai
- 26 dos 27 assassinos em massa mais mortíferos cresceram em famílias sem pai

etc., etc.

Mas isto será verdade?

Há um conjunto de fontes que costumam ser apresentadas como prova dessas afirmações (seguindo o link acima - ou então este, para qual o outro linka -, facilmente as encontrarão - mas atenção que as fontes não são muito fáceis de verificar, já que muitas vezes são apenas "Center for Disease Control" ou "National Principal's Association Report", sem indicar anos, títulos de documentos, etc.).

Mas a mais fácil de refutar é a dos "26 em 27 assassinos em massa" (foi isso que, aliás, me chamou a atenção, porque já tinha há tempos tido essa conversa e chegamos à conclusão que eram fake news) - vamos pegar numa lista deles, e facilmente vemos que pelo menos Charles Whitman, Omar Mateen, Jiverly Antares Wong, Eric Harris, Dylan Klebolde e Seung-Hui Cho parecem (lendo os artigos da wikipedia...) ter sido criados por ambos os pais; o James Oliver Huberty não é muito claro, mas a impressão que me dá é que quem se pôs a andar foi a mãe; os pais do George Hennard divorciaram-se tinha ele uns 26 anos; vi só uns quantos, mas é suficiente para refutar a teoria dos "26 em 27" (mas o que isso adianta? Já se viu que essa conversa recusa-se a morrer...).

A estatística dos 70% de delinquentes juvenis parece vir do Survey of Youth in Custody, 1987 [pdf], divulgado em setembro de 1988 como um "relatório especial" - pelo menos aqui é é dito que "70% of juveniles in state operated institutions have no father. [US Department of Justice, Special Report, Sept. 1988]" e (a respeito das drogas e álcool) que "70% of youths in state-operated institutions come from fatherless homes ? 9 times the average.  (U.S. Dept. of Justice, Sept. 1988)".

Isso (que 70% dos internados em casas de correção vêm de famílias sem pai) é quase verdade (são para aí uns 65% - os 70% referem-se a famílias sem um dos país, seja o pai ou a mãe), mas a versão de que "70% dos delinquentes juvenis são filhos de mães sozinhas" é claramente falsa: são cerca de 50% (nem todas os jovens que não vivem com o pai vivem necessariamente com a mãe):




O número dos toxicodependentes é claramente (pelos motivos que já expliquei) copiado daqui; a respeito dos 70% também para os presidiários não se encontram  nem sequer nas supostas fontes apresentadas (onde diz que " A 2002 Department of Justice survey of 7,000 inmates revealed that 39% of jail inmates lived in mother-only households." mas também que "85% of youths in prisons grew up in a fatherless home. [Fulton County Georgia jail populations, Texas Department of Corrections, 1992]" - afinal são 39%, 70% ou 85%?). Tudo indica que os "70% de presos criados por mães sozinhas" são os mesmos 70% internados em casas de correção, que, repetidos de link para link, com cada blogger que escreve sobre o assunto a usar palavras ligeiramente diferentes, passaram de "juveniles in state operated institutions" para "prison inmates" (ou seja, além da estatística ser manhosa, ainda anda a ser reciclada para várias coisas - e, já agora, não se arranja uma estatística mais recente que essa de 1987???)

Já agora, o estudo do Departamento da Justiça dos EUA de 2002 realmente diz que 39% dos presos vêm de famílias só com a mãe [pdf, ver página 9] (no total, 52% vêm de famílias sem pai); quanto ao "Fulton County Georgia jail populations, Texas Department of Corrections, 1992", não o consigo achar (praticamente tudo o que se encontra quando procuro isso no Google são artigos sobre a importância dos pais na educação dos filhos), mesmo restringindo a busca a sites oficiais do governo do Texas (já agora, porque é que o governo do Texas publicou um estudo sobre a população prisional de um concelho na Geórgia? E em 1992 o Departamento de Correções do Texas já não existia, porque em 1989 tinha sido fundido com outros para dar origem ao Departamento de Justiça Criminal do Texas). Procurando no site do Departamento de Correções da Geórgia, encontro um relatório de 2013 dizendo (pdf, página 17) que apenas 37% dos presos que foram presos na Geórgia em 2012 tiveram o pai (sozinho ou com a mãe) como guardião legal (ou seja, 63% seria de "famílias sem pai") - mas apenas 45% tinham uma mãe sozinha como guardiã (a diferença são avôs, famílias de acolhimento, etc.).

Quanto aos "71% dos alunos que não acabam o secundário foram criados por mães solteiras" a fonte é o "National Principals Association Report on the State of High Schools"; mas o problema é que googlando a única coisa que me aparece são sites, artigos e livros a repetir essas estatísticas - o único sinal de existência no mundo desse relatório parece ser o ser referido como a fonte dessa estatística; nem é muito claro o que é sequer o "National Principals Association", será a National Association of Secondary School Principals? Se é, no seu site não há qualquer referência a tal estudo (nem é muito claro em que ano foi feito esse estudo, embora tenha descoberto sites que digam que é de 2001).

Quanto ao "85% of children with behavioral disorders are from homes without a father" - a fonte é o Center for Disease Contro; vamos lá ver o que diz o CDC- Family Structure and Children?s Health in the United States:Findings From the National Health Interview Survey, 2001?2007 (pdf, página 154, tabela 63 - Frequencies of children aged 4?17 with definite or severe emotional or behavioral difficulties, by family structure and by selected characteristics: United States, 2001?2007):

Haverá 2 milhões e 851 mil crianças e jovens nos EUA com severos problemas emocionais ou comportamentais, dos quais 779 mil (27%) vivem em famílias tradicionais e 729 mil (26%) em famílias monoparentais (o resto é adoções, uniões de facto, famílias alargadas, etc.); por estes resultados, no máximo 73% dessas crianças e jovens viverão em famílias sem um pai (e provavelmente será muito menos - algumas das monoparentais terão o pai em vez da mãe, e das 47% de tipos variados - adoções, uniões de facto, etc - haverá algumas também com um pai, biológico ou adotivo). Agora, é verdade que o que se falava era de " behavioral disorders" e eu fui buscar uma estatística para "severe emotional or behavioral difficulties", mas foi o que consegui arranjar (eu nem me admirava que o tipo "agressivo/impulsivo" - " behavioral" - esteja realmente sobre-representando entre os filhos de pais separados em proporção face ao tipo nervoso - "emotional" - mas não há aqui dados sobre isso).

Quanto a "71% of pregnant adolescents do not have their father in the home", a fonte apresentada é 
"[U.S. Department of Health and Human Services press release, Friday, March 26, 1999]", que é de certeza isto.

Esse comunicado de imprensa não refere diretamente percentagens do tipo "x% das pessoas que têm um dado problema não têm um pai em casa", mas é possivel chegar a esses valores fazendo uns cálculos adicionais - lá é dito que "More than a quarter of American children?nearly 17 million?do not live with their father. Girls without a father in their life are two and a half times as likely to get pregnant" - se uma em cada quatro raparigas viver sem o pai, há 3 vezes mais raparigas em viver em famílias com pai; e as raparigas que vivem em famílias sem pai têm 2,5 vezes mais probabilidade de engravidarem - mas como há 3 vezes mais raparigas a viver em famílias com pai, para cada 25 raparigas sem pai que engravidam, haverá 30 com pai que engravidam

A - total de raparigas que vivem em famílias sem pai
Ai - total de raparigas que vivem em famílias sem pai e ficam grávidas na adolescência
B - total de raparigas que vivem em famílias com pai
Bi - total de raparigas que vivem em famílias com pai e ficam grávidas na adolescência

A/(A+B)=1/4 ? B = 3*A

Ai/A = 2,5* Bi/B

Ai/A = 2,5*Bi/(3*A) ? A1 = 2,5*Bi/3 ? Bi = 3*Ai/2,5

Ai/(Ai+Bi) = Ai/(Ai + 3*A1/2,5) = Ai/(5,5*Ai/2,5) =2,5/5,5 = 45,5%

Ou seja, cerca de 46% das mães adolescentes serão de famílias sem pai (um pouco mais, já que no comunicado diz "mais de um quarto"); de onde é que eles foram buscar os 71%? Tenho uma teoria - 71% era quase exatamente o que resultaria se o "two and a half times as likely to get pregnant" fosse combinado com uma igual quantidade de raparigas de famílias com e sem pai no conjunto da população (para cada rapariga com pai a ficar grávida haveria 2 e meia sem pai a ficarem grávidas , e 2,5 num total de 3,5 é 71%).

Poderá se argumentar que o rácio de um quarto (ou mesmo mais de um quarto) está desatualizado, e que agora 43% das crianças e jovens dos EUA crescem em famílias sem pai (pelo menos é o que também é dito nas tais estatísticas, e já são quase 3 da manhã e não vou conferir essa), o que alterará os resultados, mas:

a) Já é muito arrojado pegar na probabilidade (os tais mais 2 vezes e meia) apresentada no comunicado de 1999 e ir aplicá-la à distribuição demográfica atual (e ainda mais quando a fonte apresentada é apenas o comunicado de 1999, sem indicações de "extrapolado para tendências posteriores")

b) Mesmo que fossemos refazer os cálculos assumindo 43% de jovens vivendo em famílias sem pai, isso daria apenas 65% de mães adolescentes oriundas de famílias sem pai, não os tais 71%

Já agora, nesse comunicado também diz "Both girls and boys are twice as likely to drop out of high school, twice as likely to end up in jail and nearly four times as likely to need help for emotional or behavioral problems". Podemos aplicar exatamente o mesmo cálculo que fizemos acima para estimar as probabilidades para isto tudo, nomeadamente para o abandonar os estudos (o tal valor cuja fonte é um relatório mistério de uma associação talvez misteriosa):

Como os filhos de famílias sem pai têm o dobro da probabilidade de não acabarem o secundário, é só pegar nas contas que fizemos lá acima e substituir "Ai/A = 2,5* Bi/B" por "Ai/A = 2* Bi/B", e assumir que estamos a falar de jovens em geral em vez de raparigas (e que Ai e Bi significa abandonar o secundário) - e o resultado é.... 40% dos alunos que não acabam o secundário são (ou seriam, em 1999) de famílias sem pai (e não os tais fantasmagóricos 71%). [Por outro lado, isso também implicaria que só 40% dos que acabam na prisão fossem de famílias sem pai, o que é um pouco inferior - dos resultados do tal relatório de 2002 (que dizia que 52% dos presos vem de famílias sem pai).]

Quando ao "need help for emotional or behavioral problems" (em que a probabilidade é quatro vezes maior), isso daria que cerca de 57% das crianças e jovens a precisar de ajuda para problemas emocionais ou de comportamento seria de famílias sem pai.

Resumindo - quase nenhuma das estatísticas apresentadas parece corresponder à realidade, de acordo com as próprias fontes referidas (a dos 70% dos delinquentes juvenis estaria correta se fosse a percentagem de "não cresceram com ambos os pais" em vez de "cresceram apenas com a mãe"). Interrogo-me, aliás, se quem divulga essas pseudo-estatísticas vai conferir às fontes, ou se se limita a fazer "copiar-colar" ou "partilhar".

O paradoxal daqui é que mesmo com estatísticas verdadeiras haveria um caso forte para se considerar que é bom as crianças e jovens viverem com o pai (ou pelo menos terem-no como uma presença constante na sua vida) - para quê inventar números alucinados? E para quê essa obsessão com 70% ou 71%? Será algo de esotérico?

Uma nota final - estes números costumam ser apresentados no contexto das discussões sobre a custódia dos filhos de pais separados (a maior parte dos sites que me aparecia quando andava à procura de algum documento eram sites sobre os direitos dos pais divorciados); não se leia a minha crítica a esses números como uma oposição à atribuição de um maior papel aos pais na tutela dos filhos em caso de separação ou divórcio (aliás, se me guiar só pelas notícias dos jornais - ou seja, não estou a invocar nenhuma estatística oficial - dá-me a ideia o típico agressor, tanto físico como sexual, de crianças e jovens é o padrasto, o que poderá indiciar que muitas crianças e jovens até estarão mais seguros na casa do pai do que na da mãe; mas isto é apenas uma especulação da minha parte).

Vagamente sobre isto, ver também este meu post de 2013,Divórcio vs. Viuvez.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/10-das-pessoas-que-divulgam.html

Política, poder e dinheiro - 15Jan2019 16:39:00
Ainda a respeito disto, suspeito que muita coisa é melhor explicada se vista em termos de luta pela poder (ou pelo menos por status) do que por dinheiro em sentido estrito (já agora, ver também este post sobre o teletrabalho, que acaba por andar também à volta disso). Talvez durante grande parte da nossa história evolutiva as diferenças de poder ou status fossem mais relevantes das estritamente materiais - afinal, num clã de caçadores-recoletores provavelmente não há riqueza suficiente para ser possível sequer existir uma classe de ricos, mas já é possível existirem indivíduos muito mais influentes (ou por serem mais fortes, ou mais conhecedores, ou criarem melhores estratégias de caça, ou...) que outros (mas provavelmente já estou a divagar; daqui a pouco começo a fazer teorias envolvendo a dinâmica social de crustáceos marinhos...).

Alguns exemplos:

- Para níveis de rendimento similares, trabalhadores por conta de outrem tendem a ser mais de esquerda do que trabalhadores por conta própria; não haveria grande razão para isso se o único motivo de votar em políticas redistributivas fosse ter mais dinheiro, mas já fará se considerarmos que o verdadeiro problema é mais a submissão hierárquica do que o dinheiro

- Há muito mais polémica com altos ordenados de gestores do que de futebolistas ou celebridades do audiovisual; de novo, faz mais sentido se assumirmos um problema de poder do que propriamente de dinheiro (os gestores são poderosos, podem tomar decisões que - como consumidores dos seus produtos ou trabalhadores das suas empresas - podem afetar as nossas vidas, e por isso os seus altos vencimentos suscitam mais desconfiança)

- A usual oposição da classe patronal a medidas de expansão económica keynesiana, no mecanismo que Kalecki explicou há muitos anos (Political Aspects of Full Employment [pdf]): a economia crescer até pode ser maior para os seus lucros, mas muitos empresários gostam que haja muito desemprego porque isso lhes dá mais poder sobre os seus empregados

- O aparente entusiasmo dos conservadores norte-americanos (cuja ideologia supostamente é o "fusionismo" entre conservadorismo moral e liberalismo económico) por Donald Trump, com uma vida privada muito pouco cristã-evangélica e nem particularmente liberal na economia (protecionista, às vezes a favor de mais investimento público, muito menos anti-"estado social" que o típico Republicano...). Mas se considerarmos que o conservadorismo moral é apenas uma capa para defender a autoridade dos maridos sobre as mulheres e o liberalismo económico uma capa para defender a autoridade dos patrões sobre os empregados, tudo faz sentido: o perfil "machão" de Trump e a imagem de patrão autoritário que ele cultiva (nos seus reality shows - em que a imagem de marca dele era o "you are fired!" - ou na forma como enxovalha publicamente os seus assessores caídos em desgraça) representam ao objetivo final do programa conservador (mulheres e assalariados "no seu lugar"), mesmo que ele não se identifique muito com os meios preferidos dos conservadores ("valores familiares", "governo pequeno") para atingir esses objetivos (estes três artigos de Paul Krugman são interessantes a esse respeito).

- A atitude face à "caridade"; se a ideia for redistribuir rendimento, a caridade privada, à partida, seria tão boa como o estado social. Mas em termos de relações de poder social, é completamente diferente - se alguma coisa, pobres que estejam dependentes da caridade de um benfeitor se calhar estão ainda mais num estado de subordinação hierárquica do que pobres que tenham ajuda de ninguém

- A existência de greves: em termos puramente económicos, há uma certa irracionalidade num trabalhador fazer greve - perde um dia de ordenado e, caso a greve resulte, beneficiara de qualquer maneira, mesmo que não tivesse feito greve (nota - esta aparente irracionalidade é menos irracional se existirem fundos de greve); mas se há uma questão de poder pelo meio, a coisa muda de figura: durante a greve, em vez de o trabalhador ser o pau-mandado que faz o que lhe mandam, é o patrão ou o chefe que pode estar desesperado porque precisa do trabalho dele e não o tem ali ao pé, levando quase a uma inversão temporária (e se calhar mais psicológica do que real...) da relação de dependência.

Ora, se vermos a política como tendo a ver mais com relações de subordinação hierárquica do que apenas com economia no sentido mais estrito, faz sentido que muitas vezes as questões "sociais" tenham mais relevância que as "económicas"- pelo menos no ponto em que o debate político está atualmente, grande parte das políticas sobre "costumes" mexem quase diretamente com as relações de poder existentes na sociedade (ao ponto de serem chamadas pelos seus detratores de "engenharia social"); já as políticas económicas afetam não têm um efeito tão direto sobre as relações de poder (seria o caso se estivéssemos a discutir a autogestão ou o controlo operário - bem, nalguns países está-se a discutir a cogestão, e o RBI está a entrar na moda - mas o que se discute hoje em dia são sobretudo impostos e salários mínimos).



Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/politica-poder-e-dinheiro.html

No Twitter, Daniel Oliveira escreve que "[o] que define a esquerda e a direita é a economia, o papel do Estado, os direitos laborais e a relação com o privilégio e a riqueza".  Será?

Em tempos escrevi que há uma tendência (...) para os movimentos políticos serem classificados no eixo esquerda-direita com base no assunto em que estiverem mais à direita: p.ex., um liberal económico e progressista nos "costumes" é "de direita"; e um conservador nos costumes defensor da economia mista é também "de direita"; e um defensor da democracia popular de base, da autogestão e de comunidades etnicamente puras (...) seria provavelmente considerado de "extrema-direita".

Mas se fosse preciso escolher mesmo uma das dimensões como a mais importante, eu até diria que a cultura é mais relevante para distinguir a esquerda da direita do que a economia - veja-se que partidos democratas-cristãos (mesmo nas décadas a seguir à II Guerra Mundial, em que eram muito menos liberais na economia do que são agora), que são conservadores nos costumes e quase social-democratas na economia são normalmente classificados como "direita" (e que dizer de partidos como  a Lei e Justiça polaca, o Fidezs húngaro, os Gregos Independentes, ou o Partido do Povo Dinamarquês, que também estão muito longe de serem liberais na economia, mas são frequentemente rotulados de direita ou até de extrema-direita? E ninguém diz que o Tucker Carlson ou a Ann Coulter estão a virar à esquerda); e, inversamente, partidos como os Radicais franceses, liberais na economia (mesmo que por vezes o Partido Radical juntasse "socialista" ao seu nome) mas anticlericais eram frequentemente classificados na "esquerda". Ou seja, mesmo um gráfico como o que eu fiz no fim deste post (em que tanto o eixo "tradicionalista-cosmopolita" como o "liberalismo-intervencionismo" contam para a distinção "direita-esquerda") deveria se calhar ter uma ligeira rotação no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio, para dar ao eixo "tradicionalista-cosmopolita" um pequeno predomínio sobre o eixo "liberalismo-intervencionismo" para distinguir a direita da esquerda.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/e-economia-que-distingue-esquerda-da.html

Muita gente anda a dizer que a Constituição proíbe o fascismo - é verdade?

Resposta simples: não.

O que a Constituição proíbe são associações de ideologia fascista - não há nada na Constituição que proíba alguém de ser fascista a nível individual, nem de ir à televisão (mesmo que seja para defender o fascismo).

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/a-constituicao-proibe-o-fascismo.html



Textos que envelheceram mal - 07Jan2019 09:29:00
Comecei a ler "To Our Friends"[pdf], do "Comité Invisível" (os autores de "A Insurreição que vem"). Começa com:
The insurrections have come, finally. At such a pace and in so many countries, since 2008, that the whole structure of this world seems to be disintegrating, piece by piece. Ten years ago, predicting an uprising would have exposed you to the snickers of the seated ones; now it?s those who announce a return to order who make themselves look foolish. Nothing more solid, more self-assured, we were told, than the Tunisia of Ben Ali, the busy Turkey of Erdogan, social-democratic Sweden, Ba?athist Syria, Quebec on tranquilizers, or the Brazil of beaches, the Bolsa Familia, and peace-keeping police units. We?ve seen what followed. Stability is finished. In politics, too, they?ve learned to think twice before awarding a triple A.
Sim, a estabilidade terminou, mas a direção em que as coisas se desestabilizaram em quase todos esses países (Brasil, Turquia [onde Erdogan se re-estabilizou logo depois de ter sido desestabilizado], até mesmo a Suécia) é capaz de não ter sido a melhor.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/textos-que-envelheceram-mal.html

"Greve" da Uber - 05Jan2019 10:18:00
Motoristas da Uber têm ?boicote? marcado para este sábado (Sapo):
Se pedir um Uber amanhã é capaz de demorar mais a ter resposta. No Porto e em Lisboa, a intenção é protestar contra o modelo de tarifa proposto pela plataforma de transportes, ?parando? ou dando preferência à concorrência.
A página do Facebook que parece estar a organizar o protesto - https://www.facebook.com/DUROS-Do-PORTO-TVDE-354215942080851/

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/greve-da-uber.html

Nalguns sectores e países tem estado na moda o chamado "modelo nórdico" no combate à prostituição - criminalizar os clientes mas não as prostitutas (há dias no Público havia uma crónica sobre isso, em tom crítico). Mesmo recentemente o Congresso dos EUA aprovou normas que vão em parte nesse sentido e Israel provavelmente fará o mesmo.

Mas será que punir os clientes não acaba por prejudicar as prostitutas?

Vamos imaginar um modelo simples de oferta e procura:

A vermelho temos a oferta, a azul a procura, e inicialmente o preço será "P1" e a quantidade "Q1" (o preço está no eixo dos Yx e a quantidade no eixo dos Xs); até este momento não há grande diferença entre estarmos a falar de prostituição ou de ir ao cabeleireiro.

Agora vamos imaginar que começa a haver punições legais para os clientes das prostitutas; isso vai, em principio, reduzir a procura (para alguns poderá aumentar, em busca da emoção de estarem a fazer algo ilegal, mas duvido que esse efeito seja predominante).

A linha azul tracejada é a nova curva da procura, inferior à anterior: assim, o preço baixa de P1 para P2 e a quantidade também baixa de Q1 para Q2. Mas, se o preço dos seus serviços baixa, as prostitutas ficam sem dúvida prejudicadas - no esquema acima, o retângulo rosa corresponde ao prejuízo que as prostitutas têm pela baixa do preço (a área do retângulo corresponde à quantidade de serviços que vendem - Q2 - multiplicada pela redução do preço - a diferença entre P1 e P2). Se estivessemos a falar de outro serviço ou produto qualquer, tanto o retângulo rosa como o triângulo amarelo (este correspondendo ao prejuízo derivado de passarem a ter menos clientes) contariam como perdas de quem vende, mas como aqui reduzir a prostituição é mesmo o objetivo, vamos aceitar as premissas dos defensores do modelo nórdico e considerar que as prostitutas só são prejudicadas por passarem a receber menos por cliente, mas não por passarem a ter menos clientes.

Claro que o efeito total disto - sobretudo a questão do reduzir preço versus reduzir o número de clientes - depende do formato da oferta da prostituição; se as prostitutas tiveram muitas alternativas e puderem facilmente mudar de profissão se passarem a ganhar menos na prostituição, a oferta será largamente elástica (o que nos quadros acima corresponderá a uma linha perto do horizontal), pelo que uma redução da procura levará sobretudo a uma redução da prostituição, com uma pequena redução dos preços:

Numa situação destas, o prejuízo para as prostitutas é muito reduzido, quer o meçamos apenas pela redução dos preços que recebem (a área rosa), quer incluamos também o prejuízo por terem menos clientes (a área amarela). O que há é uma redução significativa da prostituição - ou seja, um sucesso quase total do "modelo nórdico" face aos objetivos proclamados: reduzir a prostituição sem prejudicar as prostitutas.

Mas esse cenário (em que as prostitutas podem facilmente mudar para outra profissão qualquer) fará sentido? Provavelmente não; aliás, são os próprios defensores do "modelo nórdico" que enfatizam que as prostitutas não o são por sua vontade verdadeiramente livre, mas sim porque frequentemente não têm alternativa, devido a uma combinação de pobreza, baixas qualificações, dependências e exclusões sociais diversas. Nesse caso, será mais realista assumir que a oferta da prostituição será largamente inelástica, e que não é por os preços que os clientes pagam subirem ou descerem muito que a prostituição vai aumentar ou diminuir muito. Nesse caso, os efeitos da criminalização dos clientes serão mais estes:

Ou seja, haver uma redução significativa dos preços, mas não grande redução do número de mulheres a se prostituir (condizente com o facto de não terem outra alternativa realista de vida) - o único resultado significativo será as prostitutas passarem a ganhar menos; ou seja, se as premissas dos defensores do "modelo nórdico" estiverem corretas (e eu suspeito que estão), então o resultado será exatamente o contrário do pretendido: grande prejuízo pessoal para as prostitutas, mas quase nenhuma redução da prostituição.

Mas podemos imaginar um cenário ainda mais radical; vamos supor três hipóteses (nenhuma das quais me parece especialmente irrealista):

a) prostituta mãe solteira/divorciada/abandonada que precisa de se prostituir diariamente até arranjar dinheiro para alimentar os filhos

b) prostituta toxicodependente que precisa de se prostituir diariamente até arranjar dinheiro para a dose

c) prostituta "de luxo" que fixou como objetivo de carreira ter X apartamentos para alugar numa zona turística e viver desses rendimentos  e que pretende prostituir-se até conseguir comprar esses apartamentos (ou outro plano de investimentos qualquer, mas suspeito que comprar apartamentos deve ser o investimento preferido - e mais seguro - das pessoas sem formação na área financeira)

Essa situações podem ser bastante diferentes nalguns aspetos, mas têm um ponto comum: todas estas três prostitutas estão numa situação em que têm que se prostituir até obterem uma dada quantidade de dinheiro; o corolário será uma curva da oferta invertida, em que quanto menor o preço que receberem por cliente, mas terão que trabalhar - no caso a) e b) terão que atender mais clientes por dia até obterem o dinheiro que necessitam (eu diria que esses dois casos são quase idênticos em termos económicos, embora possam ser diferentes a nível de eventuais juízos morais), no caso c), terá que se prostituir por mais anos até conseguir comprar os tais apartamentos.

Assim, se este efeito fosse geral, e a curva da oferta da prostituição tivesse mesmo uma inclinação descendente, o resultado seria este:

A redução da procura, além de reduzir os preços, iria ainda aumentar (em vez de diminuir!) a prostituição, devido ao tal efeito de terem que atender mais clientes para ganharem o dinheiro que precisam ou querem (neste modelo não estou certo que o prejuízo para as prostitutas seja exatamente a área que pintei a rosa, mas se não for anda lá perto) - ou seja, um fracasso total da política face aos objetivos pretendidos (diga-se que, apesar de tudo, não acredito muito neste cenário de uma curva da oferta invertida - mesmo que uma redução dos preços leve cada prostituta individual a ter que atender mais clientes, de certeza que também levará menos mulheres a prostituírem-se, o que provavelmente anulará o efeito anterior).

Uma objeção que poderá ser feita a este modelo é que estou a assumir uma prostituta que fica com o rendimento do seu trabalho - no caso de uma prostituta escrava, a baixa do preço do seu trabalho não a irá prejudicar a ela, mas sim a quem a mantêm aprisionada e a obriga a prostituir-se (ficando com o dinheiro e dando-lhe provavelmente apenas o necessário para não morrer de fome), e até diminuirá o incentivo a raptar mulheres para as obrigar a prostituir; mas é duvidoso que haja (no mundo real, e não no mundo das telenovelas brasileiras ou dos filmes de ação norte-americanos) mesmo uma quantidade significativa de mulheres sequestradas e obrigadas a prostituir-se (alguns artigos sobre o assunto em vários países); parte desse mito é capaz de derivar da ambiguidade da expressão "tráfico de pessoas" (veja-se que essas medidas são invariavelmente apresentadas como um meio de combater o "tráfico de pessoas") - como alguém escreveu, "tráfico de pessoas" é usado sem grande critério para dizer três coisas diferentes:

a) imigração ilegal
b) trabalho escravo
c) prostituição

O estereótipo da "vítima de tráfico" é uma mulher introduzida ilegalmente no país por uma rede de "tráfico" e obrigada a prostituir-se - ou seja, a tripla, combinando os três pontos; esta ambiguidade semântica contribui para criar a ideia de que grande parte das prostitutas são escravas: porque são prostitutas e frequentemente imigrantes ilegais, foram automaticamente "traficadas", de acordo com algumas definições de "tráfico"; e se foram "traficadas", então são escravas, já que outras definições de "tráfico" associam-no a trabalho escravo.

Diga-se que isto tem alguma semelhança com o principio da incidência económica do imposto, que diz que quem paga um imposto não é quem a lei diz que paga o imposto,  mas sim sobretudo que tiver um comportamento menos sensível a variações de preços, e que é indiferente a lei dizer que um dado imposto é pago pelo cliente ou pelo vendedor (ou pelo empregador ou pelo trabalhador) - não é totalmente igual (porque sanções criminais não são exatamente iguais a impostos) mas anda perto.

[Uma nota quase de última hora - recentemente foi divulgado um estudo concluindo que todas as formas de criminalização da prostituição, incluindo a criminalização apenas dos clientes, levam a maior violência contra as prostitutas - Associations between sex work laws and sex workers? health: A systematic review and meta-analysis of quantitative and qualitative studies (via The Guardian e Richard Stallman)]

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2019/01/o-modelo-nordico-da-prostituicao-nao.html


O Paul Krugman deveria ler mais - 23Dez2018 04:33:00
No seu artigo, The Case for a Mixed Economy, Paul Krugman escreve:
 I?ve had several interviews lately in which I was asked whether capitalism had reached a dead end, and needed to be replaced with something else. I?m never sure what the interviewers have in mind; neither, I suspect, do they. I don?t think they?re talking about central planning, which everyone considers discredited. And I haven?t seen even an implausible proposal for a decentralized system that doesn?t rely on price incentives and self-interest ? i.e., a market economy with private property, which most people would consider capitalism.
Coisas que o Krugman poderia ler:
O primeiro é a descrição de uma economia descentralizada, com incentivos de preços, interesse próprio e uma economia de mercado, mas sem propriedade privada dos meios de produção; o segundo até poderá ser visto como uma economia com isso tudo (incluindo a propriedade privada dos meios de produção, com a exceção da terra), mas mesmo assim demasiado diferente daquilo a que normalmente se pensa quando se fala em capitalismo; no terceiro, são apresentadas várias modalidades de organização social, mas o tema dominante é o de uma economia descentralizada sem propriedade privada nem dinheiro.

Poderá dizer-se que tanto o socialista autogestionário como o mutualismo como o anarco-comunismo são absurdos ou impossíveis de realizar, mas Krugman vai mais longe - ele diz que nunca viu mesmo uma proposta implausível para uma economia descentralizada não-capitalista (e parece-me claro que propostas - e até bem pormenorizadas - até existem, independentemente de serem plausíveis ou não).

Estas abaixo não sei se contarão - em rigor, talvez sejam melhor descritas como economias centralizadas mas sem uma autoridade centralizada - mas a título de bónus cá vão:


Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/12/o-paul-krugman-deveria-ler-mais.html

Poligrafando o Polígrafo - 22Dez2018 19:03:00
O "Polígrafo" parece ter um padrão - pegar num assunto que é ou está a ser falado, e fazer um artigo, não sobre esse assunto, mas sobre um assunto parecido, e depois dar a sua sentença de "falso" ou "verdadeiro" sobre isso (quando não é sobre isso que se está a falar, e portanto interessa pouco se isso é "falso" ou "verdadeiro").

Agora é com o Pai Natal - hoje decidiram que a prioridade seria desmentir a fake news que o Pai Natal seria uma invenção da Coca-Cola para uma campanha publicitária; mas acho que a história que circula há décadas (acho que a ouvi pela primeira vez em 95 ou 96) não é de que o Pai Natal é uma criação da Coca-Cola, é de que a cor vermelha do Pai Natal é uma criação da Coca-Cola e que antes eles seria verde ou roxo (mesmo hoje ao almoço tive uma conversa sobre isso) - e lendo o artigo dificilmente se chega a alguma conclusão sobre isso.

Sim , eles dizem que "O grande responsável pela imagem de um Pai Natal barbudo, bonacheirão, trajado de vermelho e branco, chama-se Thomas Nast, um cartoonista que nada tinha a ver com a Coca-Cola ", mas a ilustarção que depois mostram é - como seria de esperar num desenho num jornal em 1863 - a preto e branco.


Já antes tiveram um episódio semelhante com o PAN e os provérbios com animais.

Primeiro, publicaram um post com o título "O PAN quer acabar com provérbios como pegar o touro pelos cornos?" e dizendo "Verdadeiro"; pouco depois alteraram o título para "O PAN apoia o fim dos provérbios com animais?", mas mantendo tudo o resto igual (hum..., um site de fact checkers para combater notícias falsas ter que mudar o título dos seus artigos porque o primeiro não era muito rigoroso é mau sinal...).

Mas de qualquer maneira, manteve-se o que me parece o problema principal: sim, é verdade que o PAN e a PETA querem que se deixe de usar provérbios a falar de animais, o que literalmente pode ser interpretado como "O PAN quer acabar com provérbios como...".

Mas para aí 99% das pessoas interpretou "PAN quer acabar..." (e substituir para "o PAN apoia o fim..." não muda muito) como "PAN quer proibir..." (e foi essa versão que circulou nas redes sociais- exemplo), o que não é o caso - os responsáveis do PAN disseram explicitamente que não querem fazer nenhuma lei sobre o assunto; já agora, ao que parece a campanha da PETA também não é para proibir essa expressões mas é apenas uma campanha sugerindo aos professores que ensinem as expressões alternativas às crianças.

Atendendo à ambiguidade da expressão "quer acabar" (e ainda mais havendo já a circular uma "fake new" que interpreta "quer acabar" como "proibir") ou mesmo "apoia do fim" talvez fizesse mais sentido "Verdadeiro, mas...".

De qualquer forma, parece-me o mesmo padrão - fazer um artigo não a esclarecer a questão em que há a grande polémica ("o PAN quer proibir provérbios?", "a cor vermelha do Pai Natal é uma criação da Coca-Cola?") para uma questão adjacente ("O PAN é contra os provérbios?", "O Pai Natal é uma criação da Coca-Cola?"), o que paradoxalmente até pode criar mais confusões - porque algumas pessoas podem ler o "verdadeiro" ou "falso" a respeito da questão adjacente, e julgarem que também se aplica à questão principal.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/12/poligrafando-o-poligrafo.html

A política militar de Trump - 21Dez2018 22:44:00
A respeito do anúncio da retirada das tropas norte-americanas da Síria (e provavelmente também do Afeganistão) e da demissão do seu "ministro da Defesa", e das reações dos "fazedores de opinião" a isso, repito o que já disse algumas vezes: muita gente o que mais se incomoda com o Trump são as poucas coisas boas que ele faz.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/12/a-politica-militar-de-trump.html

Já muito se falou da oposição do PCP à ideia de grevistas receberem enquanto fazem greve (e pelas declarações do Jerónimo de Sousa, parece que o problema não é só com esses fundos serem financiados via internet, ou mesmo com haver qualquer espécie de recolha de fundos que não as quotas sindicais - parece mesmo uma objeção de princípio aos fundos de greves, como uma conversa sado-masoquista de que o sacríficio da greve aumenta a consciência de classe).

Mas isto levanta uma discussão - porquê a raridade dos fundos de greve em Portugal (e, claro está, a raridade das campanhas de recolha de dinheiro, que só fazem sentido se houver fundos de greve)?

Veja-se que esses fundos são algo que existe largamente nos outros países e há quase 200 anos (não é difícil encontrar referências em literatura do século XIX).

Uma hipótese é que seja resultado da baixa sindicalização em Portugal, que faz com que haja pouca gente a descontar para fazer o tal fundo; ainda por cima a lei portuguesa proíbe a "closed shop" (isto, acordos laborais estipulando que a empresa só contrata trabalhadores filiados naquele sindicato), o que se existisse seria um incetivo à existência de fundos de greve (a partir do momento em que todos os trabalhadores da empresa X têm que descontar para o sindicato Z, começa a fazer um certo sentido para o sindicato criar um sistema em que na prática os fura-greves acabam por ser obrigados a subsidiar os grevistas). No entanto, mesmo em setores e/ou épocas com elevados graus de sindicalização não se ouviu falar muito em fundos de greve (e, de qualquer maneira, se é um problema de haver poucos sindicalizados a descontar para fundos, poderia-se criar fundos que também só reembolsariam os sindicalizados - era menos a entrar mas também menos a sair).

Eu suponho que é um subproduto da raridade em Portugal de greves prolongadas ("à americana"?) - aquele tipo de greve que dura até se chegar a um acordo; parece-me que em Portugal a tradição é mais a das "jornadas de luta" - greves de um ou dois dias, para mostrar "vejam como os trabalhadores estão unidos e combativos!" (veja-se aliás a importância que tem a batalha dos números sobre a adesão às greves, que é indicativa do papel de combate ritual-simbólico que a greve tem: interessa menos saber quanto prejuízo real a greve causou e mais quanto gente fez greve; é quase como se a greve fosse uma mega-sondagem)

Um aparte - além de todas aquelas greves que ouvimos falar, chegam aos serviços de recursos humanos (pelo menos na administração pública) muitos mais pré-avisos de greve da CGTP ou da Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública: sempre que há uma manifestação em Lisboa ou nas principais cidades, esses sindicatos mandam pré-aviso de greve semi-fictícios para justificar a falta de quem for à manifestação (eu em tempos trabalhei em recursos humanos e, na sequência de esse pré-aviso ter chegado, presenciei esta conversa entre uma delegada sindical e uma colega minha que estava a perguntar que greve era aquela: Delegada Sindical: "O pré-aviso é para se quiseres ir a manifestação, vais a Lisboa  coberta pela greve"; Colega: "Não, eu só vou a Lisboa coberta pela meu marido"). Mas dá-me a ideia que não são só estas greves (que ninguém houve falar) que são para fazer manifestações - mesmas as greves para serem mesmo feitas têm mais uma função propagandística que outra coisa qualquer.

E suspeito que isso é o resultado da estratégia dos partidos que controlam grande parte dos aparelhos sindicais, a começar pelo PCP: o objetivo das greves (quando esses partidos estão na oposição) é sobretudo fazer a vida difícil ao governo do momento e criar condições para que os partidos que dominam os sindicatos em questão tenham maior representação parlamentar na eleição seguinte; a vitória em si, no sentido de obrigar o patronato ou o governo a ceder às reivindicações é secundário (e interessa só na medida em que a greve tem que ter alguma probabilidade de sucesso porque senão ninguém a faz) - e reveja-se as declarações do Jerónimo, no momento em que ele diz que a greve com sacrifício contribuiu para desenvolver a sua consciência política. Basicamente, muitas das greves portuguesas não sem nem greves reformistas como nos EUA e nos países da Europa do Norte (em que as greves até podem ser muito mais duras, mas em tornos puramente de objetivos materiais dentro do sistema), nem greves revolucionárias para derrubar o governo ou mesmo toda a ordem estabelecida - são simplesmente ginástica ideológica, feita não para uma vitória imediata (seja reformista ou revolucionária), mas para "acumular forças", "desenvolver a consciência", etc (ou seja, fazer com que depois da greve haja mais pessoas a simpatizar com a ideologia dos promotores da greve do que antes). E para isso, as greves de dois dias servem - mantêm o pessoal agitado sem se emburguesar e até têm as vantagem adicionais de não hostilizarem muito a opinião pública (o que poderia representar votos para a direita na tal eleição seguinte) e também a de não precisarem de ser ganhas: uma greve permanente até haver um acordo normalmente acaba com uma vitória (caso o patronato ceda) ou uma derrota (caso o sindicato decida suspender a greve sem obter as reivindicações). Pelo contrário, uma greve intermitente de um dia ou dois pode não atingir os seus objetivos que ninguém acha isso uma derrota do sindicato, já que dá para o cenário de " a luta continua", com os sindicalistas e os seus partidos a falar do assunto, fazer umas mini-greves e a capitalizar com ele durante anos.

Assim, do ponto de vista da promoção política, greves ocasionais de dois dias fazem mais sentido do que greves permanentes até haver um acordo - no primeiro caso, há quase 100% de hipóteses dos sindicalistas e dos seus partidos ganharem protagonismo e influência (só perdem caso convoquem uma greve e esta tenha visivelmente uma adesão muito reduzida); no segundo, há 50% de hipóteses de perderem essa influência e protagonismo (em caso de derrota de uma greve prolongada, é suficiente para abalar a carreira de um líder sindical), e nem estou certo que os 50% de vitória garantam muito mais protagonismo a longo prazo do que estar à frente de lutas que não atam nem desatam (ironicamente, se vermos a coisa do ponto de vista dos partidos e não dos sindicalistas individuais, até é possível que uma luta que se arrasta durante anos com greves episódicas dê mais votos que uma luta vitoriosa - para quê votar no partido tal nas eleições se o problema já foi resolvido?).

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/12/os-fundos-de-greve.html

A decisão da Assembleia da República de incluir mais algumas vacinas no Plano Nacional de Vacinação levantou muitas objeções, de que o parlamento não teria nada que se meter em decisões técnicas. Será mesmo assim?

Vamos lá ver -  que razões técnicas poderão haver para não se incluir uma dada vacina no Plano Nacional de Vacinação? À primeira vista, poderá-se imaginar estas:

a) A dita vacina, pura e simplesmente, não fazer efeito

b) A vacina fazer pouco efeito (isto é, muita gente que toma a vacina acaba à mesma por desenvolver a doença)

c) O risco de apanhar a doença que a vacina em causa previne é muito baixo à partida

d) A vacina contra a doença A pode aumentar a probabilidade de contrair a doença B (p.ex., li algures que a vacinação contra a varicela nas crianças pode aumentar a probabilidade de infecções por herpes zoster nos adultos, ou coisa parecida)


Mas, se vermos bem, apenas o motivo a) e talvez o d) são motivos puramente "técnicos" para não incluir uma vacina no PNV - no caso de b) e c), incluir ou não incluir a vacina no PNV já implica fazer um juízo valorativo sobre se a redução de riscos compensa o dinheiro que se vai gastar com as vacinas, o que me parece uma decisão política e não puramente técnica (a função dos técnicos aí será sobretudo informar os decisores políticos - sejam eles o parlamento, o governo ou um hipotético referendo nacional cibernético - dizendo algo como "por um custo de X euros/anos, iremos ter menos Z pessoas doentes  por ano; agora decidam vocês se vale a pena"). Mesmo no caso d), de haver o risco de vacinar contra uma doença aumentar o risco de contrair outra, pode haver situações em que se imponha o tal juízo valorativo e não apenas técnico; p.ex, imagine-se que uma vacina reduzisse em 80% a probabilidade de contrair uma doença de risco mediano e aumenta em 30% a probabilidade de contrair uma doença grave - decidir se o risco ultrapassa o benefício nesse caso já me parece uma decisão mais política nesse caso.

Poderá perguntar-se se nessas questões que implicam fazer um juízo valorativo (vale a pena gastar muito dinheiro para prevenir um pequeno risco? vale a pena evitar a doença A mas aumentar o risco de contrair a doença B?) a decisão, mais do que técnica ou política não deveria ser individual (afinal, esses juízos têm muito de subjetivo) - estilo dar às famílias ou dinheiro que se gastaria com essas vacinas polémicas (p.ex., sob a forma de abono de família) e depois cada um decidiria se valia a pena pagar pela vacina ou gastar o dinheiro noutra coisa qualquer. Isso talvez faça sentido nalgumas situações, mas há pelo menos duas razões que justificam uma componente de decisão coletiva e não apenas individual nas vacinas: a principal é que a decisão de um individuo vacinar-se ou não por regra não o afeta só a ele - uma pessoa não vacinada representa um perigo também para as outras pessoas; e além disso, grande parte das decisões sobre vacinas são feitas numa idade em que o individuo a ser vacinado ainda não é autónomo (ou se calhar ainda nem fala ou anda), sendo tomadas pelos seus pais ou equivalentes e não pelo interessado principal.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/12/o-plano-nacional-de-vacinacao-decisao.html

Importantes mudanças em curso. - 01Dez2018 20:51:00
Angola está a mudar a partir do interior do MPLA e da sua liderança. João Lourenço está a fazer uma revolução a partir da Presidência da República. O discurso na abertura da 6ª sessão do comité central do MPLA é uma peça política que sinaliza essa transformação. A sociedade angolana vai democratizar-se e vai progredir. Haverá mais justiça social e menos desigualdade. O combate à corrupção, que durante décadas canibalizou os recursos de todos em favor de alguns influentes "camaradas", é o catalizador dessa mudança. Chegará o tempo em que o MPLA será substituído no poder. Mas, aí chegado, deixará um país mais democrático e mais próspero, melhor governado. Não é coisa menor, antes pelo contrário: João Lourenço meteu mãos a uma tarefa colossal. A sua coragem política parece ser capaz de rivalizar com a sua determinação tranquila e até suave. Um nome para a galeria dos grandes dirigentes africanos.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/12/importantes-mudancas-em-curso.html

Henrique Raposo, no Expresso, escreve ("Graus de dor") que:
"A divisão de classe é a mais profunda de todas; é mais forte do que a questão racial, de género ou sexual, diz Quarry. Concordo. Mas a classe pode ser uma bênção paradoxal. Um negro pobre sofre mais por ser pobre do que por ser negro. Um gay pobre sobre mais por ser pobre do que por ser gay. Uma mulher pobre sofre mais por ser pobre do que por ser mulher. Eu não sou gay, negro ou mulher, mas sinto empatia imediata por estas personagens, porque partilham comigo um traço comum, a pobreza, o coming out enquanto filho ou filha de pobres. A pobreza, ao contrário das causas do politicamente correto, une diferentes homens e mulheres debaixo da mesma empatia."
Em primeiro lugar, um disclaimer - reconheço que tenho pouco autoridade para falar destas questões da opressão, porque (ao contrário do Henrique Raposo, que ao menos vem de famílias pobres), eu venho de uma coleção de privilégios: branco, homem, heterossexual, classe média-alta. O único aspeto em que se poderia dizer que eu poderia pertencer a um grupo desfavorecido seria a minha introversão (acerca do que poderíamos chamar "introvertion gap", ver aqui ou aqui), mas essa dimensão não costuma ter (pelo menos abertamente) relevância nas divisões políticas.

Mas o raciocínio de que  "a pobreza, ao contrário das causas do politicamente correto, une diferentes homens e mulheres debaixo da mesma empatia" (e até de que isso será uma bênção paradoxal) fará sentido? A mim parece-me que não há qualquer diferença entre a pobreza e qualquer outra categoria de desfavorecimento social nesse aspeto:  imagine-se que um negro pobre sofria mais por ser negro do que por ser pobre - ia poderíamos à mesma dizer que isso unia diferentes homens e mulheres debaixo da mesma empatia, já que criava algo em comum entre negros pobres e não-pobres (e um colunista negro de classe média poderia escrever, a respeito dos negros de outras classes sociais, sexos ou orientações sexuais, "Eu não sou gay, pobre ou mulher, mas sinto empatia imediata por estas personagens, porque partilham comigo um traço comum, a experiência da discriminação racial. A cor da pele, ao contrário das causas do marxismo, une diferentes homens e mulheres debaixo da mesma empatia.") Ou então o caso da "brigada do vison", as mulheres da alta sociedade novaiorquina que há uns 100 anos apoiavam as grevistas da indústria têxtil (em que portanto a categoria "sexo" levou-as a empatizar com mulheres de outra classe social)? Ou a fama que a subcultura gay tinha de um ambiente onde se juntavam homens de todas as origens sociais? Parece-me que essa espécie de internacionalismo interidentitarianismo proletário que Henrique Raposo está a evocar ("marxismo azul"?) não é algo especial, mas uma variante de um fenómeno mais vasto que pode acontecer com qualquer outra dimensão.

Generalizando, se alguém têm simultaneamente as características A, B e C, qualquer uma delas pode ser vista como uma categoria que une em vez de dividir - se a categoria A for a mais importante para a vida dessa pessoa, isso contribui para criar empatia com outras pessoas que também apresentam a característica A mas não as B ou C; mas se a mais importante for a B, é exatamente a mesma coisa - essa pessoa vai sentir empatia com outras pessoas que também tenham a característica B, mesmo que não tenham a A ou a C; e o mesmo para quem o mais importante seja a C. Seja qual for a característica mais importante na nossa vida, isso vai contribuir para empatizarmos com as pessoas que têm essa característica, mesmo que não tenham outras características que nós temos.

Pode-se argumentar que a pobreza une mais que a raça, sexo, orientação sexual, etc. porque os pobres são um grupo numericamente mais numeroso que a maior parte das outras "categorias oprimidas", logo se a pobreza for o ponto principal de sofrimento, isso vai-te fazer empatizar com mais gente, mas isso não acaba por ser largamente incidental? Afinal, poderíamos ter perfeitamente uma sociedade em que houvesse outros "grupos oprimidos" demograficamente maiores que os pobres (p.ex., não me surpreenderia se na África do Sul do apartheid houvesse mais negros do que pobres); e mesmo na sociedade ocidental atual, se se considerar que as mulheres são um grupo discriminado, serão uma categoria numericamente muito maior que os pobres (um aparte - quando, na altura de escrever o post, estava a pensar em exemplos de outras categorias que também unissem pessoas de origens diferentes, o primeiro exemplo que me ocorreu foi o a da "brigada do vison"; será coincidência ser também aquele em que a categoria em questão abrange mais gente?).

Já agora a teoria implícita de que as "causas do politicamente correto" não unem pessoas diferente também me parece idiota por outra razão - porque aqueles movimentos cujos detratores chamam "politicamente correto" ou "identity politics" sempre seguiram (mesmo antes da palavra "interseccionalidade" ter entrado na moda) a linha da aliança dos oprimidos, a ideia de que os vários grupos oprimidos ou discriminados são aliados naturais contra o poder da elite branca, rica, masculina, heterossexual, cis-género, etc, etc. (outro aparte - as mesmas pessoas que de manhã acusam os movimentos "politicamente corretos" de serem "identitários" e de quererem dividir as pessoas em grupos separados, à tarde ficam chocadas com slogans estilo "Gays for Palestine"). Isso é ainda mais relevante se termos em atenção que não é raro os maiores preconceitos contra grupos desfavorecidas virem até mais de outros grupos desfavorecidos do que das elites (até há uma espécie de variante da "lei de Murphy" sobre isso), algo que os ativismos "politicamente corretos" costumam tentar combater (até pelo desejo de ter a maior coligação possível do seu lado) - veja-se, por exemplo, a popularidade crescente (pelo menos no mundo anglo-saxónico) da expressão "pessoas de cor" (que por vezes até é usada incluindo minorias étnicas brancas, como judeus ou imigrantes gregos); admito que é discutível se isso tem algum impacto na realidade, ou se só influencia uma minoria de ativistas, enquanto vastas minorias silenciosas continuam a odiar a outra minoria étnica do lado (e ambas a votarem "não" nos referendos sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, e a baterem nas mulheres em casa), mas se assim o for é apesar do "politicamente correto" (que passa a vida a dizer que as minorias devem estar todas do mesmo lado), não por causa de.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/11/interidentitarianismo-proletario.html

Este post estava para ter como título o seguinte: "Where are you Mr Corbyn?". O desaparecimento do líder trabalhista, face ao desastre em que se transformou a negociação final do Brexit conduzido pela atarantada senhora May, chegou a parecer chocante. A contradição que manietou Corbyn tranformou o líder trabalhista numa caricatura algo grotesca daquilo que a sua acção política parecia anunciar. Corbyn quer o sol na eira e a chuva no nabal, quer os eleitores que votaram no Remain and Reform - pelo qual ele se bateu, com pouca convicção percebe-se agora - e aqueles que votaram no Leave e que são maioritários em áreas menos urbanas em que os trabalhistas são dominantes.
A proposta que Corbyn defende de um Brexit que preserva os direitos dos trabalhadores e as questões ambientais é uma brincadeira já que a UE não o irá admitir. A UE apenas é reformável a partir de dentro e sendo essa mudança liderada por um peso pesado. Como é o caso do Reino Unido, uma das maiores economias do mundo e um dos países mais desiguais à face da Terra. Era por isso que a campanha pelo Remain and Reform fazia tanto sentido.

Ainda faz. Clarificada esta questão e devolvido a Corbyn a liderança perdida - se é que o seu encanto não se perdeu nesta triste inacção em que se deixou enredar - o Labour tem um programa de governo que é a única esperança real de começar a desmantelar o poder das grandes corporações que domina as estruturas da UE e oprime os seus povos. Um programa de uma social-democracia que recupera a participação do Estado na economia e o seu reforço em sectores estratégicos, como a energia e os transportes, e que concretiza uma forte redistribuição da riqueza produzida. Isto tudo servido pela politização do dia a dia dos cidadãos, pela mudança de paradigma na vida dos partidos, de que o Labour é um bom exemplo, ou melhor o único exemplo no passado recente.

Vale por isso a pena prestar atenção à declaração de MacDonnell, um velho militante anti-UE, forte apoiante de Corbyn, responsável da parte mais interessante do seu programa económico, cuja declaração é, por isso, ainda mais relevante.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/11/finalmente-um-momento-de-lucidez.html

Durante muito tempo, circularam principalmente duas versões sobre o "25 de Novembro" - a direita e o centro diziam que tinha sido um (fracassado) golpe de esquerda, e esta tem sido essencialmente a versão oficial; já a extrema-esquerda radical dizia que tinha sido um (vitorioso) golpe de direita, que teria ficado à espera de algum motim nalguma unidade militar "de esquerda" (como acabou por acontecer com os paraquedistas) para lançarem um golpe há muito planeado podendo-o apresentar como se fosse um contragolpe (e colocando as autoridades da altura entre a espada e a parede - "ou proclamam a lei marcial e deixam-nos conduzir as operações, ou então vão também de virada").

No entanto, nos últimos anos, entre a direita começou a ser moda comemorar o 25 de Novembro, considerando-o como tão ou mais importante que o 25 de Abril - porque é que eu digo "no entanto"? Porque parece-me que isso só faz sentido se aceitarmos a versão da extrema-esquerda radical sobre o que foi o 25 de Novembro.

Afinal, de acordo com a versão dos vencedores, no fundo não aconteceu quase nada: houve uma tentativa de golpe contra a ordem vigente, mas esse golpe foi derrotado e o país continuou no caminho em que já estava em marcha desde pelo menos a Assembleia do MFA em Tancos (em Setembro), que afastou Vasco Gonçalves (e, na prática, o PCP, que ficou reduzido a um ministro) do governo - não foi nenhum momento de viragem. Por essa versão, comemorar o 25 de Novembro faz tão sentido como faria nos últimos anos da monarquia comemorar-se o 31 de Janeiro (revolta republicana), na I República, a partir de 1920 comemorar-se o 13 de fevereiro (derrota da Monarquia do Norte), no Estado Novo comemorar-se o 18 de janeiro (revolta anarco-sindicalista e comunista contra os "sindicatos nacionais"), ou na antiga União Soviética comemorar-se o 18 de março (derrota dos revoltosos de Kronstadt) ou nos EUA o 9 de abril (rendição do exército confederado em Appomattox); até imagino que todas essas datas fossem ou sejam comemoradas, mas mais como eventos militares, não como significativos eventos políticos. Em resumo, os regimes políticos não comemoram com grande pompa e circunstância o dia em que revoltas contra eles são derrotadas.

Comemorar o 25 de Novembro como uma data tão ou mais importante que o 25 de Abril só faz sentido se se considerar que foi mesmo uma data de viragem e mudança, mas parece-me que isso só faz sentido se se aceitar uma versão parecida com a da extrema-esquerda sobre o que aconteceu nesses dias.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/11/as-versoes-sobre-o-25-de-novembro.html

Há histórias que nunca nos contam. Temos que ser nós a descobrir. A infantilização dos cidadãos leva a que possamos ser tratados como crianças. Podem então os nossos governantes evitar falar connosco de certas coisas: "isso não são histórias que se contem às criancinhas".

A única novidade da  notícia é a quantificação: 69 mil milhões de euros. Que número tão jeitoso. Há um lado inequivocamente libidinoso na economia da austeridade.

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/11/mais-coisa-menos-coisa-o-valor-do.html

Palpite - 15Nov2018 11:50:00
A Itália vai sair da UE antes do Reino Unido

Fonte: http://viasfacto.blogspot.com/2018/11/palpite.html